O tempo — Mario Quintana

O despertador é um objeto abjeto.

Nele mora o Tempo. O tempo não pode viver sem

[nós, para não parar.

E todas as manhãs nos chama freneticamente como

um velho paralítico a tocar a campainha atroz.

Nós

é que vamos empurrando, dia a dia, sua cadeira de

[rodas.

Nós, os seus escravos.

Só os poetas

os amantes

os bêbados

podem fugir

por instantes

ao Velho… Mas que raiva impotente dá no Velho

quando encontra crianças a brincar de rodas

e não há outro jeito senão desviar delas a sua

[cadeira de rodas!

Porque elas, simplesmente, o ignoram…

Resenha: O alienado — Cirilo S. Lemos

Faz um tempinho que escrevi uma resenha a respeito do livro O alienado, de Cirilo S. Lemos, mas esqueci de dar notícia dela aqui. Trata-se de uma ficção científica a qual tem diversas semelhanças (influências) com a trilogia clássica de Asimov, sendo bastante interessante por se situar na exata medida entre a escrita inteligente e o entretenimento despretensioso. Meu texto é curtinho, mas serve de promoção crítica da obra. Caso tenham interesse, leiam-no aqui.

Religare

1. Capitu não tem descrição física em Dom Casmurro. Bento até se aproxima de apresentar uma no misterioso capítulo trinta e dois, porém percebe que seus sentimentos o fazem fracassar, sendo consequência desse fracasso a moça emergente da descrição ser enevoada, esmaecida, e não passar de uma interpretação de uma personagem literária que, por sua vez, é também a estetização das memórias do narrador derivadas de suas experiências com sua amada.

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O jogador generoso — Charles Baudelaire

Ontem, no meio da multidão do bulevar, senti-me roçado por um Ser misterioso que sempre quis conhecer e a quem reconheci imediatamente, embora jamais o tivesse visto. Havia, sem dúvida, nele, em relação a mim, um desejo análogo, pois ele me deu uma piscada de olho significativa à qual apressei-me em obedecer. Segui-o atentamente e logo desci atrás dele para uma moradia subterrânea deslumbrante onde brilhava um tal luxo que nenhuma habitação acima em Paris poderia oferecer um exemplo aproximado. Pareceu-me singular que eu já tivesse passado tantas vezes ao lado desse prestigioso esconderijo sem adivinhar a entrada. Reinava ali uma atmosfera delicada, conquanto perturbadora que fazia esquecer quase instantaneamente todos os horrores aborrecidos da vida; respirava-se ali uma sombria beatitude, análoga à que deveriam sentir os comedores de lótus, quando desembarcando em uma ilha encantada, iluminada por clarões de uma eterna tarde, sentiam nascer neles, aos sons adormecedores de melodiosas cascatas, o desejo de nunca mais rever seus lares, suas esposas, seus filhos, e de nunca mais voltar a subir sobre as altas ondas do mar.

Havia lá estranhas faces de homens e mulheres marcadas por uma beleza fatal que me parecia ter visto em épocas e em países de que me era impossível lembrar exatamente, e que me inspiravam mais uma fraterna simpatia cio que esse natural medo que nasce ordinariamente do aspecto do desconhecido. Se eu quisesse tentar definir de qualquer maneira a expressão singular de seus olhares, diria que jamais vi olhos brilhando mais energicamente do horror do tédio e do desejo imortal de se sentir viver.

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Espanquemos os pobres! — Charles Baudelaire

Durante quinze dias confinei-me em meu quarto e me cerquei de livros que estavam na moda naqueles tempos (há dezesseis ou dezessete anos); quero falar de livros em que se trata da arte de tornar os povos felizes, sábios e ricos em vinte e quatro horas. Tinha eu digerido engolido, quero dizer todas as elucubrações de todos os empresários da felicidade pública dos que aconselham a todos os pobres a se fazerem escravos e dos que persuadiam que eles são reis destronados. Ninguém acharia surpreendente que eu entrasse então em um estado de espírito vizinho da vertigem ou da estupidez.

