Sete motivos para você não se tornar professor — Pedro P. Bittencourt

Em uma publicação anterior, mencionei algumas razões que levam pessoas para carreiras na educação. Comentei também que eram razões bastante pessoais, baseadas em minhas vivências e em conversas com amigos e colegas. Minha ideia era simplesmente te dar algum indicativo de que talvez valesse a pena você pensar em seguir essa carreira. Não era uma lista sobre qualidades de um bom professor ou sobre os benefícios da profissão. Essa, a princípio, era a ideia.

Assim, faço agora um complemento àquele texto. Pretendo te mostrar sete pontos que fazem pessoas desistirem da ideia de se tornarem professores, às vezes no meio do caminho. Assim, essa lista talvez possa ser encarada, sim, como um compêndio de “malefícios da profissão”, suas desvantagens, coisas do tipo. Mais uma vez, a ideia fazer uma comparação que permita colocar as coisas em perspectiva, colocar cada ponto nos pratos da balança e ver qual lado pesa mais.

Outro fato importante: ambos os textos foram escritos em conjunto porque achei que isto faria mais sentido. Além de evitar que eu publicasse um sem ter ideia do outro, isto me permitia também incluir e retirar coisas de uma lista ou de outra, tentando pesar demais para um lado específico. E o que me soa pertinente: no começo foi muito mais fácil pensar em motivos para te desmotivar do que para tentar te convencer. Talvez por isso tenha demorado tanto; era mais fácil eu pensar em coisas negativas do que em positivas, o que me fazia pensar “pera, isso não tá certo; quem, afinal, eu tô tentando convencer, as pessoas ou a mim mesmo?”.

Talvez as duas respostas sejam verdadeiras. Na coluna da direita eu escrevia pontos fracos e olhava pra coluna da esquerda, vazia, pensando “ok, mas também tem as coisas boas, né”. Não foi uma tarefa simples. Porque é o tipo de coisa que incomoda. Pensar que não estou fazendo o que acredito, encarar a frustração diária, o desespero cotidiano. Aquela sensação permanente de fracasso. E de vazio.

Não gostaria que essa lista te fizesse desistir de se tornar professor. Ainda acho que você deve, sim, investir nessa carreira  —  e acredito que se você acompanha o que escrevo, as chances são boas. Meu maior objetivo com essa série de publicações é mostrar que: ser professor é muito recompensador. Mas o desafio é gigantesco.

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O filósofo do contra (trecho) — José Arthur Giannotti

O grande perigo do jornal – e eu tenho participado dele – é que de repente começam a pedir coisas sistematicamente a você. Daí você começa a escrever de acordo com o pedido, e, se faz assim, escreve de acordo com o efeito que vai produzir entre os leitores – daqui a pouco estará escrevendo o que as pessoas querem ouvir, não o que você quer falar. Para o intelectual isso é muito fácil porque pode-se pegar qualquer ideias que esteja circulando e legitimá-la através da citação de um filósofo. E gosto não se discute. Então o que acabamos fazendo é pegar um conceito popular e conferir-lhe um pseudo estatuto cientifico – e com isso as pessoas que estão nos ouvindo ficam absolutamente felizes porque dizem, ah, pois não é exatamente o que eu estava pensando… Resultado: nos tornamos ecos do senso comum, que é o da mistificação. Temos que pensar popularmente, mas dispensando o senso comum. Somos intelectuais da miséria mas não queremos ser intelectuais miseráveis.”

Nota: trata-se de uma entrevista com o filósofo José Arthur Giannotti para a Folha de São Paulo na década de oitenta. A versão completa está aqui.

Uma aporia sobre a crise venezuelana

Até a crise venezuelana ficar tão grave quanto está eu conservei certa ilusão com relação aos stalinistas brasileiros, crendo que esses tipos que comemoram a revolução Russa e tecem elogios ao comunismo soviético estariam tomados por sentimentos infantis e pela ignorância. Eu os associava a aquelas pessoas que dizem que a ditadura aconteceu para nos “salvar dos comunistas”: simples resquícios de um passado encardido. Além disso, também acreditei que se eles lessem trabalhos sérios sobre o período, agora que tanto tempo nos separa dele e que há tanto material a seu respeito, amadureceriam e abandonariam essas besteiras. Notariam enfim que estavam apenas comprando imagens historicamente datadas — “perdoa-os, pai, pois são meio idiotas”.

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Junho de 2013 e minha circunstância (Parte I de II)

Este texto é dedicado ao meu amigo Mailson Cabral

1. Eu ainda cursava a graduação em Filosofia quando as manifestações de junho de 2013 aconteceram e, embora estivesse num curso de humanas numa universidade pública e elas fossem o assunto do momento, eu não me sentia confortável para conversar com meus colegas a respeito do que ocorria. Era vitoriosa entre eles certa interpretação em que aquelas pessoas vestidas em verde e amarelo seriam direitistas raivosas, eivadas de ódio e preconceitos históricos, estando enganadas em suas reclamações e, sobretudo, em sua oposição ao governo vigente. Conquanto eu não tivesse acesso a uma opinião divergente dessa, nem mesmo a muitos elementos para formular uma, estava inclinado a rejeitá-la.

