Gosto do racionalismo

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A filosofia racionalista tem algo que sempre gostei muito que é sua propensão a levar tudo às últimas consequências.

No mundo do racionalista não há irracionalidade que não mereça uma boa sova da razão, não há hipótese descabida que não possa ser considerada seriamente para que seja revelado o seu descabimento. Essa escola não se contenta em provar suas teses, ela quer demonstrar tim-tim por tim-tim por que é impossível que elas sejam falsas, por isso, não há racionalistas covardes ou inofensivos, todos são radicais e meio excêntricos.

Você pode lhes perguntar: mas será que não estamos todos malucos? E se tudo for um sonho na brisa louca dessa vida? E se deus na verdade estiver zoando com a nossa cara?

Sem dúvida alguma eles terão uma resposta para você. Longa.

Se você perguntasse uma coisa dessas a um agostiniano, ele provavelmente te recomendaria que rezasse. Se perguntasse a um psicanalista, provavelmente acabaria numa camisa de força, e assim por diante com respostas diferentes mas igualmente desanimadoras (estou exagerando, claro).

Diante disso, o racionalismo, com suas manias todas de “substancia”, “realidade formal” e sei lá mais o quê, ainda é uma das escolas mais bacanas de se frequentar. Quando você estiver com questões muito estranhas em sua cabeça e, por um motivo ou por outro, tiver a ideia incomum de procurar um filósofo (vai saber o que você esconde dentro dessa cuca), o racionalista provavelmente sentará contigo para te recomendar um livro ou, quem sabe, te dar uma palestra…

Longa, é claro. Aqui não tem moleza.

A questão é se você está disposto ou não. Ousar saber tem seu preço e, ao menos nessa escola, ele não é barato.

Resenha: Invasão vertical dos bárbaros — Mario Ferreira dos Santos

Não é difícil entender Mario Ferreira dos Santos…

Ainda que fale em “cristianismo” de forma genérica e polida, é nítida sua preferência pelo catolicismo como religião, instituição e filosofia verdadeira, sendo que diante dessa confissão de fé todas as demais parecem ser incompletas ou simplesmente errôneas, padecendo de uma vontade desviada e de um desconhecimento da verdade que faz com que seus seguidores vivam vidas infelizes das quais são incapazes de se livrar por si mesmos. Por mais que possam ser perdoados, eles merecem antes a palmatória que a clemência.

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Flusser versus Descartes

Este texto é uma pequena consideração a respeito de uma crítica de Vilém Flusser (1920-1991) à filosofia de René Descartes (1596-1650) feita no livro A dúvida.

Ao analisar de forma crítica as afirmações de Flusser pretendo fazer com que este texto também sirva como um esclarecimento a propósito a filosofia de Descartes nos pontos criticados.

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Entrevista — Yara Baumgart

Fruto da magnífica vocação da revista Veja para encontrar figuras trashs entre os endinheirados brasileiros, essa entrevista com a socialite Yara Baumgart é praticamente um clássico da filosofia nacional. Publicada em 2004, ela ficou injustamente sumida nos últimos anos até ser disponibilizada recentemente pela digitalização dos antigos números da revista.

Para todos aqueles que nunca leram essa pérola de nosso jornalismo só posso dizer que os invejo; eu gostaria de poder reler esse texto como se fosse a primeira vez.

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Aforismos de fundo de gaveta (II)

Justiça metafísica. Segundo certa corrente metafísica, todo bem carrega certo pesar ao nascer: ele passa a existir em algum instante temporal específico, inexistindo até o momento de seu surgimento. Disso é possível concluir que todo bem envolve uma ausência de bem ou, em algumas filosofias, um mal — já ao nascer.

Caso venham a considerar isso algum dia, aqueles que tentam restabelecer a justiça finalmente entenderão que sempre partem da pior situação possível, uma vez que no fundamento de todo bem que a justiça pode trazer ou significar há sua ausência. E conquanto ela possa ser compensada, jamais poderá ser desfeita. Por mais bem-vinda que seja, nenhuma justiça futura poderá desfazer sua própria ausência até seu surgimento, consequentemente, o restabelecimento da justiça só poderá ser justo caso se faça não somente para seu presente ou para seu passado, mas, sobretudo, para seu futuro.

