Aforismos de fundo de gaveta (VII)

Há conceitos que são como chapeis de burro: aqueles que os utilizam logo são identificados e tratados com aquela condescendência mimoseada aos tolos que os faz até esquecer o ridículo de suas cabeças. Embora o amadurecimento chegue naturalmente para alguns deles e faça com que abandonem seus chapeis e superem a vergonha de terem desfilado publicamente nessa condição, é bem mais comum que sigam imaturos e desavergonhados por longo tempo sem sequer notar o tratamento especial que recebem. Cedo ou tarde, porém, mesmo esses atrasados conseguirão notar aquilo que sempre foi óbvio para todos e deixar sua antiga condição: “Vejam, há quem use chapeis de burro”, dirão como se desvelassem uma profunda metafísica ao apontar aqueles de quem se desvencilham e com quem até pouco tempo se misturavam. Trata-se de algo vergonhoso de ver, certamente, mas ao qual não cumpre dirigir desprezo ou piedade; há esperança mesmo para eles, pois assim como descobriram a burrice, talvez um dia possam descobrir a inteligência.

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Gosto do racionalismo

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A filosofia racionalista tem algo que sempre gostei muito que é sua propensão a levar tudo às últimas consequências.

No mundo do racionalista não há irracionalidade que não mereça uma boa sova da razão, não há hipótese descabida que não possa ser considerada seriamente para que seja revelado o seu descabimento. Essa escola não se contenta em provar suas teses, ela quer demonstrar tim-tim por tim-tim por que é impossível que elas sejam falsas, por isso, não há racionalistas covardes ou inofensivos, todos são radicais e meio excêntricos.

Você pode lhes perguntar: mas será que não estamos todos malucos? E se tudo for um sonho na brisa louca dessa vida? E se deus na verdade estiver zoando com a nossa cara?

Sem dúvida alguma eles terão uma resposta para você. Longa.

Se você perguntasse uma coisa dessas a um agostiniano, ele provavelmente te recomendaria que rezasse. Se perguntasse a um psicanalista, provavelmente acabaria numa camisa de força, e assim por diante com respostas diferentes mas igualmente desanimadoras (estou exagerando, claro).

Diante disso, o racionalismo, com suas manias todas de “substancia”, “realidade formal” e sei lá mais o quê, ainda é uma das escolas mais bacanas de se frequentar. Quando você estiver com questões muito estranhas em sua cabeça e, por um motivo ou por outro, tiver a ideia incomum de procurar um filósofo (vai saber o que você esconde dentro dessa cuca), o racionalista provavelmente sentará contigo para te recomendar um livro ou, quem sabe, te dar uma palestra…

Longa, é claro. Aqui não tem moleza.

A questão é se você está disposto ou não. Ousar saber tem seu preço e, ao menos nessa escola, ele não é barato.

Sobre certas discussões de hoje

Boa parte das discussões que ocorrem hoje na internet constituem uma disputa que se resolve ao determinar quem estaria incluído ou não na “turma dos legais”, sendo que no lugar da argumentação e da crítica serão as censuras morais as quais tentarão, cada qual à sua maneira, retirar o adversário desse grupo, algo que, para quem está dentro dele, é a máxima punição que se pode infligir a alguém.

Como essas discussões deixam de ser argumentativas, elas se restringem à apologia do próprio ponto de vista e à censura do ponto de vista alheio envolvidas numa carga tal de vaidade e sentimentalismo que, por vezes, até pessoas que tentam refletir seriamente acabam seguindo esse comportamento, passando a ignorar a validade e as consequências dos argumentos em questão para simplesmente considerarem se eles estão ou não de acordo com o que seria “cool” no momento.

Mas é possível identificar e escapar desse tipo de comportamento.

Qualquer argumentação bacaninha dessas cai facilmente diante do seguinte critério: caso tal argumentação seja válida, ela então invalidará o argumento (pensamento, etc.) do outro ou apenas lhe prescreverá um comportamento? Caso ela apenas invalide, então temos aí uma ponderação legítima que se resolve no campo argumentativo, mas caso ela resulte numa prescrição, ou pior, caso ela só seja uma prescrição, caberá perguntar se, afinal, estamos mesmo discutindo ou só exigindo que o outro siga os comportamentos que prezamos.