Pareceu-me, somente, que eu sentisse, confinado, no fundo do meu intelecto, o germe obscuro de uma ideia superior a todas as fórmulas de curandeiras que eu, recentemente, vira, folheando no dicionário. Mas isso só era a ideia de uma ideia, algo de infinitamente vago.

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Resenha (no Café com Tripas): Morela — Edgar Allan Poe

Escrevi recentemente uma resenha do conto Morela, de Edgar Allan Poe, no Café com Tripas. Ainda que o tom daquele blogue difira significativamente do tom desse aqui, a análise do conto é séria e a reflexão é válida o bastante para ser divulgada aqui.

O texto participa do desafio #12MesesDePoe, em que os blogues participantes resenham, a cada novo mês, um conto do poeta inglês.

Vocês podem conferir meu texto aqui.

Resenha (no Café com Tripas): O último adeus – Cynthia Hand

Publiquei no Café com Tripas uma resenha do livro O último adeus, de Cynthia Hand.

A primeira vista, a obra está dentro do nicho de entretenimento para jovens adultos (YA) e não interessaria os leitores daqui, apesar disso, para escrever a seu respeito tive que ponderar bastante sobre a relação entre interpretação textual e crítica literária, um assunto o qual já abordei diversas vezes neste espaço (como nessa resenha e nesse texto) e pode interessar aqueles que o frequentam.

O tom utilizado lá é consideravelmente diferente do que uso aqui, porém, o conteúdo preserva o mesmo cuidado que procuro ter com os textos deste blogue. Confiram neste link.

Analyse critique: La visite de la vielle dame — Friedrich Dürrenmatt

La valeur des valeurs morales

Dürrenmatt est un écrivain superficiel. En lisant ses oeuvres nous, nous trouvons personnages qui ne sont pas psycologiquement complexes, et aussi une écriture qui n’impressione pas avec cette tecnhique et avec cette érudition qui se fait respecter nécessairement. Cette superficialité, néanmoins, ne s’oppose pas à ce qui est profond; elle se superpose à lui: “Qui a observé le monde en profondeur perçoit combien de sagesse il y a dans le fait que les hommes soient superficiels. C’est son instinct de conservation qui leur apprend à être inconstants, légers et faux”, Nietzsche a dit. Alors, Dürrenmatt est un écrivain de superficie, des peaux qui cachent des abimes et des tumeurs, il écrit sur ce qui apparaît et sur ce qui se dissimule dans cet apparaître.

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Resenha: O moleque Ricardo — José Lins do Rego

O encontro do engenho com a cidade

Faz pouco mais de um ano que iniciei um projeto pessoal com a literatura brasileira, e decidi ler sucessivamente autores do modernismo nacional em direção aos períodos mais antigos. O plano seria conhecer três livros de três escritores dessa corrente literária e depois passar à próxima, aliás, algo que estou prestes a fazer.

Entre os vários autores que li durante esse percurso, José Lins do Rego foi decerto uma de minhas melhores descobertas, sendo simples dizer por quê: é por ser delicioso o que ele escreve e o modo como escreve.  Resumindo suas virtudes do melhor modo que posso, José Lins apresenta ao seu leitor um Brasil que não mais existe e faz isso por meio de uma literatura que não somos mais capazes de praticar. Ele traz um olhar único sobre o Brasil que faz com que mesmo uma obra como O moleque Ricardo,que não está entre seus maiores acertos como artista, contenha qualidades que não estão em poder de nenhum escritor hodierno repetir.

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Resenha: Parque Industrial — Patrícia Galvão

Literatura e militância

Há uma maneira popular de se falar da obra de Patrícia Galvão que consiste em se evitar falar da obra de Patrícia Galvão e apenas ressaltar o folclore em torno da autora, ficando subentendido que aquilo que ela escreveu foi tão rico quanto aquilo que viveu.

Particularmente, considero que isso rebaixa a obra por colocar seu valor fora de si, deixando intocado qualquer mérito próprio que ela possa ter, e foi pensando nisso que planejei esta resenha: pretendo me contrapôr a essa análise que parte das circunstâncias da obra para julgar seu valor e analisar Parque industrial a partir dos méritos próprios à literatura que ela apresenta.