Certa ingenuidade filosófica

Por vezes, o aluno de filosofia entra no curso com uma ingenuidade curiosa: ele assiste aulas de Filosofia da Ciência, Teoria do Conhecimento, Lógica, e fica profundamente enfadado com a dimensão da teoria e com aquele palavreado complicado que ela requer. Daí, ele se dirige às aulas de Filosofia Política ou Estética procurando o “real” ali, aguardando ansiosamente o momento em que estudará a “sociedade”, o “seu tempo” e coisas assim.

Afinal, quem não sabe que a Filosofia Política fala da “realidade”, não é mesmo? O que pode ser mais objetivo e menos teórico que a “luta de classes”?

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Análise de um argumento “pró-aborto” (Parte I)

Este texto é uma incursão num tema sobre o qual não tenho posições muito firmes, a legalização do aborto. Apresentarei nele um argumento comumente utilizado para defender a discriminalização do aborto e, em seguida, discutirei qual é sua eficácia, quais são suas premissas e assim por diante.

Minha pretensão não é fazer apologias de qualquer tipo, mas analisar filosoficamente o funcionamento desse argumento e demonstrar quais são suas pressuposições e como ele, dependendo da maneira como for formulado, acaba permitindo a defesa de teses bem diversas daquelas que seus utilizadores pretendem.

Suponho que caso os raciocínios colocados aqui não contenham falhas, então eles poderão ser úteis tanto para criticar argumentos como esse quanto para melhorá-los, sendo nesse sentido que este texto pode contribuir para o debate em torno do assunto.

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O cobrador que lia Heidegger — Samir Thomaz

Nem só de Zíbia Gasparetto e Paulo Coelho vivem os leitores dos coletivos urbanos de São Paulo. Com todo o respeito aos leitores da escriba espírita e do glorioso “mago”, talvez a dupla brasileira mais lida hoje no país, mas não é todo dia que, ao transpor a catraca do ônibus, deparamos com o cobrador lendo uma obra de Heidegger.

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O papagaio depressivo — Luis Fernando Veríssimo

 Compraram o papagaio com a garantia que era um papagaio falador. Não calava a boca. Ia ser divertido. Não há nada mais engraçado do que que um papagaio certo? Aquela voz safada, aquele ar gozador. Mas este papagaio era diferente.

No momento em que chegou em casa, o papagaio rodeado pelas crianças. Dali a pouco um dos garotos foi perguntar ao pai:

— O quê?

O Papagaio estava citando Kierkegaard para as crianças. Algo sobre a insignificância do Ser diante do Nada. E fazendo a ressalva que, ao contrário de kierkegaard, ele não encontrava a resposta numa racionalização da cosmogonia cristã. O pai mandou as crianças se afastassem e encarou o papagaio.

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Análise: Descartes e a psicologia da dúvida — Olavo de Carvalho

Dedico estas reflexões ao meu amigo Marcelo Ronconi.

Este texto integra uma série que tem por objetivo analisar parágrafo por parágrafo alguns artigos de filosofia que dizem respeito aos meus interesses de pesquisa e meditação pessoal. Abordarei nele a primeira parte de Descartes e a psicologia da dúvida, texto de Olavo de Carvalho que busca apresentar e refutar alguns pressupostos da filosofia cartesiana.

Antes de passarmos à análise do artigo, entretanto, convém dizer que, dada a quantidade de equívocos que ele contém e do esforço requerido para desfazê-los, depois de apresentar os problemas da interpretação de Olavo eu não exporei ao leitor qual seria a maneira correta de interpretar Descartes, além disso, que pelos mesmos motivos eu não analisarei a segunda parte do artigo.

Para aqueles que desejarem conhecer adequadamente a questão, todavia, eu indico a leitura do primeiro capítulo livro de Enéias Forlin O papel da dúvida metafísica no processo de constituição do cogito (Humanitas, 2004).

