Gosto do racionalismo

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A filosofia racionalista tem algo que sempre gostei muito que é sua propensão a levar tudo às últimas consequências.

No mundo do racionalista não há irracionalidade que não mereça uma boa sova da razão, não há hipótese descabida que não possa ser considerada seriamente para que seja revelado o seu descabimento. Essa escola não se contenta em provar suas teses, ela quer demonstrar tim-tim por tim-tim por que é impossível que elas sejam falsas, por isso, não há racionalistas covardes ou inofensivos, todos são radicais e meio excêntricos.

Você pode lhes perguntar: mas será que não estamos todos malucos? E se tudo for um sonho na brisa louca dessa vida? E se deus na verdade estiver zoando com a nossa cara?

Sem dúvida alguma eles terão uma resposta para você. Longa.

Se você perguntasse uma coisa dessas a um agostiniano, ele provavelmente te recomendaria que rezasse. Se perguntasse a um psicanalista, provavelmente acabaria numa camisa de força, e assim por diante com respostas diferentes mas igualmente desanimadoras (estou exagerando, claro).

Diante disso, o racionalismo, com suas manias todas de “substancia”, “realidade formal” e sei lá mais o quê, ainda é uma das escolas mais bacanas de se frequentar. Quando você estiver com questões muito estranhas em sua cabeça e, por um motivo ou por outro, tiver a ideia incomum de procurar um filósofo (vai saber o que você esconde dentro dessa cuca), o racionalista provavelmente sentará contigo para te recomendar um livro ou, quem sabe, te dar uma palestra…

Longa, é claro. Aqui não tem moleza.

A questão é se você está disposto ou não. Ousar saber tem seu preço e, ao menos nessa escola, ele não é barato.

Despetalar

Sonhamos em nossas infâncias as coisas mais ilógicas e magníficas, parecendo existir uma curta distância entre o querer e o realizar a qual tornava a mera idealização de um sonho quase tão poderosa quanto sua realização.

Assim, é melancólico que os brinquedos que já quisemos, a ida aos lugares antes almejados entre outras coisas dessa sorte não tenham qualquer sentido agora, e que nem mesmo lembremos bem daquilo que desejamos por muito tempo e com muita intensidade, pois é justamente hoje que temos meios para alcançar o que já quisemos.

Mas se os velhos sonhos já não fazem mais sentido, quais seriam então os novos? O que queremos realizar de mais extraordinário atualmente ou mesmo num futuro próximo?

Parece inadequado colocar tal questão e mesmo a palavra sonho, quando aplicada a um adulto, soa como se não tivesse muito cabimento, como se sonhar fosse conservar um resquício de imaturidade de tempos idos.

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Susceptibilité

Idées superieures, quelqu’un dit, et quelque chose s’agite dans mon intérieur.

Tout les genres d’idées reçu tout le genre de valeur positive, nous savons bien, mais nous devons convenir qui n’est pas dificile considerer positivement les idées.

Les idées peuvent être erronées, mais elles ne peuvent pas commetre des erreurs, elles peuvent être bonnes ou turpides, mais elles ne pouvent pas juger ce qui est bon ou turpide.

Considèrez vous l’idée de dieux, par exemple: un être omnipotent, omniscient, omniprésent. À partir de ces attributs nous comprenons qu’il est aussi juste, bon, digne d’louange, etc.

Curieusement il est trés facile être supérieur quand il est dieu…

Ah, idées superieures! Quel grandeur a n’être pas susceptible? Quelle valeur a celui que commet pas d’erreur? Ce qui n’ apprend pas en chaque choix le poids de ce qu’il a choisi? Nous souhaitons donner aux choses une valeur d’éternité et les isoler dans un monde en ce qu’elles ne peuvent pas être brisées, mais quelle valeur a ce qu’a toute l’éternité pour être ce qu’il desire? Par hasard, la grandeur n’aura été en chaque nouvelle tentative, nous pouvons poser tout à perdre?

PS: le texte en portugais.

Suscetibilidade

Ideias superiores, alguém diz, e algo se agita dentro de mim.

