Calculer le désir

Il est inhabituel que nos désirs soient bien au-delà-de nos classes sociales ou de nos possibilités immédiates de vie. Même le désir, malgrée son aura irrationelle, enroule quelque calcul, principalement la soustraction.

Par exemple: le laid n’attend pas avoir la plus belle. Il est certain qu’il la désire, ardemment, mais elle ne fera pas partie de ses plans, mais seulement de ses rêves, et un moment donné il réveillera d’eux. “Laissez les belles femmes pour les hommes sans imagination”, Proust aurait dit et il n’aurais pas mal dit, en raison de la impossibilité d’avoir ce qu’il desire, le laid le aurait appuyé.

Devant les nombreuses possibilités que nous percevons, avec le temps, qu’elles ont eté jamais possibles, qu’ils étaient seulement visibles, nous choisissons des objectifs chaque fois plus petits et nous faisons semblant qu’il est très facille et naturel faire cette sélection, que nous n’ayont jamais souhaité sinon le peu de choses que nous avons conquis. Nous souhaitons sembler heureux avec nos morceaux, avec nos miettes, comme des renards que suivent en disant aux raisins: “vous etês verts, vous etês verts”…

Mais les impossibilités ne nous laissent pas définitivement, elles restent devant nous comme une vitrage que nous pouvons regarder mais jamais toucher. Si nous la regardons avec un peu d’attention, nous percevons que son réflexe évoque des doutes sur nos sourires calculés et sur notre entêtement en disant qui oui, nous sommes heureux.

PS: le texte en portugais.

Analyse critique: La visite de la vielle dame — Friedrich Dürrenmatt

La valeur des valeurs morales

Dürrenmatt est un écrivain superficiel. En lisant ses oeuvres nous, nous trouvons personnages qui ne sont pas psycologiquement complexes, et aussi une écriture qui n’impressione pas avec cette tecnhique et avec cette érudition qui se fait respecter nécessairement. Cette superficialité, néanmoins, ne s’oppose pas à ce qui est profond; elle se superpose à lui: “Qui a observé le monde en profondeur perçoit combien de sagesse il y a dans le fait que les hommes soient superficiels. C’est son instinct de conservation qui leur apprend à être inconstants, légers et faux”, Nietzsche a dit. Alors, Dürrenmatt est un écrivain de superficie, des peaux qui cachent des abimes et des tumeurs, il écrit sur ce qui apparaît et sur ce qui se dissimule dans cet apparaître.

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Calcular o desejo

É incomum que nossas metas estejam muito além de nossas classes sociais ou de nossas possibilidades imediatas de vida. Mesmo o desejo, a despeito de sua aura irracional, envolve algum cálculo, principalmente subtração.

Por exemplo: o feio não espera ter a mais bela. É certo que ele a deseja, ardentemente, mas ela não fará parte de suas metas, somente de seus sonhos, e em algum momento ele acordará deles. “Deixe as mulheres belas para os homens sem imaginação”, diria Proust e não diria mal. Na impossibilidade de ter o que deseja, o feio o endossaria.

Diante das inúmeras possibilidades as quais vamos descobrindo que nunca foram possíveis, que eram somente visíveis, selecionamos metas cada vez menores e fingimos que é fácil e natural fazer tal seleção, e que nunca desejaríamos outras coisas senão aquelas poucas que conquistamos. Queremos parecer contentes com nossos bocados, com nossos farelos, como raposas que seguem dizendo às uvas: “estão verdes, estão verdes”…

Mas as impossibilidades jamais nos deixam definitivamente, elas permanecem diante de nós como uma vidraça que podemos olhar sem jamais tocar. Se a observamos com atenção, veremos que seu reflexo ainda levanta alguma suspeita a respeito de nossos sorrisos calculados e de nossa teimosia em dizer que sim, somos felizes.

PS: fiz uma  versão francesa desse texto aqui e fiz mais algumas reflexões no mesmo sentido desse texto aqui.

Complexo de vira-latas — Nelson Rodrigues

Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui, eu pergunto:

— Não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?

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Resenha: A visita da velha senhora — Friedrich Dürrenmatt

S> O valor dos valores morais

Dürrenmatt é um escritor superficial. Lendo suas obras encontramos personagens que não são psicologicamente densos e uma maneira de escrever que não impressiona com aquela técnica e com aquela erudição que se fazem respeitar necessariamente. Tal superficialidade, no entanto, não está contraposta ao que é profundo, mas sobreposta a ele: “Quem observou o mundo em profundidade percebe quanta sabedoria existe no fato de os homens serem superficiais. É seu instinto de conservação que lhes ensina a ser volúveis, ligeiros e falsos”1, diria Nietzsche. Nesse sentido, Dürrenmatt é um escritor de superfície, das peles que escondem abismos e tumores. Ele escreve sobre o que aparece e sobre o que é dissimulado nesse aparecer.

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Voltar à escola

Ao voltar ao ensino médio público para cumprir os estágios de minha graduação notei que, curiosamente, aquela seria  a minha primeira oportunidade de observar os alunos sem que eu mesmo estivesse nessa posição de aluno, logo, seria possível tomar certo distanciamento crítico da discência e mais que fazer anotações para cumprir meus deveres, eu também poderia pensar sobre mim mesmo na condição de ex-aluno do ensino médio e atual aluno do ensino superior. Na verdade, essa experiência acabou sendo bem mais que apenas um reencontro com certa realidade e a escrita de alguns relatórios baseados nela. Voltar à escola me tocou bastante e mudou um pouco minha percepção sobre a universidade e o papel que ela exerce na educação, além de bagunçar meus sentimentos naqueles meses.

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Algumas impressões sobre Memórias do cárcere

Sempre considerei Graciliano Ramos um escritor complicado: suas palavras duras e retilíneas expressavam pensamentos sem curvas nem beleza, que sem me causar qualquer empatia, retratavam “coisas” viscerais e impressionantes; todavia, mesmo hoje, depois de terminar meu terceiro livro dele, continuo sem entender exatamente que coisas eram essas. Honestamente, não sei ao certo o que aprendi com Graciliano Ramos e ignoro se gosto do que ele escreve ou não, se me reconheço em qualquer dito seu, se são interessantes os seus livros, sua falta de encantamento com o mundo; ignoro tudo isso; sei apenas que quero aprender mais a respeito de suas obras e que há algo de inquietante em sua prosa ou em sua pessoa que me seduz, mesmo que eu não possa entendê-la muito bem.

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Duas questões a propósito do livro de Dee Brown

9788525407009Concluí recentemente o soberbo Enterrem meu coração na curva do rio, livro de Dee Brown que narra de um modo épico e trágico os incontáveis massacres indígenas na conquista do oeste estadunidense. Trata-se de uma obra notável que durante os últimos meses preencheu meus intervalos entre leituras obrigatórias. Sinto que compensou cada página. Minha empolgação com o assunto, no entanto, não me fará escrever uma resenha do livro, uma vez que não sou historiador e não me considero competente para avaliar criticamente os posicionamentos historiográficos do autor. Seria bobagem escrever a propósito de um livro sobre o qual não sou capaz de dizer nada relevante, além disso, já existem várias resenhas ruins a respeito de boas obras por aí: um texto meu não teria qualquer nulidade nova para acrescentar.

Apesar disso, como foi bastante instigante atravessar as páginas dessa obra e ponderar a respeito daquilo que li, em vez de produzir uma resenha detalhada, gostaria de realizar duas ponderações que julgo pertinentes para historiadores e filósofos a fim percorrer, por meio delas, alguns dos problemas levantados pelo livro. Vejamos no que isso vai dar.

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