Aforismos de fundo de gaveta (I)

Sobre a gramática da política. Qualquer um que pretenda colocar uma espécie de ponto final na história se põe como o melhor ou mais capaz que os demais, meras vírgulas, como se os períodos da história convergissem para seu surgimento e nenhum outro pudesse surgir posteriormente e ultrapassá-lo para dar continuidade à narrativa. Assim, qualquer forma de ponto final histórico carrega uma arrogância de origem, sendo uma espécie de grito para o futuro: — Bons como eu vocês jamais serão.

Resenha: Sem filhos — Corinne Maier

Sobre o custo de gerar filhos

Em vários sentidos e contextos a gravidez constitui motivo de comemoração: os avós se felicitam pela própria continuidade, as mães exibem suas barrigas como troféus e os pais são parabenizados pelo sexo bem feito. Todos querem cumprimentar quem trouxe um facho de luz a este mundo sombrio e conferir com seus próprios olhos a novidade que nasce. Ter filhos é uma maneira de se integrar socialmente e se ligar a um valor, um rastro de otimismo e fé no futuro que tem seu ápice no nascimento da criança, por isso, poucas posturas são mais polêmicas que o questionar desse valor e há poucas pessoas mais ostracizadas que aquelas que decidiram não procriar.

Deus ordenou que Noé povoasse o mundo e sua voz ecoa até hoje. Convém questioná-la?

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“A que vulgarmente chamamos Brasil”

Antes de fixar o nome que tem hoje nosso país recebeu diversos outros. Um dos primeiros foi Terra de Santa Cruz (ou Vera Cruz), como todos sabem, porém muitos outros foram utilizados nos vários documentos que deram notícia de sua existência.

Ainda no século em que foi descoberto, alguns cronistas insistiram nesse nome original por conta da acepção religiosa que ele carregava. Terra de Santa Cruz conferia ao novo lugar uma finalidade excelsa que parecia ser mais conforme aos planos de deus. Como uma forma de fortalecer a nomenclatura e fazê-la vingar escreveram até mesmo uma História da província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil.

Eis um título curioso para um livro.

Ele nos faz notar que Brasil (grafado também como Bracir, Bersil, Bresilge, Bracil e outros) era o nome vulgar que sublinhava os interesses mesquinhos dos homens e remetia à mundanidade e à corporeidade da terra.

De certa forma a palavra feria a finalidade superior que os cronistas queriam lhe conferir e aí estava a importância do nome: ele decretava a razão de ser daquela terra. Ela serviria às finalidades de deus ou do diabo?

Queriam os cronistas que servisse às de deus e por isso insistiram na Terra de Santa Cruz. Botaram o nome na capa do livro e tudo. Acho que ninguém leu.

A despeito desse nobre objetivo, aqueles que colonizaram o Brasil jamais deixaram de buscar no país a corporeidade de seus recursos e a materialidade daquilo que ele pôde oferecer para fins de enriquecimento pessoal, ainda que a expensas dos povos que viviam aqui.

O divino age de maneiras misteriosas…

Onde estariam agora as cruzes santas e as finalidades superiores? Fugiram com as caravelas pelo mar sem fim.

Bem, mas e os índios? Foram ter com deus.

Ficamos apenas nós com o nome de uma mercadoria para designar um drama, um país.

Mas e o deus das cruzes santas aonde foi? Onde estará deus?

Águas passadas, amigos, águas passadas…

PS: este texto foi inteiramente baseado no artigo O nome do Brasil, de Laura de Mello e Souza.

Resenha: Contra-História da Filosofia — Michel Onfray

Por outra História da Filosofia

A Contra-História da Filosofia ficou bastante conhecida não somente por conta de seu idiossincrático autor, Michel Onfray, mas também por suas intenções bastante provocativas, uma vez que ela, ao pretender subverter certa corrente historiográfica que valorizaria demasiadamente certos filósofos em detrimento de outros, acaba resgatando aqueles pensadores historicamente derrotados, colocados à margem da História. Com isso, ela revira os esqueletos da História da Filosofia e incomoda certo estado de coisas do mundo acadêmico.

Pessoalmente, os livros de Onfray despertaram meu interesse desde que soube deles e, embora tenha lido somente os três primeiros volumes da coleção até agora, espero poder fazer uma caracterização justa dela. Meu estilo segue, por traquinagem, o próprio estilo empregado por Onfray nos livros.

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Duas questões a propósito do livro de Dee Brown

9788525407009Concluí recentemente o soberbo Enterrem meu coração na curva do rio, livro de Dee Brown que narra de um modo épico e trágico os incontáveis massacres indígenas na conquista do oeste estadunidense. Trata-se de uma obra notável que durante os últimos meses preencheu meus intervalos entre leituras obrigatórias. Sinto que compensou cada página. Minha empolgação com o assunto, no entanto, não me fará escrever uma resenha do livro, uma vez que não sou historiador e não me considero competente para avaliar criticamente os posicionamentos historiográficos do autor. Seria bobagem escrever a propósito de um livro sobre o qual não sou capaz de dizer nada relevante, além disso, já existem várias resenhas ruins a respeito de boas obras por aí: um texto meu não teria qualquer nulidade nova para acrescentar.

Apesar disso, como foi bastante instigante atravessar as páginas dessa obra e ponderar a respeito daquilo que li, em vez de produzir uma resenha detalhada, gostaria de realizar duas ponderações que julgo pertinentes para historiadores e filósofos a fim percorrer, por meio delas, alguns dos problemas levantados pelo livro. Vejamos no que isso vai dar.

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