Resenha: O babuíno de madame Blavatsky — Peter Washington

Sobre gurus, crentes e charlatães

Tão logo passou a produzir resultados que foram tidos como profícuos até mesmo pelo público leigo, a ciência que sucedeu Newton gradativamente se impôs como o melhor conhecimento disponível ao Ocidente e ofuscou até outras tradições com as quais já se relacionara longamente, como a Religião e a Filosofia,  sendo que as tradições as quais não desejavam ou que não eram capazes de se adequar aos critérios da ciência sem se descaracterizar completamente tiveram que se reinventar para sobreviver, fosse a confrontando ou mesmo a ressignificando.

Ao mesmo tempo em que esse novo saber se restringia cada vez mais a poucos pesquisadores altamente especializados, paradoxalmente, ele foi também impondo ao grande público certa racionalidade laica dependente antes de demonstrações que de crenças particulares a qual é fomentadora daquilo que chamamos hoje de “espaço público”. Diante disso, várias religiões se depararam com a escolha de se restringirem ao espaço privado como meras idiossincrasias, ou de buscarem formas alternativas de permanecerem como conhecimento público, afinal, se era possível curar doenças graves e inventar maquinários revolucionários apenas aplicando “luz natural” na investigação da natureza, que valor teriam as especulações que se voltavam para o místico além da simples satisfação pessoal?

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Se réfléchir en Adam

MichelangeloPour reconnaître comme la condition humaine est vicieuse et misérable, le péché de Adam toujours m’a fasciné. Son geste nous met dans une situation presque entièrement en lachute, nous condamnant à respirer pour toute la vie le péché et à laisser à nos enfants le même destin malhereux.

Ainsi, il est avec une grande facilité que nous détestons Adam, parce qui nous croyons qu’il aurait pu choisir différemment une fois que nous — en lui regardant en rétrospective — croyons qui nous aurions pu.

Or, mais quelle sottise profonde est celle qui nous fait penser que nous pouvons venger où il a échoué? Pourquoi, en étant un résultat du péché, nous pensons être comme le dieu qui condamne et non comme le pecheur qui commet des erreurs? Par hasard, nous sommes capables de refuser le péché aujourd’hui?

Détester le miroir est seulement une manière insensé d’être en désaccord avec lui et, également, d’échouer miserablement avec lui.

S’il y avait la vérité dans la bible sur ce mythe, dieu aurait felicité son enfant prodigieux:

Trés bien, Adam, tu as correspondu aux attentes de Dieu. Rien de plus!

Mais la bible est religieuse et dit qui nous pouvons fuir notre humanité, que Adam aurait pu ne pas péchér, que nous sommes corrects en lui condamnant et, bien sûr, nous condamner avec lui.

En particulier, je préfère regarder mon ancestral mythologique avec un peu de curiosité et d’admiration. Si un jour je reprendre la prière, je ne vais pas avoir des doutes à lui en parler:

Merci, Adam, pour toute l’humanité que vous m’ai donné.

PS: le texte en portugais.

Pequena provocação (a)teológica

tirinhas57

1. Teoricamente, deus tudo sabe: qualquer ação sua sempre causa exatamente o que ele desejou que causasse, uma vez que seu conhecimento do futuro e do resultado de suas ações permite que elas se deem com exatidão.

Diferentemente dele, nós desconhecemos quase tudo: agimos sem saber qual será o resultado de nossa ação, por isso, erramos frequentemente em nossas tentativas e carregamos incertezas em tudo o que fazemos.

2. Mas se deus tudo sabe, então há algo que ele não sabe: como é não saber. Deus não sabe como é agir sem conhecimento, tal como um mortal, pois tem todo o conhecimento a seu dispor. Sempre que conhece, conhece absolutamente, logo, mesmo que conhecesse a ignorância, conheceria do ponto de vista de quem sabe tudo a respeito dela e não do ponto de vista de quem a experimenta “por dentro”.

Por sinal, mesmo que quisesse experimentar a ignorância enxergando por meio de nossos olhos, como se eles fossem seus óculos, por exemplo, ainda estaria enxergando a partir de sua onisciência e, consequentemente, ainda estaria sabendo de tudo em vez de experimentar a ignorância. Deus, se existir, é incapaz de entender a condição humana justamente porque é incapaz de experimentar a ignorância que a acompanha.

3. Disso se segue que ou o conceito de onisciência é contraditório, ou que deus não é onisciente. Ou que eu fiz algum raciocínio errado aí atrás, é claro.

Que venham as refutações.

Duas notinhas sobre esse texto: a primeira é que a tirinha magnífica que o ilustra vem do ótimo Um sábado qualquer; já a segunda é que minha amiga Victória Fajardo (também filósofa) lhe fez uma objeção interessante que eu gostaria que constasse aqui: ela considerou que Jesus, ao ser um deus que se fez humano e que perdeu sua temporariamente sua onisciência, poderia experimentar a ignorância. Eu concordo com ela, entretanto, acrescento que se depois de sua morte Jesus voltasse a ser onisciente, então o problema voltaria e mesmo quando pensasse em sua própria experiência de ignorância ele estaria incapacitado de experimentá-la.

Espelhar-se em Adão

MichelangeloPor reconhecer como a condição humana é viciosa e miserável, o pecado de Adão sempre me fascinou. Seu ato nos coloca numa situação quase inteiramente decaída, condenando-nos a respirar por toda vida o pecado e a legar aos nossos filhos o mesmo destino infeliz.

Por causa disso, é com grande facilidade que passamos a odiar Adão, crendo que ele poderia ter escolhido diferentemente porque nós — olhando-o em retrospectiva — acreditamos que poderíamos.

Ora, mas que tolice profunda é essa que nos faz pensar que poderíamos vingar naquilo que ele fracassou? Por que, sendo fruto do pecado, pensamos ser como o deus que condena e não como o pecador que erra? Por acaso somos capazes de recusar o pecado hoje?

Odiar o espelho que é Adão é apenas um modo tolo de discordar dele e, igualmente, de fracassar miseravelmente com ele.

Caso existisse verdade na bíblia a respeito desse mito, deus teria felicitado seu filho prodigioso:

Muito bem, Adão. Pecaste: correspondeste às expectativas do próprio Deus. E nada pode ser maior!

Mas a bíblia envereda pela religião e diz que podemos fugir à nossa humanidade, que Adão poderia não ter pecado, que estamos corretos em condená-lo e, é claro, em nos condenarmos com ele.

Particularmente, prefiro contemplar meu ancestral mitológico com alguma curiosidade e admiração. Se um dia voltar a rezar, não terei dúvidas em lhe dizer:

— Obrigado, Adão, por toda a humanidade que me deste.