Problemas da profissão de professor — PEB II — em São Paulo (Parte I)

Inicio hoje uma série de pequenos comentários sobre uma realidade que vivencio diariamente mas que apenas começo a descobrir, a saber, aquela dos professores do ensino médio público de São Paulo. Sou professor de Filosofia no Estado — PEB II — desde o último bimestre e gostaria de abordar alguns problemas da profissão com os quais tenho me deparado. Cada parte dessa série será dedicada a um deles, a começar pela carga horária.

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Questões mercadológicas e intelectuais sobre os manuais de Filosofia

1. Pelo que sei, os manuais de Filosofia para ensino médio liberados atualmente pelo MEC são o Filosofando, da Maria Martins e da Maria Aranha, Filosofia Experiência do pensamento, do Silvio Gallo, Convite à filosofia, da Chauí, Filosofia e Filosofias, do Juvenal Savian, Filosofia: temas e percursos organizado pelo Vinícius Figueiredo e os livros do historiador Gilberto Cotrim, cujos títulos, salvo engano, mudam conforme a edição. Se há outros, ainda não cheguei a ter contato.

Quanto aos autores dessas obras, creio que somente a Maria Aranha e o Silvio Gallo produzem ou já produziram pesquisa sobre o ensino médio (o Cotrim não tenho certeza), ao passo que os demais pesquisaram sobre História da Filosofia, temas variados de Filosofia ou mesmo sobre a obra de um único filósofo, embora seja possível ler o que escreveram e daí extrapolar consequências para a educação. Será desses últimos autores tratarei aqui.

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Aforismos de fundo de gaveta (V)

É com grande facilidade que qualquer um adota a ampliação da educação como valor político, afinal, o amplo apreço dedicado à educação faz com que poucos de nós queiram questioná-la como valor. Mas aquele age assim compreenderá mesmo o que está a defender? Ou crerá que um mundo mais educado é aquele em que todos pensarão como ele? Será que não desconfia que nesse novo mundo seus valorezinhos — pequenos e mesquinhos — serão ainda menos considerados na política, na arte e na academia? Será que ignora completamente que, por meio da educação, emergirá um mundo que nenhum de nós será capaz de compreender e tampouco de aprovar, uma vez que seremos nós e nossos valores que serão ultrapassados por ele?

Suspeito que muitos desses pensem que a única tarefa do futuro será lhes dar razão um dia… Em função disso, aconselho-lhes que, para que continuem seguros, sigam se ajoelhando no altar da Ignorância, sua única e verdadeira deusa. Rezem para que ela nunca falhe.

Resenha: Sem filhos — Corinne Maier

Sobre o custo de gerar filhos

Em vários sentidos e contextos a gravidez constitui motivo de comemoração: os avós se felicitam pela própria continuidade, as mães exibem suas barrigas como troféus e os pais são parabenizados pelo sexo bem feito. Todos querem cumprimentar quem trouxe um facho de luz a este mundo sombrio e conferir com seus próprios olhos a novidade que nasce. Ter filhos é uma maneira de se integrar socialmente e se ligar a um valor, um rastro de otimismo e fé no futuro que tem seu ápice no nascimento da criança, por isso, poucas posturas são mais polêmicas que o questionar desse valor e há poucas pessoas mais ostracizadas que aquelas que decidiram não procriar.

Deus ordenou que Noé povoasse o mundo e sua voz ecoa até hoje. Convém questioná-la?

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Ler Paulo Freire

Ainda sobre A educação e o processo de mudança social, diz Paulo Freire na introdução:

Comecemos por pensar sobre nós mesmos e tratemos de encontrar, na natureza do homem, algo que possa constituir o núcleo fundamental onde se sustente o processo de educação.

Qual seria este núcleo captável a partir de nossa própria experiência existencial?

Este núcleo seria o inacabamento ou a inconclusão do homem.

O cão e a árvore também são inacabados, mas o homem se sabe inacabado e por isso se educa. Não haveria educação se o homem fosse um ser acabado. O homem pergunta-se: quem sou eu? de onde venho? onde posso estar? O homem pode refletir e colocar-se num determinado momento, numa certa realidade: é um ser na busca constante de ser mais e, como pode fazer esta auto-reflexão, pode descobrir-se como um ser inacabado, que está em constante busca. Eis aqui a raiz da educação.

A educação é uma resposta da finitude da infinitude. A educação é possível para o homem, porque este é inacabado e sabe-se inacabado. Isto leva-o à sua perfeição.

Freire, Paulo. Educação e mudança, pág.27-28. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

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“Sócrates era inimigo das pessoa e da sociedade”

Disse assim, desse jeito mesmo que escrevi. Era uma aluna do segundo ano do ensino médio recitando uma redação para uma sala mais ou menos interessada. Disse também outras coisas igualmente curiosas que não convém retomar, inclusive porque ela mesma deve ter esquecido logo depois de falar.socrates-caricature-gary-brown

O inquietante era que em situações diferentes daquela, quando conversava diretamente com seus colegas no intervalo ou coisa parecida, a mesma aluna era bastante comunicativa e dispunha de um conjunto amplo de gírias, gestos e bordões para falar com outros alunos, sendo bastante consciente daquilo que queria expressar; apesar disso, naquele momento em que lia um texto perante a professora, sua fala empobrecia como se ela fosse uma criança engatinhando num idioma novo. As sentenças que construía com vocábulos pouco familiares eram desajeitadas e até vazias de sentido, tal como essa que dá título a esta crônica: “Sócrates era inimigo das pessoa e da sociedade”.

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Resenha: De como fazer filosofia sem ser grego, estar morto ou ser gênio — Gonzalo Palacios

como_fazer_filosofia2004Para pensar o pensamento brasileiro

No Brasil, todos os anos os professores universitários de Filosofia levam para a sala de aula certa expectativa: eles não esperam encontrar dentre seus alunos o novo Descartes ou o novo Wittgenstein que irá revolucionar a cultura e mudar nossa maneira de fazer filosofia, sendo assim, eles os ensinam como se estes fossem se tornar, no melhor dos mundos possíveis, também professores universitários. De igual modo, todos os anos esses estudantes agem conforme às expectativas de seus professores, estudando pouco nos anos de graduação e descobrindo como conservar as mesmas opiniões que já tinham antes de se tornarem filósofos durante os anos de pesquisa.

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Voltar à escola

Ao voltar ao ensino médio público para cumprir os estágios de minha graduação notei que, curiosamente, aquela seria  a minha primeira oportunidade de observar os alunos sem que eu mesmo estivesse nessa posição de aluno, logo, seria possível tomar certo distanciamento crítico da discência e mais que fazer anotações para cumprir meus deveres, eu também poderia pensar sobre mim mesmo na condição de ex-aluno do ensino médio e atual aluno do ensino superior. Na verdade, essa experiência acabou sendo bem mais que apenas um reencontro com certa realidade e a escrita de alguns relatórios baseados nela. Voltar à escola me tocou bastante e mudou um pouco minha percepção sobre a universidade e o papel que ela exerce na educação, além de bagunçar meus sentimentos naqueles meses.

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