Ideias de todo tipo recebem todo tipo de valor positivo, bem sabemos, mas convenhamos que não é difícil ser positivamente valorado quando se é uma ideia, não?

Ideias podem estar erradas, mas não podem errar, podem ser boas ou torpes, mas não podem julgar o que é bom ou torpe.

Considerem a ideia de deus, por exemplo: um ser onipotente, onipresente e onisciente. Desses atributos se depreende também que ele é justo, bom, digno de louvor, etc.

É curioso que seja tão fácil ser superior quando se é deus…

Ah, ideias superiores! Que grandeza há em não ser suscetível? Que valor há naquilo que não erra, que não descobre a cada escolha o peso do que escolheu? Queremos dar valor de eternidade às coisas, isolando as ideias num mundo em que elas não podem ser trincadas, mas que valor tem aquilo que possui todo o tempo para ser o que quiser ser? Acaso a grandeza não estaria em, a cada nova tentativa, poder pôr tudo a perder?

PS: fiz uma  versão francesa desse texto aqui.

Quase fábula

Uma amiga. Contava-me  sobre um rapaz:

Gosto dele mas não é bonito, dizia.

(Aliás, bonita ela também não era, digo eu, mas bastava que fosse bela aos olhos dele).

O rapaz tinha um jeito simpático que a agradava, apesar do corpo e do rosto desventurados.

Que fazer então? Ela me perguntou. A questão era mais difícil do que parece.

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“Sócrates era inimigo das pessoa e da sociedade”

Disse assim, desse jeito mesmo que escrevi. Era uma aluna do segundo ano do ensino médio recitando uma redação para uma sala mais ou menos interessada. Disse também outras coisas igualmente curiosas que não convém retomar, inclusive porque ela mesma deve ter esquecido logo depois de falar.socrates-caricature-gary-brown

O inquietante era que em situações diferentes daquela, quando conversava diretamente com seus colegas no intervalo ou coisa parecida, a mesma aluna era bastante comunicativa e dispunha de um conjunto amplo de gírias, gestos e bordões para falar com outros alunos, sendo bastante consciente daquilo que queria expressar; apesar disso, naquele momento em que lia um texto perante a professora, sua fala empobrecia como se ela fosse uma criança engatinhando num idioma novo. As sentenças que construía com vocábulos pouco familiares eram desajeitadas e até vazias de sentido, tal como essa que dá título a esta crônica: “Sócrates era inimigo das pessoa e da sociedade”.

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Voltar à escola

Ao voltar ao ensino médio público para cumprir os estágios de minha graduação notei que, curiosamente, aquela seria  a minha primeira oportunidade de observar os alunos sem que eu mesmo estivesse nessa posição de aluno, logo, seria possível tomar certo distanciamento crítico da discência e mais que fazer anotações para cumprir meus deveres, eu também poderia pensar sobre mim mesmo na condição de ex-aluno do ensino médio e atual aluno do ensino superior. Na verdade, essa experiência acabou sendo bem mais que apenas um reencontro com certa realidade e a escrita de alguns relatórios baseados nela. Voltar à escola me tocou bastante e mudou um pouco minha percepção sobre a universidade e o papel que ela exerce na educação, além de bagunçar meus sentimentos naqueles meses.

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Não estou entre os grandes

Para quem esqueceu eu relembro: a luta de classes existe! Disse a moça segurando o megafone.

2E quem não sabe disso? Perguntou-me uma amiga em tom de retórica e eu não respondi, mas sorri fingindo que silenciar significava assentimento. Bem dizendo, eu não sabia e nunca soube bem; mesmo quando adotava soluções milagrosas para os problemas do mundo como se minha vida dependesse delas, sempre tive alguma dúvida.

Esquerda, educação, deus: ao meu modo, já acreditei em cada uma dessas coisas com afinco, porém, depois acumulada certa experiência e leitura, não sei mais o que restou dele, de maneira que quando me questionam a respeito, assinto covardemente com a opinião do interlocutor por medo e preguiça de machucar o que é óbvio e sagrado para ele. Foi por isso que sorri e costumo sorrir sempre.

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