Como método de exposição dessa análise decidi brincar um pouco com o marxismo da autora e escrevi este texto na forma de um confrontamento dialético de ideias. Apresentarei sucessivamente as virtudes do livro (Por Pagu) e seus problemas (Contra Pagu), por fim, terminarei com uma síntese de tudo (Sintetizando Pagu).

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O papagaio depressivo — Luis Fernando Veríssimo

 Compraram o papagaio com a garantia que era um papagaio falador. Não calava a boca. Ia ser divertido. Não há nada mais engraçado do que que um papagaio certo? Aquela voz safada, aquele ar gozador. Mas este papagaio era diferente.

No momento em que chegou em casa, o papagaio rodeado pelas crianças. Dali a pouco um dos garotos foi perguntar ao pai:

— O quê?

O Papagaio estava citando Kierkegaard para as crianças. Algo sobre a insignificância do Ser diante do Nada. E fazendo a ressalva que, ao contrário de kierkegaard, ele não encontrava a resposta numa racionalização da cosmogonia cristã. O pai mandou as crianças se afastassem e encarou o papagaio.

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Duas reflexões sobre Olhai os lírios do campo

À semelhança do que fiz com Enterrem meu coração na curva do rio, em vez de resenhar Olhai os lírios do campo decidi escrever alguns pensamentos suscitados pelo livro.

Sobre o conteúdo desses pensamentos, devo advertir que não estou pretendendo fazer uma descrição fidedigna da obra, mas a situando em minha subjetividade e fazendo com que dialogue com ela.

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Resenha: Y: O último homem — Brian C. Vaughan e Pia Guerra

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A humanidade emasculada

A premissa de Y: O último homem é bastante simples: uma infecção misteriosa eliminou subitamente todos os mamíferos machos do planeta, exceto pelo ilusionista Yorick Brown e seu macaco de estimação Ampersand, sendo o destino deles e do resto do mundo aquilo que a história pretende nos apresentar.

Participando daquele conjunto de obras que situa seus acontecimentos no fim do mundo, essa HQ foge um pouco das velhas discussões acerca da sobrevivência humana em situações extremas para tocar temas atualíssimos como relações de gênero e machismo. Ao narrar a vida de personagens impossibilitados de assumir as mentalidades socialmente estabelecidas para seus sexos, conquanto dialoguem constantemente com elas e com os discursos que as legitimam, Y: O último homem nos apresenta uma trama rica e inteligentemente situada na história contemporânea, suscitando tanto questões quanto à condição social do homem e da mulher quanto à política ocidental recente e seus extremismos medonhos.

A despeito desse panorama que a envolve, a obra não se torna uma discussão teórica travestida de narrativa, mas uma história sobre pessoas, aliás, uma boa história repleta de elementos interessantes.

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Da impossibilidade de descrever os olhos de Capitu

Machado-MachadodAssis-webNo capítulo 32 de Dom Casmurro Bentinho descreve os olhos de Capitu da seguinte maneira:

Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.”

A descrição é física: os olhos lembrariam o mar em seus momentos de ressaca a tragar para si quem os observa; ao mesmo tempo ela é também insuficiente: “Vá, de ressaca”, diz o narrador queixoso. O físico daria uma “ideia da feição” ao descrever de alguma maneira aquilo que é percebido, mas só alcançaria uma descrição metafórica

Bem, por que então a metáfora? 

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Resenha: Fundação (trilogia) — Isaac Asimov

Tensões entre indivíduo e civilização

Trilogia A Fundação - Isaac AsimovTem pelo menos três anos que comprei um box com a trilogia de Asimov – Fundação, Fundação e Império e Segunda Fundação – e a abandonei numa estante. Era uma caixinha preta linda feita para ser uma armadilha para leitores tolos como eu, ávidos por adquirir bem mais do que poderiam ler, sendo que ao finalmente tomar os livros para ler, mês passado, eles estavam cobertos por uma triste camada de poeira que me fez sentir alguma culpa pela demora. Apesar disso, não direi que me arrependo desse tardar, afinal, ganhei com outras leituras, mas apenas que após os ter lido fiquei feliz pela aquisição. No fim das contas, conheci uma obra de grande qualidade.