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Como abandonei o ativismo na internet — Stefanie Cirne

Divulgo hoje um texto excelente da jornalista Stefanie Cirne. Confesso que até o momento eu nada sabia a seu respeito, porém seu texto aborda muito bem um tema o qual, vez e outra, também abordo aqui, que é certa mentalidade envolvida na militância política brasileira atual, o que me deixou interessado em saber mais acerca de suas opiniões. Como abandonei o ativismo na internet, publicado na plataforma Hysteria, consiste um texto de crescimento pessoal, um relato acerca de como a autora adentrou no ativismo feminista e, no entanto, com o tempo, acumulou desconfortos a seu respeito e se repensou como pessoa.

Como sou alguém de fora desse tipo de ativismo e costumo lhe dirigir críticas (e zombarias…) justamente pela mentalidade que ele sustenta, achei interessante acompanhar o processo pelo qual Stefanie passou para se desvencilhar disso, iniciando pela adotação de discursos, símbolos, bem como trejeitos próprios desse ativismo, e em seguida se desprendendo gradativamente deles. Penso que isso deveria ocorrer naturalmente com todo ativista, entretanto, sabemos que poucos preservam aquela autonomia que os faria continuar crescendo e questionando suas crenças.

No mais, embora eu não tenha interesse em tecer comentários críticos sobre o texto, precisando divergências e coisas dessa sorte, ainda assim gostaria de comentar brevemente a situação da autora como “ex-ativista” ou “pós ativista”. Trata-se do seguinte: eu valorizo bastante esse processo em que ela se liberta dos esquemas interpretativos alheios para se tornar ela mesma; contudo, creio que esse processo só precisou transcorrer naquelas — muitas — pessoas que viveram o ativismo de forma extrema, que se intoxicaram fartamente com as opiniões que vigoravam nele. Já no surgimento dos primeiros ativistas que gritavam disparates como “dívida histórica”, “lugar de fala”, “desconstrução“, que maltratavam pessoas, que tentavam silenciar dissidências e outras coisas assim, muitos notaram os problemas implicados nessa mentalidade e a criticaram, sendo rejeitados pela turba ativista em função disso. Stefanie está ciente disso, certamente, mas a partir daí é preciso convir que, embora exista nos dias de hoje muito mais espaço no ativismo para razoabilidade e para pessoas como a própria Stefanie, alcançar essa razoabilidade é nada mais que chegar ao bom senso com anos de atraso.

No que depender de mim, que nunca me dei bem com a militância, dou as boas vindas a essas pessoas e espero poder convir com elas, porém, sem querer ser arrogante, alerto que o jogo já está rolando faz um bom tempo; vocês têm muito o que correr atrás.

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Uma tentativa de explicar “A falta do grande romance brasileiro” — José Geraldo

Dizem que deu na Folha, mas eu não leio jornal mais — então eu só fiquei sabendo através do blog do Rodrigo Gurgel, o polêmico crítico literário, de quem tenho aprendido a gostar (falo do blog e não do crítico, porque conhecer o primeiro não equivale a conhecer o segundo). Para quem não sabe do que estou falando, dou um resumo e deixo o link para quem queira ler o texto inteiro (e eu recomendo, pois vale a pena).

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Resenha: O alienado — Cirilo S. Lemos

Faz um tempinho que escrevi uma resenha a respeito do livro O alienado, de Cirilo S. Lemos, mas esqueci de dar notícia dela aqui. Trata-se de uma ficção científica a qual tem diversas semelhanças (influências) com a trilogia clássica de Asimov, sendo bastante interessante por se situar na exata medida entre a escrita inteligente e o entretenimento despretensioso. Meu texto é curtinho, mas serve de promoção crítica da obra. Caso tenham interesse, leiam-no aqui.

Sobre certas discussões de hoje

Boa parte das discussões que ocorrem hoje na internet constituem uma disputa que se resolve ao determinar quem estaria incluído ou não na “turma dos legais”, sendo que no lugar da argumentação e da crítica serão as censuras morais as quais tentarão, cada qual à sua maneira, retirar o adversário desse grupo, algo que, para quem está dentro dele, é a máxima punição que se pode infligir a alguém.

Como essas discussões deixam de ser argumentativas, elas se restringem à apologia do próprio ponto de vista e à censura do ponto de vista alheio envolvidas numa carga tal de vaidade e sentimentalismo que, por vezes, até pessoas que tentam refletir seriamente acabam seguindo esse comportamento, passando a ignorar a validade e as consequências dos argumentos em questão para simplesmente considerarem se eles estão ou não de acordo com o que seria “cool” no momento.

Mas é possível identificar e escapar desse tipo de comportamento.

Qualquer argumentação bacaninha dessas cai facilmente diante do seguinte critério: caso tal argumentação seja válida, ela então invalidará o argumento (pensamento, etc.) do outro ou apenas lhe prescreverá um comportamento? Caso ela apenas invalide, então temos aí uma ponderação legítima que se resolve no campo argumentativo, mas caso ela resulte numa prescrição, ou pior, caso ela só seja uma prescrição, caberá perguntar se, afinal, estamos mesmo discutindo ou só exigindo que o outro siga os comportamentos que prezamos.

Tal qual toda chantagem emocional, barganha sentimental, a discussão em torno da possibilidade de se enquadrar ou não num grupo só funciona enquanto a aprovação desse grupo for considerada importante, consequentemente, tão logo ela deixe de ser, estaremos livres para sermos o que quisermos.

Menos legais, é claro, isso nunca mais.

Nota: algo que vai no mesmo sentido de meu pensamento é esse textão do Henrique Guilera.