Incursões literárias: o modernismo brasileiro

Confesso que nunca conheci bem a cultura brasileira e que só tardiamente descobri muitas das coisas interessantes que se fazem por aqui.

Para remediar isso, idealizei há alguns anos um roteiro de leituras que ia do modernismo ao período colonial, buscando assim conhecer melhor as escolas literárias brasileiras. Era um projeto um tanto megalomaníaco, que envolvia muitos livros, e eu deveria ter antevisto que obras de fora desse plano precisaram ser lidas por bons motivos, enquanto outras seriam lidas mesmo sem uma boa razão; contudo, eu estava animado demais para notar isso. 

Mesmo assim, entre um tropeço e outro, continuei com esse projeto e segui lendo os autores tupiniquins até conseguir completar o ciclo do modernismo (que é o que abordarei neste texto). O curioso é que, em algum momento, em vez de abandonar os livros do plano pelas leituras obrigatórias, abandonei as leituras obrigatórias pelos livros do plano. Agi como naqueles desenhos antigos em que o sujeito caminha calmamente sobre o abismo sem notar que nada mais sustenta os seus pés, sendo tarde demais quando ele se dá conta do quão longe foi.

Continuar lendo

Anúncios

Aforismos e provocações (XI)

Penso: ou nunca existiu comunismo real e a URSS e seus frutos devem ser renegados como uma herança para o presente; ou a União soviética foi realmente comunista e é preciso aceitar que os horrores que causaram foram horrores do comunismo. E, é claro, nesse último caso, será preciso aceitar também que ele falhou. O que é inaceitável é renegar o comunismo no momento das críticas e reclamar sua herança no momento de propor políticas.

A família imperial “tem sangue negro”, diz “príncipe” do Brasil

Faz algum tempo que publiquei aqui uma entrevista com a Yara Baumgart feita pela revista Veja. Nela, a socialite sustentava um discurso ridículo em que misturava filosofia, burrice e futilidade de um modo tremendamente engraçado — um clássico da filosofia nacional, como eu disse na ocasião.

Agora, replico aqui uma entrevista feita pelo portal R7 com Dom Bertrand de Orleans e Bragança, um dos descendentes de Dom Pedro que sonha em ser príncipe do Brasil. Seu discurso tem o mesmo espírito daquele de Yara, algo que constitui um alento para os historiadores. Eles agora não precisam mais invejar os filósofos, pois possuem seu próprio clássico do ridículo. 

Continuar lendo

Breve comentário sobre o livro de Mary Del Priore

Confesso que abandonei duas vezes o livro de Mary Del Priore antes de conseguir terminá-lo. Do outro lado A História do sobrenatural e do espiritismo possui um prefácio terrivelmente mal escrito que me fez crer que o restante do livro seria igualmente ruim. Na terceira vez em que me confrontei com aquele texto desagradável, porém, consegui forças para continuar avançando. Para a minha sorte, o problema do prefácio parece ser alguma sobra de uma revisão mal feita, pois o restante do livro flui com facilidade.

Apesar disso, tive uma experiência morna com a obra, sobretudo porque algumas posições teóricas da autora limitaram meu interesse e atrapalharam minha fruição. Por isso, em vez de resenhar o livro aqui, tentarei detalhar neste texto minhas críticas em relação ao texto de Del Priore.

Continuar lendo

Junho de 2013 e minha circunstância (Parte II de II)

Este texto é dedicado ao meu amigo Mailson Cabral

(Leia a primeira parte aqui)

1. Somente depois de passar anos no desemprego e no subemprego consegui entrar na universidade pública. Era o auge do governo Lula e eu estava colhendo o melhor da expansão do ensino superior e da melhoria dos indicadores sociais ocorrentes naquele tempo. Muitos daqueles que entraram comigo sentiam o mesmo e foram os primeiros de suas famílias a chegar à universidade e à universidade pública, tendo certo otimismo a respeito do futuro. Entre nós era comum a preferência pelo PT como partido representante dos avanços sociais recentes, sendo que por mais que o confrontamento político fizesse parte de nossa trajetória, renegar essa governo era algo que não esteve em questão por muito tempo (1).

Continuar lendo

Carta de Nietzsche a Franz Overbeck

[Sils-Maria, 30 de julho de 1881]

Estou inteiramente espantado, inteiramente encantado! Tenho um precursor e que precursor! Eu não conhecia quase nada de Espinosa; que eu agora ansiasse por ele foi uma “ação do instinto”. Não só, que sua tendência geral seja idêntica à minha — fazer do conhecimento o afeto mais potente — em cinco pontos capitais de sua doutrina eu me reencontro, este pensador, o mais fora da norma e o mais solitário, me é o mais próximo justamente nestas coisas: ele nega o livre-arbítrio —; os fins —; a ordem moral do mundo —; o não-egoísmo —; o mal —; se certamente também as diferenças são enormes, isso se deve mais à diversidade de época, de cultura, de ciência. In summa: minha solidão, que, como sobre montes muito altos, com freqüência provocou-me falta de ar e fez-me o sangue refluir, é ao menos agora uma dualidão. — Maravilhoso! Aliás, meu estado de saúde de forma alguma corresponde às minhas esperanças. Tempo excepcional também aqui! Eterna variação das condições atmosféricas! — isso me leva ainda a deixar a Europa! Preciso ter céu limpo durante meses, senão eu não consigo avançar. Já 6 acessos graves, com duração de dois a três dias!! — Afetuosamente

Seu amigo.

Nota: essa carta foi publicada aqui no Brasil nos Cadernos espinosanos (2007, XVI, p.131-138). A tradução é do Homero Santigo.