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Resenha: Solanin — Inio Asano

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Viver simplesmente

Solanin, manga de dois volumes assinado por Inio Asano, não tem emoções fortes, nem mesmo uma trama poderosa, aliás, qualquer tentativa de escrever uma sinopse a seu respeito incorre no risco de desanimar o leitor, uma vez que ela anunciará uma história com personagens e conflitos que bem pouco impactam aquele que a lê. Afinal, qual de nós quer saber de pessoas que não são excepcionalmente únicas, que não passam por fardos pesados demais e tampouco tem um grande destino por percorrer? Quem deseja observar as existências simples e chatinhas de jovens que não representam uma juventude idealizada, reflexo de propagandas e de imagens da cultura pop? Quem quer saber da vida?

Todos nós?

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Resenha: Máquina de pinball — Clara Averbuck

Literatura não-massificada não-literária

maquina_de_pinball_1Quando soube do livro de Clara Averbuck me pareceu interessante que ele alcançasse certa notoriedade sem que fosse pelos meios que eu conhecia. A meu ver, existiriam alguns modos específicos pelos quais um livro poderia ser reconhecido: ele poderia ter um grande mérito literário e se tornar uma referência cultural duradoura, ganhando sucessivas reedições; ele poderia participar de uma grande estratégia publicitária e ser comprado e massa pelo público; finalmente, por qualquer motivo que fosse, ele poderia adentrar no sistema formal de ensino, sendo comprado e distribuído entre muitos estudantes. Máquina de pinball, entretanto, faz parte de um outro grupo de livros que sem ser motivado pela grande publicidade ou pelo sistema educacional, também não ganha destaque em função da literatura que contém: ninguém lê Clara Averbuck esperando encontrar uma grande escritora ou um grande livro. O inquietante, no entanto, é que nada disso torne menos atrativo ao público.

Assim, senti necessidade de responder algumas questões vindas dessa reflexão: para quem o livro foi escrito? Como ele atrai o público sem depender da propaganda e da literatura? Tais questões cativaram por algum tempo e será especificamente delas que tratarei nesta resenha, mais que do próprio livro como objeto de fruição. Vejamos no que dará.

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Resenha: Capitu — Luiz Fernando de Carvalho

capitu

Reler infielmente um clássico infiel

Lançada em 2005 pela Rede Globo com a assinatura do diretor Luiz Fernando de Carvalho, a série Capitu adapta o romance de Machado para a televisão. Tal obra despertou minha atenção desde seu lançamento por dois bons motivos: Dom Casmurro foi o livro que mais vezes reli, além disso, gosto muitíssimo do velho Machado e de seu modo de pensar e escrever.

Sendo assim, escrevi esta resenha para expressar algumas reflexões a respeito da série que aproveitam o fato de eu ter o livro sempre em mente.

Como se trata de uma obra famosa (afinal, passou na Globo) que adapta um livro que está na educação básica dos brasileiros, evitarei abordar aqueles elementos que não constituem novidades e apenas reapresentam uma história que já conhecemos. A bem dizer, pretendo delinear de que maneira Luiz de Carvalho encena Dom Casmurro e cria sua própria obra a partir do livro, pois nisso está a originalidade da série. É o seu olhar interpretando uma obra clássica e escolhendo como reencená-la que importará para a resenha.

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Resenha: A visita da velha senhora — Friedrich Dürrenmatt

S> O valor dos valores morais

Dürrenmatt é um escritor superficial. Lendo suas obras encontramos personagens que não são psicologicamente densos e uma maneira de escrever que não impressiona com aquela técnica e com aquela erudição que se fazem respeitar necessariamente. Tal superficialidade, no entanto, não está contraposta ao que é profundo, mas sobreposta a ele: “Quem observou o mundo em profundidade percebe quanta sabedoria existe no fato de os homens serem superficiais. É seu instinto de conservação que lhes ensina a ser volúveis, ligeiros e falsos”1, diria Nietzsche. Nesse sentido, Dürrenmatt é um escritor de superfície, das peles que escondem abismos e tumores. Ele escreve sobre o que aparece e sobre o que é dissimulado nesse aparecer.