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Análise: O sentido de uma filosofia brasileira — Márcio Nicodemos

Faz algum tempo que tenho desejado iniciar algumas análises de artigos que, por seu tamanho diminuto e por sua argumentação pouco densa, podem ser escritas com celeridade e sem tanto esforço quanto as resenhas de livros. Os assuntos de tais artigos, além de servirem como contributos aos meus interesses de pesquisa e meditação pessoal, também realizam discussões interessantes para o formato do blogue.

Tendo isso em mente, separei alguns deles para abordar daqui por diante. Começarei com o texto de Márcio Nicodemos, O sentido de uma filosofia brasileira, um texto de graduação que discute o tema da filosofia brasileira e que, embora apresente equívocos que um filósofo mais maduro não cometeria, possuindo pouca importância para a filosofia num sentido amplo e pouco valor para a própria produção acadêmica daquele que o teceu, apresenta um tema interessante e contém algumas boas ideias que merecem ser avaliadas seriamente.

Como método de abordagem, exporei primeiramente a argumentação do autor na ordem em que aparece e em seguida tecerei comentários a acerca dela, buscando criticá-la a partir dos próprios problemas dessa argumentação e não de minhas posições pessoais sobre o assunto. Para evitar uma análise demasiadamente longa, também evitarei analisar o texto em seu aspecto estilístico e em sua organização mais geral, como costumo fazer com os livros, e restringirei minha análise à argumentação principal do texto.

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Sobre o tempo e a memória nas Confissões de Agostinho

9789722713269Diz Agostinho que: “Sem dúvida que a memória é como uma espécie de estômago da alma” (pág.467), recorrendo à uma metáfora corpórea que não pretende asserir que a memória seja uma faculdade do corpo, na verdade, ela perpassaria o corpo sem se confundir com ele por existir apenas na alma.

Como não tem forma corpórea, a memória também não é um “local” onde está “armazenado” aquilo que vivemos. Nossas lembranças não podem ser recolhidas da memória como se puséssemos nossa mão dentro de um recipiente para retirá-las de lá. Elas não estão situadas no espaço físico como corpos.

Além disso, nossas lembranças não estão sujeitas ao tempo tal como as sensações que as produziram, pois enquanto as sensações desaparecem tão logo certo período decorra, as lembranças delas permanecem indefinidamente e podem, inclusive, reaparecer subitamente quando não são chamadas.

O que significaria, então, apresentar a memória como “uma espécie de estômago”? 

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Resenha: De como fazer filosofia sem ser grego, estar morto ou ser gênio — Gonzalo Palacios

como_fazer_filosofia2004Para pensar o pensamento brasileiro

No Brasil, todos os anos os professores universitários de Filosofia levam para a sala de aula certa expectativa: eles não esperam encontrar dentre seus alunos o novo Descartes ou o novo Wittgenstein que irá revolucionar a cultura e mudar nossa maneira de fazer filosofia, sendo assim, eles os ensinam como se estes fossem se tornar, no melhor dos mundos possíveis, também professores universitários. De igual modo, todos os anos esses estudantes agem conforme às expectativas de seus professores, estudando pouco nos anos de graduação e descobrindo como conservar as mesmas opiniões que já tinham antes de se tornarem filósofos durante os anos de pesquisa.

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A certeza nas Meditações de Descartes

O texto abaixo consiste numa breve comunicação que realizei durante a Oitava Semana de Orientação Filosófica e Acadêmica (VIII SOFIA) da Unifesp. Como tive a oportunidade de atuar na organização de duas edições desse evento, foi bastante agradável poder me apresentar nele este ano.

Basicamente, meu texto expunha algumas problemáticas da História da Filosofia Moderna e da filosofia de René Descates. Como este não é um espaço específico para filósofos, mudei algumas coisas nele visando torná-lo mais acessível aos leitores daqui. Façam um bom proveito.

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Resenha: Contra-História da Filosofia – Michel Onfray

Por outra História da Filosofia

A Contra-História da Filosofia ficou bastante conhecida não somente por conta de seu idiossincrático autor, Michel Onfray, mas também por suas intenções bastante provocativas, uma vez que ela, ao pretender subverter certa corrente historiográfica que valorizaria demasiadamente certos filósofos em detrimento de outros, acaba resgatando aqueles pensadores historicamente derrotados, colocados à margem da História. Com isso, ela revira os esqueletos da História da Filosofia e incomoda certo estado de coisas do mundo acadêmico.

