Junho de 2013 e minha circunstância (Parte I de II)

Este texto é dedicado ao meu amigo Mailson Cabral

1. Eu ainda cursava a graduação em Filosofia quando as manifestações de junho de 2013 aconteceram e, embora estivesse num curso de humanas numa universidade pública e elas fossem o assunto do momento, eu não me sentia confortável para conversar com meus colegas a respeito do que ocorria. Era vitoriosa entre eles certa interpretação em que aquelas pessoas vestidas em verde e amarelo seriam direitistas raivosas, eivadas de ódio e preconceitos históricos, estando enganadas em suas reclamações e, sobretudo, em sua oposição ao governo vigente. Conquanto eu não tivesse acesso a uma opinião divergente dessa, nem mesmo a muitos elementos para formular uma, estava inclinado a rejeitá-la.

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Como abandonei o ativismo na internet — Stefanie Cirne

Divulgo hoje um texto excelente da jornalista Stefanie Cirne. Confesso que até o momento eu nada sabia a seu respeito, porém seu texto aborda muito bem um tema o qual, vez e outra, também abordo aqui, que é certa mentalidade envolvida na militância política brasileira atual, o que me deixou interessado em saber mais acerca de suas opiniões. Como abandonei o ativismo na internet, publicado na plataforma Hysteria, consiste um texto de crescimento pessoal, um relato acerca de como a autora adentrou no ativismo feminista e, no entanto, com o tempo, acumulou desconfortos a seu respeito e se repensou como pessoa.

Como sou alguém de fora desse tipo de ativismo e costumo lhe dirigir críticas (e zombarias…) justamente pela mentalidade que ele sustenta, achei interessante acompanhar o processo pelo qual Stefanie passou para se desvencilhar disso, iniciando pela adotação de discursos, símbolos, bem como trejeitos próprios desse ativismo, e em seguida se desprendendo gradativamente deles. Penso que isso deveria ocorrer naturalmente com todo ativista, entretanto, sabemos que poucos preservam aquela autonomia que os faria continuar crescendo e questionando suas crenças.

No mais, embora eu não tenha interesse em tecer comentários críticos sobre o texto, precisando divergências e coisas dessa sorte, ainda assim gostaria de comentar brevemente a situação da autora como “ex-ativista” ou “pós ativista”. Trata-se do seguinte: eu valorizo bastante esse processo em que ela se liberta dos esquemas interpretativos alheios para se tornar ela mesma; contudo, creio que esse processo só precisou transcorrer naquelas — muitas — pessoas que viveram o ativismo de forma extrema, que se intoxicaram fartamente com as opiniões que vigoravam nele. Já no surgimento dos primeiros ativistas que gritavam disparates como “dívida histórica”, “lugar de fala”, “desconstrução“, que maltratavam pessoas, que tentavam silenciar dissidências e outras coisas assim, muitos notaram os problemas implicados nessa mentalidade e a criticaram, sendo rejeitados pela turba ativista em função disso. Stefanie está ciente disso, certamente, mas a partir daí é preciso convir que, embora exista nos dias de hoje muito mais espaço no ativismo para razoabilidade e para pessoas como a própria Stefanie, alcançar essa razoabilidade é nada mais que chegar ao bom senso com anos de atraso.

No que depender de mim, que nunca me dei bem com a militância, dou as boas vindas a essas pessoas e espero poder convir com elas, porém, sem querer ser arrogante, alerto que o jogo já está rolando faz um bom tempo; vocês têm muito o que correr atrás.

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Questões mercadológicas e intelectuais sobre os manuais de Filosofia

1. Pelo que sei, os manuais de Filosofia para ensino médio liberados atualmente pelo MEC são o Filosofando, da Maria Martins e da Maria Aranha, Filosofia Experiência do pensamento, do Silvio Gallo, Convite à filosofia, da Chauí, Filosofia e Filosofias, do Juvenal Savian, Filosofia: temas e percursos organizado pelo Vinícius Figueiredo e os livros do historiador Gilberto Cotrim, cujos títulos, salvo engano, mudam conforme a edição. Se há outros, ainda não cheguei a ter contato.