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O triunfo do cinema

Foto0013Creio que cá no século XXI serei apenas eu a lamentar o triunfo absoluto do cinema como forma de arte. Sou, talvez, o único homem deste século que lê com mais celeridade do que assiste um filme, pois abandono as películas com tédio e é somente com vagar que volto até elas. Aquelas imagens que não precisam de nenhuma conquista, que se entregam como meretrizes e que se exibem a mim sem que eu seja necessário afetam deveras minha fruição… Por sinal, que tipo de arte é essa que prescinde de quem a aprecie? Uma película é desvelada (ou melhor: desvela-se) inteiramente sem que um espectador sequer precise assisti-la, bastando um apertar de botão, um toque frio num instrumento mecânico, que ela se entregará ao vazio. Sua performance automática ocorrerá do começo ao fim – à medida de seu ritmo – sem que venha a se apressar um passo sequer pela vergonha de fazê-lo para ninguém. Consequentemente, tendo o espectador fruído ou não, existindo um espectador ou não que veja o filme, a película encerrará o que propôs fazer no tempo que ela mesma estipula para si.

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Algumas impressões sobre Memórias do cárcere

Sempre considerei Graciliano Ramos um escritor complicado: suas palavras duras e retilíneas expressavam pensamentos sem curvas nem beleza, que sem me causar qualquer empatia, retratavam “coisas” viscerais e impressionantes; todavia, mesmo hoje, depois de terminar meu terceiro livro dele, continuo sem entender exatamente que coisas eram essas. Honestamente, não sei ao certo o que aprendi com Graciliano Ramos e ignoro se gosto do que ele escreve ou não, se me reconheço em qualquer dito seu, se são interessantes os seus livros, sua falta de encantamento com o mundo; ignoro tudo isso; sei apenas que quero aprender mais a respeito de suas obras e que há algo de inquietante em sua prosa ou em sua pessoa que me seduz, mesmo que eu não possa entendê-la muito bem.

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Nota sobre certos leitores de hoje

Faz um tempinho que em minhas aventuras pela internet tenho observado um aumento significativo no número de blogs e vlogs literários. Ler, ao que parece, está na moda, e fico bastante feliz que seja assim.

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Apesar disso, sempre que espio algum desses novos canais sobre literatura, sinto certa inquietação anotar que todos ou quase todos compartilham certas características que dizem respeito não a si mesmos, seus defeitos e qualidades, mas a determinado tipo de leitor que os constituem e a quem se dirigem. Melhor dizendo, inquetam-me algumas coisas nas pessoas que fazem tais canais e naquelas para as quais eles são feitos.

Creio serem três essas características:

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Duas questões a propósito do livro de Dee Brown

9788525407009Concluí recentemente o soberbo Enterrem meu coração na curva do rio, livro de Dee Brown que narra de um modo épico e trágico os incontáveis massacres indígenas na conquista do oeste estadunidense. Trata-se de uma obra notável que durante os últimos meses preencheu meus intervalos entre leituras obrigatórias. Sinto que compensou cada página. Minha empolgação com o assunto, no entanto, não me fará escrever uma resenha do livro, uma vez que não sou historiador e não me considero competente para avaliar criticamente os posicionamentos historiográficos do autor. Seria bobagem escrever a propósito de um livro sobre o qual não sou capaz de dizer nada relevante, além disso, já existem várias resenhas ruins a respeito de boas obras por aí: um texto meu não teria qualquer nulidade nova para acrescentar.

Apesar disso, como foi bastante instigante atravessar as páginas dessa obra e ponderar a respeito daquilo que li, em vez de produzir uma resenha detalhada, gostaria de realizar duas ponderações que julgo pertinentes para historiadores e filósofos a fim percorrer, por meio delas, alguns dos problemas levantados pelo livro. Vejamos no que isso vai dar.

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