Duas inquietações sobre House of Cards

1. Frank Underwood, um político inescrupuloso em ascensão, é uma pessoa surpreendentemente sem preconceitos. Nas várias frentes em que ataca a política americana, ele se permite conversar com as várias alas do congresso (negra, cristã, liberal, o que for) sem jamais hostilizá-las por representarem quem representam.

Frank simplesmente não liga para quem é o outro e essa falta de preconceito é parte de sua força, pois ter preconceitos significaria não poder conversar com esses grupos, não poder tramar com eles, ou ainda, não poder usá-los em benefício próprio. Com isso, é justamente a falta de escrúpulos do personagem que o torna não preconceituoso, sendo que sua virtude não é propriamente moral mas amoral.

Minha inquietação a respeito disso é a seguinte: considerando apenas relações de poder, aquele que tem moral é o fraco? Em outras palavras, moral é coisa de quem não sabe consegue pegar o que quer? No fim das contas, o preconceito é um tipo de escrúpulo, de moral? (Agora baixinho para ninguém ouvir: a moral é um tipo de preconceito?).

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O triunfo do cinema

Foto0013Creio que cá no século XXI serei apenas eu a lamentar o triunfo absoluto do cinema como forma de arte. Sou, talvez, o único homem deste século que lê com mais celeridade do que assiste um filme, pois abandono as películas com tédio e é somente com vagar que volto até elas. Aquelas imagens que não precisam de nenhuma conquista, que se entregam como meretrizes e que se exibem a mim sem que eu seja necessário afetam deveras minha fruição… Por sinal, que tipo de arte é essa que prescinde de quem a aprecie? Uma película é desvelada (ou melhor: desvela-se) inteiramente sem que um espectador sequer precise assisti-la, bastando um apertar de botão, um toque frio num instrumento mecânico, que ela se entregará ao vazio. Sua performance automática ocorrerá do começo ao fim – à medida de seu ritmo – sem que venha a se apressar um passo sequer pela vergonha de fazê-lo para ninguém. Consequentemente, tendo o espectador fruído ou não, existindo um espectador ou não que veja o filme, a película encerrará o que propôs fazer no tempo que ela mesma estipula para si.

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