Aforismos de fundo de gaveta (I)

Sobre a gramática da política. Qualquer um que pretenda colocar uma espécie de ponto final na história se põe como o melhor ou mais capaz que os demais, meras vírgulas, como se os períodos da história convergissem para seu surgimento e nenhum outro pudesse surgir posteriormente e ultrapassá-lo para dar continuidade à narrativa. Assim, qualquer forma de ponto final histórico carrega uma arrogância de origem, sendo uma espécie de grito para o futuro: — Bons como eu vocês jamais serão.

Resenha: Sem filhos — Corinne Maier

Sobre o custo de gerar filhos

Em vários sentidos e contextos a gravidez constitui motivo de comemoração: os avós se felicitam pela própria continuidade, as mães exibem suas barrigas como troféus e os pais são parabenizados pelo sexo bem feito. Todos querem cumprimentar quem trouxe um facho de luz a este mundo sombrio e conferir com seus próprios olhos a novidade que nasce. Ter filhos é uma maneira de se integrar socialmente e se ligar a um valor, um rastro de otimismo e fé no futuro que tem seu ápice no nascimento da criança, por isso, poucas posturas são mais polêmicas que o questionar desse valor e há poucas pessoas mais ostracizadas que aquelas que decidiram não procriar.

Deus ordenou que Noé povoasse o mundo e sua voz ecoa até hoje. Convém questioná-la?

Continuar lendo

“A que vulgarmente chamamos Brasil”

Antes de fixar o nome que tem hoje nosso país recebeu diversos outros. Um dos primeiros foi Terra de Santa Cruz (ou Vera Cruz), como todos sabem, porém muitos outros foram utilizados nos vários documentos que deram notícia de sua existência.

Ainda no século em que foi descoberto, alguns cronistas insistiram nesse nome original por conta da acepção religiosa que ele carregava. Terra de Santa Cruz conferia ao novo lugar uma finalidade excelsa que parecia ser mais conforme aos planos de deus. Como uma forma de fortalecer a nomenclatura e fazê-la vingar escreveram até mesmo uma História da província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil.

Eis um título curioso para um livro.

Ele nos faz notar que Brasil (grafado também como Bracir, Bersil, Bresilge, Bracil e outros) era o nome vulgar que sublinhava os interesses mesquinhos dos homens e remetia à mundanidade e à corporeidade da terra.

De certa forma a palavra feria a finalidade superior que os cronistas queriam lhe conferir e aí estava a importância do nome: ele decretava a razão de ser daquela terra. Ela serviria às finalidades de deus ou do diabo?

Queriam os cronistas que servisse às de deus e por isso insistiram na Terra de Santa Cruz. Botaram o nome na capa do livro e tudo. Acho que ninguém leu.

A despeito desse nobre objetivo, aqueles que colonizaram o Brasil jamais deixaram de buscar no país a corporeidade de seus recursos e a materialidade daquilo que ele pôde oferecer para fins de enriquecimento pessoal, ainda que a expensas dos povos que viviam aqui.

O divino age de maneiras misteriosas…

Onde estariam agora as cruzes santas e as finalidades superiores? Fugiram com as caravelas pelo mar sem fim.

Bem, mas e os índios? Foram ter com deus.

Ficamos apenas nós com o nome de uma mercadoria para designar um drama, um país.

Mas e o deus das cruzes santas aonde foi? Onde estará deus?

Águas passadas, amigos, águas passadas…

PS: este texto foi inteiramente baseado no artigo O nome do Brasil, de Laura de Mello e Souza.

Resenha: Contra-História da Filosofia — Michel Onfray

Por outra História da Filosofia

A Contra-História da Filosofia ficou bastante conhecida não somente por conta de seu idiossincrático autor, Michel Onfray, mas também por suas intenções bastante provocativas, uma vez que ela, ao pretender subverter certa corrente historiográfica que valorizaria demasiadamente certos filósofos em detrimento de outros, acaba resgatando aqueles pensadores historicamente derrotados, colocados à margem da História. Com isso, ela revira os esqueletos da História da Filosofia e incomoda certo estado de coisas do mundo acadêmico.

Pessoalmente, os livros de Onfray despertaram meu interesse desde que soube deles e, embora tenha lido somente os três primeiros volumes da coleção até agora, espero poder fazer uma caracterização justa dela. Meu estilo segue, por traquinagem, o próprio estilo empregado por Onfray nos livros.

Continuar lendo

Duas questões a propósito do livro de Dee Brown

9788525407009Concluí recentemente o soberbo Enterrem meu coração na curva do rio, livro de Dee Brown que narra de um modo épico e trágico os incontáveis massacres indígenas na conquista do oeste estadunidense. Trata-se de uma obra notável que durante os últimos meses preencheu meus intervalos entre leituras obrigatórias. Sinto que compensou cada página. Minha empolgação com o assunto, no entanto, não me fará escrever uma resenha do livro, uma vez que não sou historiador e não me considero competente para avaliar criticamente os posicionamentos historiográficos do autor. Seria bobagem escrever a propósito de um livro sobre o qual não sou capaz de dizer nada relevante, além disso, já existem várias resenhas ruins a respeito de boas obras por aí: um texto meu não teria qualquer nulidade nova para acrescentar.

Apesar disso, como foi bastante instigante atravessar as páginas dessa obra e ponderar a respeito daquilo que li, em vez de produzir uma resenha detalhada, gostaria de realizar duas ponderações que julgo pertinentes para historiadores e filósofos a fim percorrer, por meio delas, alguns dos problemas levantados pelo livro. Vejamos no que isso vai dar.

Continuar lendo