Pessoalmente, os livros de Onfray despertaram meu interesse desde que soube deles e, embora tenha lido somente os três primeiros volumes da coleção até agora, espero poder fazer uma caracterização justa dela. Meu estilo segue, por traquinagem, o próprio estilo empregado por Onfray nos livros.

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Ler Corbisier

Não concordo com Corbisier, mas que ele escreve bonito…

A ignorância da filosofia leva geralmente a supor que essa forma de reflexão, ou de conhecimento, lida com abstrações, enquanto as ciências, as artes e as técnicas, ocupar-se-iam do concreto. Ora, o que ocorre é exatamente o contrário, pois são as ciências, as artes e as técnicas que lidam com abstrações, quer dizer, com realidades destacadas ou “abstraídas” do contexto de que fazem parte. O fenômeno biológico, por exemplo, de que se ocupa a biologia, é uma abstração, pois implica o fenômeno químico que, por sua vez, implica o fenômeno físico, etc. Qualquer obra de arte ou produto artesanal, implica o contexto cultural desse contexto. Considerado em si mesmo, não passa de uma abstração. Qualquer técnica, tomada isoladamente, sem que se leve em consideração o local e a época em que foi produzida, é também uma abstração, uma parte retirada de um todo, ou de uma totalidade.

Situando-se na perspectiva da totalidade, a filosofia é a única forma de reflexão, de pensamento e de conhecimento, que não lida com abstrações, pois mesmo quando, para efeitos metódicos ou didáticos, isola ou destaca um objeto, jamais perde a consciência de que o objeto abstraído só é o que é, só tem sentido, enquanto integrado em seu contexto, na totalidade de que faz parte.

Corbisier, Roland. Filosofia política e liberdade, pág.22. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.

PS: ocorre, porém, meu caro Corbisier, que as filosofias não encontram apenas uma totalidade mas coleções – todas pias de serem a mais totalizante dentre elas. Seguem mil vezes mil perspectivas de cada uma, em sua maioria (as que importam, pelo menos) inconciliáveis.

Minha opinião (não que interesse a um morto saber): como ninguém resolveu a questão até o momento ou fui tolo demais para descobrir quem teria sido, talvez seja o caso que, dadas as regras do jogo, cada qual encaixe o que vê do mundo naquilo que pensa dele – mas terei razão ao dizê-lo? Ou será apenas o que minha totalidade alcança?

Sobre as críticas de Rafael Menezes (mais)

Seguem abaixo minhas considerações a respeito do texto de Rafael Menezes, Sobre a resenha do livro Os filósofos.

Acerca disso é preciso dizer Rafael formulou críticas bastante específicas à minha resenha que não poderiam ser respondidas senão de modo específico, por conseguinte, minha resposta ficou bastante longa ao tanger diversos pontos. Apesar disso, tentei reduzi-la ao mínimo: ignorei minúcias que, espero, não farão falta; deixei de redigir uma conclusão mais geral; e uni algumas respostas a críticas diferentes em função da semelhança que mantinham entre si.

No mais, devo acrescentar que: qualquer nova resposta a esse assunto será dada ao pé deste texto ou daquele anterior (aqui), e que nada mais tenha a dizer sobre Herculano Pires que caiba num novo texto. O assunto finda aqui.

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Replicando: Considerações sobre a resenha do livro Os Filósofos, de José Herculano Pires, realizada pelo Sr. Homem sem Sobrenome

Foi publicado outro texto de Rafael Menezes a propósito de minha resenha sobre Herculano Pires. Este novo consiste numa continuação direta do texto anterior, com a discussão dos trechos da resenha que o antecessor não abordava.

Por conta disso, reconsidero minhas suspeitas sobre ele não ter lido o livro e também minha predisposição a publicar algo mais sobre o assunto, sendo que, tão logo eu consiga tempo, escreverei minhas considerações a respeito.

Para ler o texto de Rafael clique aqui

Sobre as críticas de Rafael Menezes

Seguem abaixo algumas considerações a respeito das críticas de Rafael Menezes, em seu texto Sobre a resenha do livro Os filósofos (para saber mais clique aqui).

