Religare

1. Capitu não tem descrição física em Dom Casmurro. Bento até se aproxima de apresentar uma no misterioso capítulo trinta e dois, porém percebe que seus sentimentos o fazem fracassar, sendo consequência desse fracasso a moça emergente da descrição ser enevoada, esmaecida, e não passar de uma interpretação de uma personagem literária que, por sua vez, é também a estetização das memórias do narrador derivadas de suas experiências com sua amada.

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A igreja do diabo — Machado de Assis

Capítulo I — De uma ideia mirífica

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.

Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a ideia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: — Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

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Chronique de 5 de octobre de 1885 – Machado de Assis

Vous n’imaginez pas oú je suis allé le vendredi. Les lecteurs mal saivaient à peine où j’ai été vendredi. Voilá: j’ai été dans la salle de la fédération spiritiste brésilienne où j’ai ecouté la conférence que le monsieur M. F. Figueira sur le spiritisme.

Je sais que cela est une nouveauté pour les lecteurs, n’est non plus pour la fédération, qui ne m’a vu pas et ni m’a pas invité; mais il est allé cela a été ce qui m’a converti à la doctrine; il a allé ça a été ce cas imprevú de entrer là, rester, écouter et sortir sans que personne ne s’en apperçoivent.

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Crônica de 5 de outubro de 1885 — Machado de Assis

Mal adivinham os leitores onde estive sexta-feira. Lá vai; estive na sala da Federação Espírita Brasileira, onde ouvi a conferência que fez o Sr. M. F. Figueira sobre o espiritismo.

Sei que isto, que é uma novidade para os leitores, não o é menos para própria Federação, que me não viu, nem me convidou; mas foi isto mesmo que me converteu à doutrina, foi este caso inesperado de lá entrar, ficar, ouvir e sair, sem que ninguém desse pela coisa.

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Nota sobre Machado e a escravidão

MACHADOAcusaram Machado de se omitir quanto a escravidão; antes tinham acusado Cruz e Sousa da mesma coisa.

Foram uns imbecis que o fizeram.

Poderiam ter lido Machado com cuidado e visto ali — logo depois do óbvio — as severas críticas que ele dirigia contra a escravidão. Poderiam ter procurado saber do assunto e encontrariam bons motivos para que ficassem em silêncio, mas não procuraram nada. Leram literatura sofisticada de olhos fechados e depois disseram que a escuridão era oca.

Foram imbecis, completamente imbecis.

Machado poderia não ter escrito uma linha sequer sobre a escravidão e mesmo assim eles seriam imbecis, poderia ter feito somente poemas sobre moscas, caso quisesse, que eles ainda seriam imbecis.

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Da impossibilidade de descrever os olhos de Capitu

Machado-MachadodAssis-webNo capítulo 32 de Dom Casmurro Bentinho descreve os olhos de Capitu da seguinte maneira:

Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.”

A descrição é física: os olhos lembrariam o mar em seus momentos de ressaca a tragar para si quem os observa; ao mesmo tempo ela é também insuficiente: “Vá, de ressaca”, diz o narrador queixoso. O físico daria uma “ideia da feição” ao descrever de alguma maneira aquilo que é percebido, mas só alcançaria uma descrição metafórica

Bem, por que então a metáfora? 

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Resenha: Capitu — Luiz Fernando de Carvalho

capitu

Reler infielmente um clássico infiel

Lançada em 2005 pela Rede Globo com a assinatura do diretor Luiz Fernando de Carvalho, a série Capitu adapta o romance de Machado para a televisão. Tal obra despertou minha atenção desde seu lançamento por dois bons motivos: Dom Casmurro foi o livro que mais vezes reli, além disso, gosto muitíssimo do velho Machado e de seu modo de pensar e escrever.

Sendo assim, escrevi esta resenha para expressar algumas reflexões a respeito da série que aproveitam o fato de eu ter o livro sempre em mente.

Como se trata de uma obra famosa (afinal, passou na Globo) que adapta um livro que está na educação básica dos brasileiros, evitarei abordar aqueles elementos que não constituem novidades e apenas reapresentam uma história que já conhecemos. A bem dizer, pretendo delinear de que maneira Luiz de Carvalho encena Dom Casmurro e cria sua própria obra a partir do livro, pois nisso está a originalidade da série. É o seu olhar interpretando uma obra clássica e escolhendo como reencená-la que importará para a resenha.

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