Quanto aos autores dessas obras, creio que somente a Maria Aranha e o Silvio Gallo produzem ou já produziram pesquisa sobre o ensino médio (o Cotrim não tenho certeza), ao passo que os demais pesquisaram sobre História da Filosofia, temas variados de Filosofia ou mesmo sobre a obra de um único filósofo, embora seja possível ler o que escreveram e daí extrapolar consequências para a educação. Será desses últimos autores tratarei aqui.

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Pedras e vidraças

1. Lembro que existia um aluno na minha primeira graduação que fazia discursos inflamados a cada oportunidade que encontrava. Pouco importava que o professor estivesse apenas explicando um autor ou uma teoria, ou que o questionamento do rapaz não fizesse sentido naquele contexto, pois ele levantaria a mão do mesmo jeito para se opor ao autor, ao professor, ao capitalismo, sei lá. O fato é que suas falas eram inteiramente vazias e sem qualquer resquício de inteligência, o que ajudava a perceber que eram na verdade um embuste, uma performance para atrair a atenção e fazer com que as pessoas quisessem ter com ele — “que parada de revolução é essa aí que você está falando?”.

Como soubemos depois, esse rapaz entrava e saía de de graduações de humanas “espalhando a palavra”. Diante disso, tentei imaginar quem o financiava e o que ele pretendia com aquilo, mas na época eu não tinha ideia dessas coisas. Foi a primeira vez que vi algo do tipo.

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Duas inquietações sobre House of Cards

1. Frank Underwood, um político inescrupuloso em ascensão, é uma pessoa surpreendentemente sem preconceitos. Nas várias frentes em que ataca a política americana, ele se permite conversar com as várias alas do congresso (negra, cristã, liberal, o que for) sem jamais hostilizá-las por representarem quem representam.

Frank simplesmente não liga para quem é o outro e essa falta de preconceito é parte de sua força, pois ter preconceitos significaria não poder conversar com esses grupos, não poder tramar com eles, ou ainda, não poder usá-los em benefício próprio. Com isso, é justamente a falta de escrúpulos do personagem que o torna não preconceituoso, sendo que sua virtude não é propriamente moral mas amoral.

Minha inquietação a respeito disso é a seguinte: considerando apenas relações de poder, aquele que tem moral é o fraco? Em outras palavras, moral é coisa de quem não sabe consegue pegar o que quer? No fim das contas, o preconceito é um tipo de escrúpulo, de moral? (Agora baixinho para ninguém ouvir: a moral é um tipo de preconceito?).

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Aforismos de fundo de gaveta (II)

Justiça metafísica. Segundo certa corrente metafísica, todo bem carrega certo pesar ao nascer: ele passa a existir em algum instante temporal específico, inexistindo até o momento de seu surgimento. Disso é possível concluir que todo bem envolve uma ausência de bem ou, em algumas filosofias, um mal — já ao nascer.

Caso venham a considerar isso algum dia, aqueles que tentam restabelecer a justiça finalmente entenderão que sempre partem da pior situação possível, uma vez que no fundamento de todo bem que a justiça pode trazer ou significar há sua ausência. E conquanto ela possa ser compensada, jamais poderá ser desfeita. Por mais bem-vinda que seja, nenhuma justiça futura poderá desfazer sua própria ausência até seu surgimento, consequentemente, o restabelecimento da justiça só poderá ser justo caso se faça não somente para seu presente ou para seu passado, mas, sobretudo, para seu futuro.

Aforismos de fundo de gaveta (I)

Sobre a gramática da política. Qualquer um que pretenda colocar uma espécie de ponto final na história se põe como o melhor ou mais capaz que os demais, meras vírgulas, como se os períodos da história convergissem para seu surgimento e nenhum outro pudesse surgir posteriormente e ultrapassá-lo para dar continuidade à narrativa. Assim, qualquer forma de ponto final histórico carrega uma arrogância de origem, sendo uma espécie de grito para o futuro: — Bons como eu vocês jamais serão.