Resenha: O babuíno de madame Blavatsky — Peter Washington

Sobre gurus, crentes e charlatães

Tão logo passou a produzir resultados que foram tidos como profícuos até mesmo pelo público leigo, a ciência que sucedeu Newton gradativamente se impôs como o melhor conhecimento disponível ao Ocidente e ofuscou até outras tradições com as quais já se relacionara longamente, como a Religião e a Filosofia,  sendo que as tradições as quais não desejavam ou que não eram capazes de se adequar aos critérios da ciência sem se descaracterizar completamente tiveram que se reinventar para sobreviver, fosse a confrontando ou mesmo a ressignificando.

Ao mesmo tempo em que esse novo saber se restringia cada vez mais a poucos pesquisadores altamente especializados, paradoxalmente, ele foi também impondo ao grande público certa racionalidade laica dependente antes de demonstrações que de crenças particulares a qual é fomentadora daquilo que chamamos hoje de “espaço público”. Diante disso, várias religiões se depararam com a escolha de se restringirem ao espaço privado como meras idiossincrasias, ou de buscarem formas alternativas de permanecerem como conhecimento público, afinal, se era possível curar doenças graves e inventar maquinários revolucionários apenas aplicando “luz natural” na investigação da natureza, que valor teriam as especulações que se voltavam para o místico além da simples satisfação pessoal?

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Resenha: Invasão vertical dos bárbaros — Mario Ferreira dos Santos

Não é difícil entender Mario Ferreira dos Santos…

Ainda que fale em “cristianismo” de forma genérica e polida, é nítida sua preferência pelo catolicismo como religião, instituição e filosofia verdadeira, sendo que diante dessa confissão de fé todas as demais parecem ser incompletas ou simplesmente errôneas, padecendo de uma vontade desviada e de um desconhecimento da verdade que faz com que seus seguidores vivam vidas infelizes das quais são incapazes de se livrar por si mesmos. Por mais que possam ser perdoados, eles merecem antes a palmatória que a clemência.

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Resenha: Sem filhos — Corinne Maier

Sobre o custo de gerar filhos

Em vários sentidos e contextos a gravidez constitui motivo de comemoração: os avós se felicitam pela própria continuidade, as mães exibem suas barrigas como troféus e os pais são parabenizados pelo sexo bem feito. Todos querem cumprimentar quem trouxe um facho de luz a este mundo sombrio e conferir com seus próprios olhos a novidade que nasce. Ter filhos é uma maneira de se integrar socialmente e se ligar a um valor, um rastro de otimismo e fé no futuro que tem seu ápice no nascimento da criança, por isso, poucas posturas são mais polêmicas que o questionar desse valor e há poucas pessoas mais ostracizadas que aquelas que decidiram não procriar.

Deus ordenou que Noé povoasse o mundo e sua voz ecoa até hoje. Convém questioná-la?

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Resenha: De como fazer filosofia sem ser grego, estar morto ou ser gênio — Gonzalo Palacios

como_fazer_filosofia2004Para pensar o pensamento brasileiro

No Brasil, todos os anos os professores universitários de Filosofia levam para a sala de aula certa expectativa: eles não esperam encontrar dentre seus alunos o novo Descartes ou o novo Wittgenstein que irá revolucionar a cultura e mudar nossa maneira de fazer filosofia, sendo assim, eles os ensinam como se estes fossem se tornar, no melhor dos mundos possíveis, também professores universitários. De igual modo, todos os anos esses estudantes agem conforme às expectativas de seus professores, estudando pouco nos anos de graduação e descobrindo como conservar as mesmas opiniões que já tinham antes de se tornarem filósofos durante os anos de pesquisa.

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Resenha: Contra-História da Filosofia — Michel Onfray

Por outra História da Filosofia

A Contra-História da Filosofia ficou bastante conhecida não somente por conta de seu idiossincrático autor, Michel Onfray, mas também por suas intenções bastante provocativas, uma vez que ela, ao pretender subverter certa corrente historiográfica que valorizaria demasiadamente certos filósofos em detrimento de outros, acaba resgatando aqueles pensadores historicamente derrotados, colocados à margem da História. Com isso, ela revira os esqueletos da História da Filosofia e incomoda certo estado de coisas do mundo acadêmico.

Pessoalmente, os livros de Onfray despertaram meu interesse desde que soube deles e, embora tenha lido somente os três primeiros volumes da coleção até agora, espero poder fazer uma caracterização justa dela. Meu estilo segue, por traquinagem, o próprio estilo empregado por Onfray nos livros.

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Resenha: Os filósofos — Herculano Pires

Um passeio anacrônico e ingênuo pela vida de alguns filósofos

Fui kardecista 3durante alguns anos e devo muito de minha sanidade aos livros de Kardec e à minha convivência com espíritas no período em que comungava com eles. Por isso, li com interesse Os filósofos e mantive durante boa parte do livro certa consideração pelo autor, primeiramente, por já ter estado “do mesmo lado que ele”, mas também porque espíritas são raros na Filosofia e pouco conhecemos suas ideias. Todos sabem que o catolicismo tem uma história repleta de nomes filosoficamente importantes como Agostinho e Tomás, que o islamismo nos deu Avicena e Averróis, que o judaísmo pariu Avicebron e Maimônides, pensadores que ajudaram a transformar suas respectivas religiões em filosofias e assim tanto enriqueceram uma quanto a outra; o espiritismo, todavia, jamais igualou tal feito e não legou à história quaisquer contribuições filosóficas conhecidas fora das fronteiras dessa religião, uma vez que, mesmo que tenham existido, não tiveram força o bastante para se impor aos não-espíritas e assim alcançar uma relevância que independa de uma concordância com esta fé.

Por isso, se há uma Filosofia Espírita (ou com base no espiritismo) que pretenda ultrapassar os portões dos centros kardecistas, cabe ainda aos filósofos descobri-la ou aos crentes escrevê-la. Como pretendo demonstrar até o fim desta resenha, no que depender do livro de Herculano Pires, meus colegas espíritas tem ainda um longo caminho do portão para fora.

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