Tal qual toda chantagem emocional, barganha sentimental, a discussão em torno da possibilidade de se enquadrar ou não num grupo só funciona enquanto a aprovação desse grupo for considerada importante, consequentemente, tão logo ela deixe de ser, estaremos livres para sermos o que quisermos.

Menos legais, é claro, isso nunca mais.

Nota: algo que vai no mesmo sentido de meu pensamento é esse textão do Henrique Guilera.

O jogador generoso — Charles Baudelaire

Ontem, no meio da multidão do bulevar, senti-me roçado por um Ser misterioso que sempre quis conhecer e a quem reconheci imediatamente, embora jamais o tivesse visto. Havia, sem dúvida, nele, em relação a mim, um desejo análogo, pois ele me deu uma piscada de olho significativa à qual apressei-me em obedecer. Segui-o atentamente e logo desci atrás dele para uma moradia subterrânea deslumbrante onde brilhava um tal luxo que nenhuma habitação acima em Paris poderia oferecer um exemplo aproximado. Pareceu-me singular que eu já tivesse passado tantas vezes ao lado desse prestigioso esconderijo sem adivinhar a entrada. Reinava ali uma atmosfera delicada, conquanto perturbadora que fazia esquecer quase instantaneamente todos os horrores aborrecidos da vida; respirava-se ali uma sombria beatitude, análoga à que deveriam sentir os comedores de lótus, quando desembarcando em uma ilha encantada, iluminada por clarões de uma eterna tarde, sentiam nascer neles, aos sons adormecedores de melodiosas cascatas, o desejo de nunca mais rever seus lares, suas esposas, seus filhos, e de nunca mais voltar a subir sobre as altas ondas do mar.

Havia lá estranhas faces de homens e mulheres marcadas por uma beleza fatal que me parecia ter visto em épocas e em países de que me era impossível lembrar exatamente, e que me inspiravam mais uma fraterna simpatia cio que esse natural medo que nasce ordinariamente do aspecto do desconhecido. Se eu quisesse tentar definir de qualquer maneira a expressão singular de seus olhares, diria que jamais vi olhos brilhando mais energicamente do horror do tédio e do desejo imortal de se sentir viver.

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Entrevista — Yara Baumgart

Fruto da magnífica vocação da revista Veja para encontrar figuras trashs entre os endinheirados brasileiros, essa entrevista com a socialite Yara Baumgart é praticamente um clássico da filosofia nacional. Publicada em 2004, ela ficou injustamente sumida nos últimos anos até ser disponibilizada recentemente pela digitalização dos antigos números da revista.

Para todos aqueles que nunca leram essa pérola de nosso jornalismo só posso dizer que os invejo; eu gostaria de poder reler esse texto como se fosse a primeira vez.

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Foucault, aquele filósofo…

Um colega da pós-graduação (que não vejo faz muito tempo, aliás) me contou essa história.

Durante as primeiras semanas de sua graduação em Filosofia, seu professor fazia uma introdução à filosofia de Michel Foucault, apresentando de maneira geral as ideias do filósofo para mais tarde especificar o objeto de estudo curso dentro desse panorama.

Num dado momento, porém, um aluno qualquer levantou a mão pedindo a palavra. O professor a concedeu de imediato e o rapaz então questionou:

Professor, esse Foucault é aquele filósofo que era extremamente homossexual?

Um cético na Cabala — Luiz Felipe Pondé

Que tal ir aos Jardins, em São Paulo, tomar um café gostoso, falar da última viagem ao Vietnã e assistir a uma aula de cabala no Kabbalah Centre da Madonna? Definitivamente um luxo: ver e ser visto, posar de espiritualizado e “aprender” a fazer Deus trabalhar para você. Tudo de bom, não?

