Resenha: O babuíno de madame Blavatsky — Peter Washington

Sobre gurus, crentes e charlatães

Tão logo passou a produzir resultados que foram tidos como profícuos até mesmo pelo público leigo, a ciência que sucedeu Newton gradativamente se impôs como o melhor conhecimento disponível ao Ocidente e ofuscou até outras tradições com as quais já se relacionara longamente, como a Religião e a Filosofia,  sendo que as tradições as quais não desejavam ou que não eram capazes de se adequar aos critérios da ciência sem se descaracterizar completamente tiveram que se reinventar para sobreviver, fosse a confrontando ou mesmo a ressignificando.

Ao mesmo tempo em que esse novo saber se restringia cada vez mais a poucos pesquisadores altamente especializados, paradoxalmente, ele foi também impondo ao grande público certa racionalidade laica dependente antes de demonstrações que de crenças particulares a qual é fomentadora daquilo que chamamos hoje de “espaço público”. Diante disso, várias religiões se depararam com a escolha de se restringirem ao espaço privado como meras idiossincrasias, ou de buscarem formas alternativas de permanecerem como conhecimento público, afinal, se era possível curar doenças graves e inventar maquinários revolucionários apenas aplicando “luz natural” na investigação da natureza, que valor teriam as especulações que se voltavam para o místico além da simples satisfação pessoal?

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Quem pode falar sobre discriminação social? (texto no Blog cético)

Publiquei no Blog cético um texto sobre discriminação social e ciências humanas intitulado Quem pode falar sobre discriminação social?. Fazendo um breve resumo de seu conteúdo, o texto enfrenta o argumento de que somente pessoas discriminadas podem identificar discriminação e fazer ciência acerca da discriminação, um assunto bem popular atualmente que pode interessar os leitores deste espaço. Vocês podem conferir o texto aqui.

As forças naturais desconhecidas (trecho) — Camille Flammarion

Por conta de minhas leituras de O babuíno de madame Blavatsky, de Peter Washington, e de algumas meditações recentes a propósito de temas religiosos, decidi compartilhar aqui um velho achado do excelente Obras psicografadas: um capítulo do livro As forças naturais desconhecidas, de Camille Flammarion, astrônomo francês contemporâneo de Kardec que tinha muito a dizer acerca das pesquisas do sobrenatural no século dezenove e das próprias pesquisas do fundador do espiritismo. Aliás, muito mesmo, o capítulo é enorme. Para quem tem gosto pela história da ciência e da religião, no entanto, creio que ele seja bem interessante e possa servir como uma boa fonte para investigações futuras.

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Resenha: Fundação (trilogia) — Isaac Asimov

Tensões entre indivíduo e civilização

Trilogia A Fundação - Isaac AsimovTem pelo menos três anos que comprei um box com a trilogia de Asimov – Fundação, Fundação e Império e Segunda Fundação – e a abandonei numa estante. Era uma caixinha preta linda feita para ser uma armadilha para leitores tolos como eu, ávidos por adquirir bem mais do que poderiam ler, sendo que ao finalmente tomar os livros para ler, mês passado, eles estavam cobertos por uma triste camada de poeira que me fez sentir alguma culpa pela demora. Apesar disso, não direi que me arrependo desse tardar, afinal, ganhei com outras leituras, mas apenas que após os ter lido fiquei feliz pela aquisição. No fim das contas, conheci uma obra de grande qualidade.

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Ler Corbisier

Não concordo com Corbisier, mas que ele escreve bonito…

A ignorância da filosofia leva geralmente a supor que essa forma de reflexão, ou de conhecimento, lida com abstrações, enquanto as ciências, as artes e as técnicas, ocupar-se-iam do concreto. Ora, o que ocorre é exatamente o contrário, pois são as ciências, as artes e as técnicas que lidam com abstrações, quer dizer, com realidades destacadas ou “abstraídas” do contexto de que fazem parte. O fenômeno biológico, por exemplo, de que se ocupa a biologia, é uma abstração, pois implica o fenômeno químico que, por sua vez, implica o fenômeno físico, etc. Qualquer obra de arte ou produto artesanal, implica o contexto cultural desse contexto. Considerado em si mesmo, não passa de uma abstração. Qualquer técnica, tomada isoladamente, sem que se leve em consideração o local e a época em que foi produzida, é também uma abstração, uma parte retirada de um todo, ou de uma totalidade.

Situando-se na perspectiva da totalidade, a filosofia é a única forma de reflexão, de pensamento e de conhecimento, que não lida com abstrações, pois mesmo quando, para efeitos metódicos ou didáticos, isola ou destaca um objeto, jamais perde a consciência de que o objeto abstraído só é o que é, só tem sentido, enquanto integrado em seu contexto, na totalidade de que faz parte.

Corbisier, Roland. Filosofia política e liberdade, pág.22. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.

PS: ocorre, porém, meu caro Corbisier, que as filosofias não encontram apenas uma totalidade mas coleções – todas pias de serem a mais totalizante dentre elas. Seguem mil vezes mil perspectivas de cada uma, em sua maioria (as que importam, pelo menos) inconciliáveis.

Minha opinião (não que interesse a um morto saber): como ninguém resolveu a questão até o momento ou fui tolo demais para descobrir quem teria sido, talvez seja o caso que, dadas as regras do jogo, cada qual encaixe o que vê do mundo naquilo que pensa dele – mas terei razão ao dizê-lo? Ou será apenas o que minha totalidade alcança?