XVII — Mario Quintana

Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha…

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada…
Arde um toco de vela, amarelada…
Como o único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! Desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!

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O tempo — Mario Quintana

O despertador é um objeto abjeto.

Nele mora o Tempo. O tempo não pode viver sem

[nós, para não parar.

E todas as manhãs nos chama freneticamente como

um velho paralítico a tocar a campainha atroz.

Nós

é que vamos empurrando, dia a dia, sua cadeira de

[rodas.

Nós, os seus escravos.

Só os poetas

os amantes

os bêbados

podem fugir

por instantes

ao Velho… Mas que raiva impotente dá no Velho

quando encontra crianças a brincar de rodas

e não há outro jeito senão desviar delas a sua

[cadeira de rodas!

Porque elas, simplesmente, o ignoram…