Você não precisa disso? Duvido. Você não tem medo da vida? Não minta. Pouco importa se compramos uma saída para o medo no Amex, se andamos de metrô ou de BMW, se frequentamos igrejas evangélicas ou aprendemos palavras mágicas em hebraico ou sânscrito, se trazemos as marcas da idade num rosto envelhecido ou as escondemos atrás da pele esticada. Pouco importa – todos nós temos medo da vida.

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A cor da consciência

Sala de espera do consultório psiquiátrico, alguns dias antes do feriado da consciência negra.

Minha namorada esperava sua consulta e minha chegada quando uma moça, também negra, sentou-se ao seu lado e puxou assunto. Era militante. Conversaram sobre movimentos sociais, o problema do racismo no Brasil, as lutas por direitos igualitários e outros assuntos assim.

Ao fim do papo, a moça lhe entregou um panfleto e a convidou para participar de um evento político naquele feriado, ao que ela agradeceu e, em sua ingenuidade para com as pessoas, perguntou:

Meu namorado é branco, mas tem muita consciência negra, ele também pode ir?

A reação foi imediata: a mulher deixou de sorrir e sem dizer mais nenhuma palavra arrancou subitamente o panfleto de suas mãos. Depois se levantou e foi sentar em outro banco. Longe. Virava-se de vez em quando para lançar olhares de ódio.

Não fomos ao evento.

O cobrador que lia Heidegger — Samir Thomaz

Nem só de Zíbia Gasparetto e Paulo Coelho vivem os leitores dos coletivos urbanos de São Paulo. Com todo o respeito aos leitores da escriba espírita e do glorioso “mago”, talvez a dupla brasileira mais lida hoje no país, mas não é todo dia que, ao transpor a catraca do ônibus, deparamos com o cobrador lendo uma obra de Heidegger.

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O papagaio depressivo — Luis Fernando Veríssimo

 Compraram o papagaio com a garantia que era um papagaio falador. Não calava a boca. Ia ser divertido. Não há nada mais engraçado do que que um papagaio certo? Aquela voz safada, aquele ar gozador. Mas este papagaio era diferente.

No momento em que chegou em casa, o papagaio rodeado pelas crianças. Dali a pouco um dos garotos foi perguntar ao pai:

— O quê?

O Papagaio estava citando Kierkegaard para as crianças. Algo sobre a insignificância do Ser diante do Nada. E fazendo a ressalva que, ao contrário de kierkegaard, ele não encontrava a resposta numa racionalização da cosmogonia cristã. O pai mandou as crianças se afastassem e encarou o papagaio.

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Argumentos toscos que ouvimos nessa vida (Parte X)

1. Você só está chateado com deus.

2. É o livro mais antigo do mundo.

3. Isso ainda está por ser revelado…

4. É uma questão de interpretação.

5. Deus criou o mundo do jeito que é: com os fósseis enterrados e tudo.

6. A inquisição nunca matou ninguém; quem matava era o Estado.

7. Não, deus não ia deixar uma coisa ruim assim acontecer.

8. Você não deveria falar mal de uma religião que não é sua.

9. Por que você não vai criticar lá no oriente?

10. Quer ser mais que deus?

Nota: a série Argumentos toscos que ouvimos nessa vida surgiu como uma maneira de rir das bizarrices argumentativas que perpassam nosso cotidiano, descontextualizando-as para que mostrem seu ridículo. Nota-se facilmente que a maioria dos argumentos expostos nessas dez partes tem um cunho religioso, entretanto, eu não os escolhi para expressar qualquer desdém por pessoas religiosas ou mesmo por qualquer religião, mas porque eles partiram de minha vivência com outras pessoas. Caso minha vida fosse outra tais argumentos também seriam.

Neste momento, eu gostaria de encerrar a série, pois quero iniciar outras que promovam discussões em formatos curtos como esse, no entanto, tenho a impressão de que ouvi tantos argumentos que seria impossível parar de publicá-la (tenho até outras partes prontas). Por conta disso, contentarei-me com um meio termo: farei uma pausa na série. No futuro voltarei a elencar novos argumentos e a dar continuidade nela, mas, por ora, quero experimentar novas coisas. Até lá.

