O blogue

Bem, todos sabem que blogue é uma coisa que se faz, antes de tudo, para si mesmo. Ele existe para que seu criador expresse seus juízos, suas vaidades, seus assuntos favoritos e, por fim, contemple seu próprio bom gosto mais ou menos como fez Jeová lá no sétimo dia. Por sinal, há algo de divino na feitura de um blogue e cada novo blogueiro pensa que, de fato, está criando um mundo novo repleto de possibilidades e aventuras.

O que decorre daí, no entanto, é quase sempre uma decepção do criador com a criatura que acaba por apartá-los e pode levar o criador a abandonar ou, até mesmo, a exterminar sua criatura (talvez nem sempre com um dilúvio ou uma chuva de fogo, suponho, mas com um clique frio e desesperado que excluirá para todo o sempre o blogue). Apesar disso, sabemos também que essas coisas demoram a acontecer, pois, no fundo, o criador ama sua criatura e espera que ela o ame de volta e corresponda as expectativas que ele tem dela – mas a decepção prossegue. E assim se escrevem blogues. E bíblias.

Basicamente, Ao invés do inverso serve de expressão para minhas meditações sobre Filosofia, Literatura e História, consistindo num espaço para desabafos intelectuais que tenta não ser meramente a favor ou contra quaisquer posições, porém, ao invés disso, promover um pensamento que seja mais que mera contrariedade.

Acho que é isso.

*

Ao invés do inverso nasceu com dois objetivos: o primeiro era ser um lugar em que eu pudesse organizar reflexões testando novos formatos de escrita, e acho que consegui realizar bem esse objetivo embora eu não tenha escrito textos em novos formatos faz algum tempo; o segundo era discutir obras que eu não tinha com quem debater em meu cotidiano e, acerca disso, sempre me dizem que a escolha das obras abordadas aqui é incomum, algo que com o tempo e a recorrência desse tipo de comentário eu acabei percebendo ser verdade, contudo, confesso que não planejei escrever um blogue sobre conteúdos alternativos e nem quero parecer alguém que tem uma cultura que os outros não tem, apenas escrevo sobre minhas obsessões e coisas que tenho um interesse genuíno em conhecer. Creio que isso me faz antes uma pessoa solitária que uma pessoa culta, aliás, esse blogue é pura solidão, tanto em minha tentativa de me comunicar com vocês, mediada por esses gostos incomuns, quanto na tentativa de vocês de se comunicarem comigo, visto que recebo poucos (embora preciosos) comentários.

Essa inclinação desse espaço para o incomum acabou gerando algumas situações inusitadas. Por exemplo: a resenha sobre A visita da velha senhora, que é um texto pouco conhecido no Brasil (um pouco mais nas Artes Cênicas), trouxe visitas constantes de suíços e franceses para cá, algo com o qual eu não contava e que acabei usando como pretexto para exercitar meu domínio no idioma. Se bem me lembro, demorei mais ou menos um mês fazendo cada tradução para a língua do Asterix, mas nunca soube o que os estrangeiros acharam delas ou mesmo do conteúdo dos textos, pois eles nunca comentaram nada aqui, apesar disso, gostei da experiência e espero revivê-la no futuro. Outra coisa com a qual eu não contava era com a visita frequente de vestibulandos procurando por livros que são temas de provas pelo país, como aqueles do José Lins, Machado e outros. São eles os frequentadores mais assíduos daqui e também são eles que fazem Da impossibilidade de descrever os olhos de Capitu ser o texto mais lido deste blogue.

Quanto à repercussão deste blogue, nesses quatro anos de blogagem fui citado em alguns lugares sites de forma positiva (como aqui), tive alguns textos diretamente respondidos (sobretudo Pequena provocação (a)teológica, mas as respostas são banais, infelizmente), outros refutados (como O triunfo do cinema, na própria caixa de comentários), também já fui mencionado numa tese de doutorado por causa de munha resenha sobre Parque Industrialnuma dissertação de mestrado por conta da resenha sobre a Contra-História da Filosofia, do filósofo Michel Ofray, e fui até plagiado (esse não vou citar). Fui também notado pelo Osvaldo Luiz Ribeiro na resenha que fiz de seu livro O que é fé? e, mais tarde, relido com mais detalhes.

Para minha felicidade, tenho conseguido escapar de haters e polêmicas desnecessárias, o que entendo ser resultado da pequenez do blogue e de meu esforço de evitar escrever textos que atraiam leitores interessados em barracos e coisas assim.

Particularmente, sou alguém interessado na discussão e no aprendizado que a envolve porém não na apologia; não quero ganhar a discussão com nenhum grupo, dar uma lição em qualquer pessoa, nem mesmo afirmar minhas posições como quem joga pás de terra sobre o debate; entendo que existam muitas razões contra o que penso e que muita gente melhor que eu pense contrariamente a mim, sendo por conta disso que me esforço para tentar tornar minhas razões mais claras que posso e assim expôr por que sustento minhas teses. Se qualquer um quiser discuti-las sempre discuto, e se puder derrubá-las será melhor ainda, visto que novas possibilidades se abrirão para mim tão logo meu ego ferido permita. Por isso, mesmo os textos que eu gostaria de excluir ou de reescrever porque me embaraçam e não expressam mais o que eu penso, prefiro deixar como estão para que continuem sendo criticados e permaneçam como uma lembrança (desagradável) de que eu falho, integrando essa minha disciplina comigo mesmo.

Ao invés do inverso é um blogue bem ensimesmado, como vocês podem ver.problogger

Jamais perguntei aos leitores daqui sobre o que desejariam ler ou sobre os conteúdos que gostariam que eu abordasse e não pretendo fazer isso futuramente. Escrevo porque gosto, a respeito daquilo que me interessa e por meio disso é que me ligo aos que chegam aqui, nosso encontro é um resultado bem vindo daquilo que já faz parte de meu cotidiano e não algo que eu deseje alcançar por princípio. Por isso, este blogue nunca teve e jamais terá qualquer “serviço de atendimento ao cliente” (o que não significa que eu não tenha interesse em ouvir e convir com vocês, obviamente).

No mais, com o fim do meu mestrado se aproximando, eu gostaria de poder usar meu tempo livre para levar adiante algumas coisas que não retomei mais e que no entanto há tempos me apetecem, como as análises de artigos que já fiz aqui, além disso, pretendo analisar também alguns textos clássicos de filosofia sobre os quais eu nunca pude me dedicar longamente ou, quem sabe, algumas partes específicas deles nesse mesmo formato de leitura linha a linha. Enquanto a brincadeira continuar divertida farei com que continue. Por enquanto estou entretido, espero que vocês também.

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