Por uma questão de tempo e disponibilidade, produzi um texto bastante sintético que resume a argumentação de Rafael em quatro pontos principais. Como método de exposição, reconstruí inicialmente suas críticas e, em seguida, apresentei minhas considerações a cada uma delas. Ao término disso, fiz um balanço dos dizeres de Rafael como um todo.

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Replicando: Sobre a resenha do livro Os filósofos

Faz algum tempo que publiquei uma resenha sobre Os filósofos, uma espécie de manual de História da Filosofia do pensador espírita Herculano Pires.

Lembro que foi bastante instigante escrevê-la, dada a possibilidade de refletir sobre os problemas interpretativos que o livro continha e descobrir minhas próprias maneiras de evitá-los. Na época, imaginei que meu texto teria, sobretudo, dois tipos de leitores: aqueles interessados nas discussões históricas que eu promovia e aqueles que fossem espíritas ou leitores de Herculano, sendo que, para encontrá-los, divulguei o texto nos sites em que achei menções ao livro. Pois bem.

Eis, então, que hoje o Rafael Menezes, do blog O Espírito e o Tempo, leitor do segundo tipo, publicou um texto a propósito de minha resenha (aliás, uma refutação, sob vários aspectos) que replico logo abaixo.

Particularmente, gosto bastante disso. Ser lido, mesmo que daí se resulte uma contra-argumentação daquilo que eu afirmei, atesta que meus textos tocam temas que são relevante para outra pessoa além de mim mesmo, independentemente da concordância que tenhamos em relação aos pontos discutidos. Sendo assim, tão logo for possível, pretendo escrever algumas considerações sobre as críticas do Rafael – a quem desde já agradeço pela leitura e pelos apontamentos feitos – e com isso balancear em quais pontos concordo com elas ou não.

Até lá, aproveitem o texto dele e desconfiem um pouco de mim.  Leiam aqui.

A culpa é do aluno: reflexões sobre nosso estágio em Filosofia

O texto aí abaixo consta aqui por um motivo bem simples: trata-se da primeira comunicação sobre Filosofia que apresentei publicamente. Ela não versa acerca de História da Filosofia, analisando disputas filosóficas e coisas assim, mas expressa o meu próprio ponto de vista a respeito de algo que me interessa: a formação filosófica. Assim, por mais específico que seja o tema analisado (os problemas da licenciatura na Unifesp Guarulhos), faço um convite para que você, leitor, não se aborreça desde já e o ignore, pois há nessa discussão particular algo de fundamental para qualquer um que goste de Filosofia ou Educação, que é a pergunta pelo significado da educação filosófica.

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Resenha: Os filósofos – Herculano Pires

Um passeio anacrônico e ingênuo pela vida de alguns filósofos

Fui kardecista 3durante alguns anos e devo muito de minha sanidade aos livros de Kardec e à minha convivência com espíritas no período em que comungava com eles. Por isso, li com interesse Os filósofos e mantive durante boa parte do livro certa consideração pelo autor, primeiramente, por já ter estado “do mesmo lado que ele”, mas também porque espíritas são raros na Filosofia e pouco conhecemos suas ideias. Todos sabem que o catolicismo tem uma história repleta de nomes filosoficamente importantes como Agostinho e Tomás, que o islamismo nos deu Avicena e Averróis, que o judaísmo pariu Avicebron e Maimônides, pensadores que ajudaram a transformar suas respectivas religiões em filosofias e assim tanto enriqueceram uma quanto a outra; o espiritismo, todavia, jamais igualou tal feito e não legou à história quaisquer contribuições filosóficas conhecidas fora das fronteiras dessa religião, uma vez que, mesmo que tenham existido, não tiveram força o bastante para se impor aos não-espíritas e assim alcançar uma relevância que independa de uma concordância com esta fé.

Por isso, se há uma Filosofia Espírita (ou com base no espiritismo) que pretenda ultrapassar os portões dos centros kardecistas, cabe ainda aos filósofos descobri-la ou aos crentes escrevê-la. Como pretendo demonstrar até o fim desta resenha, no que depender do livro de Herculano Pires, meus colegas espíritas tem ainda um longo caminho do portão para fora.

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