Argumentos toscos que ouvimos nessa vida (Parte IX)

1. Antes de tudo, você precisa sentir.

2. Mas antes você precisa acreditar.

3. É objetivo: eu experimentei em minha vida.

4. É óbvio: não preciso demonstrar.

5. É científico porque tem método.

6. Eu não defendo dogmas; defendo princípios.

7. Nossa ciência está baseada nos cinco sentidos.

8. E é preciso ver com os olhos do espírito.

9. A ciência está cada vez mais perto da religião.

10. Não importa qual religião, o importante é ter Jesus.

Argumentos toscos que ouvimos nessa vida (Parte VIII)

1. Se você fosse mesmo inteligente não falaria isso…

2. Eu não preciso saber que estou certo, eu sinto.

3. Todo o mundo sabe que isso é verdade.

4. Se tanta gente acredita, só pode ser verdade.

5. Tem pessoas inteligentes que acreditam nisso; não pode ser mentira.

6. As pessoas não podem estar tão enganadas.

7. Você acha que só você é inteligente?

8. Você vai entender quando acontecer com você (ou com um parente seu).

9. Você vai entender quando tiver a minha idade.

10. Você acha que eu sou burro?

Argumentos toscos que ouvimos nessa vida (Parte VII)

1. Einstein era cristão.

2. Buda não ressuscitou.

3. Nietzsche morreu louco.

4. Hawking está tetraplégico.

5. Hitler era ateu (e comunista).

6. Chaplin se converteu no leito de morte.

7. Machado se converteu no leito de morte.

8. O Holocausto foi uma punição contra os judeus por terem traído Jesus Cristo.

9. Quem não conhece deus pelo amor conhece pela dor.

10. Você estudou tanto as outras religiões que misturou as coisas e ficou confuso; eu fico só com a minha e não me confundo.

Argumentos toscos que ouvimos nessa vida (Parte VI)

1. Quem é você para questionar isso?

2. Você é formado em quê para falar assim?

3. Você leu tanto e concluiu isso?

4. Você é tão inteligente e não entendeu ainda?

5. Você só pensa assim porque é jovem.

6. Se você pensar bem vai ver que estou certo.

7. Meu amigo é mais inteligente que você e disse que estou certo.

8. Quero ver quando você descobrir que estou certo.

9. Na hora certa você vai descobrir.

10. Depois que deus castiga, não sabe por quê.

Argumentos toscos que ouvimos nessa vida (Parte V)

1. Aff…

2. Isso nem merece resposta…

3. Nem vou perder tempo com isso…

4. Você não sabe do que está falando.

5. Cresça e depois venha falar comigo.

6. Estude mais e depois venha falar comigo.

7. Leia o livro e depois venha falar comigo.

8. Assista ao documentário e depois venha falar comigo.

9. Assista aos extras em full HD e depois venha falar comigo.

10. Você tem que abrir sua mente.

Argumentos toscos que ouvimos nessa vida (Parte III)

1. Mas é o homem que mata; deus só tira a vida.

2. Mas já encontraram a arca de Noé.

3. Mas os fósseis foram inventados pelos cientistas!

4. Mas passou no Fantástico.

5. Mas a física quântica prova o que eu digo.

6. Mas Jesus foi o maior cientista de todos os tempos.

7. Mas Ele deu sua vida por você. É assim que você agradece?

8. Mas é claro que é possível seguir tudo o que está na bíblia.

9. Mas Ele acredita em você.

10. Mas Ele existe mesmo assim.

Argumentos toscos que ouvimos nessa vida (Parte I)

1. Eu já pensei como você, mas hoje em dia eu…

2. Um dia você vai entender.

3. Cada um tem que descobrir sua própria verdade.

4. Você tem sua opinião; eu tenho a minha.

5. Você acha que estou mentindo?

6. Como você pode pensar assim?

7. Como você pode ser feliz pensando assim?

8. Hitler pensava assim.

9. Os fariseus pensavam assim.

10. Quando você entender será tarde demais.