Pequena teoria sobre ecos sociais

1. Em alguma medida todo intelectual expressa sua origem social: ao ser branco ou negro, age e pensa como branco ou negro, ao receber tantos salários mínimos de pagamento, age e pensa como alguém que vive com essa quantia em dinheiro e assim por diante. Como bem sabemos, nossa origem social nos delimita de vários modos ao colocar palavras em nossas bocas, gestos em nossos corpos e pensamentos em nossas cabeças.

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Espanquemos os pobres! — Charles Baudelaire

Durante quinze dias confinei-me em meu quarto e me cerquei de livros que estavam na moda naqueles tempos (há dezesseis ou dezessete anos); quero falar de livros em que se trata da arte de tornar os povos felizes, sábios e ricos em vinte e quatro horas. Tinha eu digerido engolido, quero dizer todas as elucubrações de todos os empresários da felicidade pública dos que aconselham a todos os pobres a se fazerem escravos e dos que persuadiam que eles são reis destronados. Ninguém acharia surpreendente que eu entrasse então em um estado de espírito vizinho da vertigem ou da estupidez.

Pareceu-me, somente, que eu sentisse, confinado, no fundo do meu intelecto, o germe obscuro de uma ideia superior a todas as fórmulas de curandeiras que eu, recentemente, vira, folheando no dicionário. Mas isso só era a ideia de uma ideia, algo de infinitamente vago.

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Análise do conceito de “dívida histórica”

Creio que aqueles que utilizam o conceito de “dívida histórica” dos brancos para com os negros, desejando com isso defender certas leis e políticas públicas atualmente, não percebem o monstro metafísico que estão a alimentar. Particularmente, entendo que esse conceito é irracional e desnecessário para a defesa de qualquer posição política de hoje.

Por meio deste meu pequeno texto tentarei mostrar por quê.

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Resenha: Sem filhos — Corinne Maier

Sobre o custo de gerar filhos

Em vários sentidos e contextos a gravidez constitui motivo de comemoração: os avós se felicitam pela própria continuidade, as mães exibem suas barrigas como troféus e os pais são parabenizados pelo sexo bem feito. Todos querem cumprimentar quem trouxe um facho de luz a este mundo sombrio e conferir com seus próprios olhos a novidade que nasce. Ter filhos é uma maneira de se integrar socialmente e se ligar a um valor, um rastro de otimismo e fé no futuro que tem seu ápice no nascimento da criança, por isso, poucas posturas são mais polêmicas que o questionar desse valor e há poucas pessoas mais ostracizadas que aquelas que decidiram não procriar.

Deus ordenou que Noé povoasse o mundo e sua voz ecoa até hoje. Convém questioná-la?

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Complexo de vira-latas — Nelson Rodrigues

Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui, eu pergunto:

— Não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?

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Resenha: Parque Industrial — Patrícia Galvão

Literatura e militância

Há uma maneira popular de se falar da obra de Patrícia Galvão que consiste em se evitar falar da obra de Patrícia Galvão e apenas ressaltar o folclore em torno da autora, ficando subentendido que aquilo que ela escreveu foi tão rico quanto aquilo que viveu.

Particularmente, considero que isso rebaixa a obra por colocar seu valor fora de si, deixando intocado qualquer mérito próprio que ela possa ter, e foi pensando nisso que planejei esta resenha: pretendo me contrapôr a essa análise que parte das circunstâncias da obra para julgar seu valor e analisar Parque industrial a partir dos méritos próprios à literatura que ela apresenta.

Como método de exposição dessa análise decidi brincar um pouco com o marxismo da autora e escrevi este texto na forma de um confrontamento dialético de ideias. Apresentarei sucessivamente as virtudes do livro (Por Pagu) e seus problemas (Contra Pagu), por fim, terminarei com uma síntese de tudo (Sintetizando Pagu).

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A falácia da desmilitarização da polícia – José Maria e Silva

O texto abaixo foi originalmente publicado pelo sociólogo e jornalista José Maria e Silva no Palavra acesa, mas como seu blogue está desativado desde 2013 e o tema abordado continua importantíssimo decidi republicá-lo aqui.

Mais que defender aquilo mesmo que está em seu título, creio que a preocupação fundamental contida no texto seja desfazer caricaturas da discussão sobre polícia e sociedade. Nesse aspecto ele é excelente e representa minha opinião melhor do que eu mesmo poderia.

No mais, os links e as caricaturas de mal gosto colocadas ao longo da argumentação foram acréscimos meus. Elas pertencem ao Carlos Latuff e representam aqui essa visão vulgarizada da polícia (e da política) que o texto combate.

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