Diferir e comparar

Atualmente, é bastante comum que as pessoas orientem seus julgamentos dando preferência para diferenciação no lugar da comparação, quer dizer, em vez de pensarem em termos de “melhor” e “pior”, elas preferem pensar em termos de “esse” diferente de “aquele”.

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Sobre certas discussões de hoje

Boa parte das discussões que ocorrem hoje na internet constituem uma disputa que se resolve ao determinar quem estaria incluído ou não na “turma dos legais”, sendo que no lugar da argumentação e da crítica serão as censuras morais as quais tentarão, cada qual à sua maneira, retirar o adversário desse grupo, algo que, para quem está dentro dele, é a máxima punição que se pode infligir a alguém.

Como essas discussões deixam de ser argumentativas, elas se restringem à apologia do próprio ponto de vista e à censura do ponto de vista alheio envolvidas numa carga tal de vaidade e sentimentalismo que, por vezes, até pessoas que tentam refletir seriamente acabam seguindo esse comportamento, passando a ignorar a validade e as consequências dos argumentos em questão para simplesmente considerarem se eles estão ou não de acordo com o que seria “cool” no momento.

Mas é possível identificar e escapar desse tipo de comportamento.

Qualquer argumentação bacaninha dessas cai facilmente diante do seguinte critério: caso tal argumentação seja válida, ela então invalidará o argumento (pensamento, etc.) do outro ou apenas lhe prescreverá um comportamento? Caso ela apenas invalide, então temos aí uma ponderação legítima que se resolve no campo argumentativo, mas caso ela resulte numa prescrição, ou pior, caso ela só seja uma prescrição, caberá perguntar se, afinal, estamos mesmo discutindo ou só exigindo que o outro siga os comportamentos que prezamos.

Tal qual toda chantagem emocional, barganha sentimental, a discussão em torno da possibilidade de se enquadrar ou não num grupo só funciona enquanto a aprovação desse grupo for considerada importante, consequentemente, tão logo ela deixe de ser, estaremos livres para sermos o que quisermos.

Menos legais, é claro, isso nunca mais.

Nota: algo que vai no mesmo sentido de meu pensamento é esse textão do Henrique Guilera.

Pequena teoria sobre ecos sociais

1. Em alguma medida todo intelectual expressa sua origem social: ao ser branco ou negro, age e pensa como branco ou negro, ao receber tantos salários mínimos de pagamento, age e pensa como alguém que vive com essa quantia em dinheiro e assim por diante. Como bem sabemos, nossa origem social nos delimita de vários modos ao colocar palavras em nossas bocas, gestos em nossos corpos e pensamentos em nossas cabeças.

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Certa ingenuidade filosófica

Por vezes, o aluno de filosofia entra no curso com uma ingenuidade curiosa: ele assiste aulas de Filosofia da Ciência, Teoria do Conhecimento, Lógica, e fica profundamente enfadado com a dimensão da teoria e com aquele palavreado complicado que ela requer. Daí, ele se dirige às aulas de Filosofia Política ou Estética procurando o “real” ali, aguardando ansiosamente o momento em que estudará a “sociedade”, o “seu tempo” e coisas assim.

Afinal, quem não sabe que a Filosofia Política fala da “realidade”, não é mesmo? O que pode ser mais objetivo e menos teórico que a “luta de classes”?

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Quem pode falar sobre discriminação social? (texto no Blog cético)

Publiquei no Blog cético um texto sobre discriminação social e ciências humanas intitulado Quem pode falar sobre discriminação social?. Fazendo um breve resumo de seu conteúdo, o texto enfrenta o argumento de que somente pessoas discriminadas podem identificar discriminação e fazer ciência acerca da discriminação, um assunto bem popular atualmente que pode interessar os leitores deste espaço. Vocês podem conferir o texto aqui.

Emancipar o Outro

Foi durante a graduação o período que mais convivi com grupos que pretendiam, de variadas formas, emancipar o Outro. Apesar de muitos deles me serem inteiramente novos, notei que repetiam mais ou menos um mesmo discurso: alegavam conhecer os problemas das pessoas, ofereciam-se para carregar seus fardos e lhes emancipar dos males do mundo, além disso, exigiam para tanto o cumprimento de uma mesma condição, a saber, que o Outro deixasse sua condição de Outro e se juntasse a eles.

Na eventualidade de que tal cooptação não ocorresse, no entanto, instaurar-se-ia dali por diante uma distinção valorativa entre aqueles internos ao grupo dos emancipadores (que seriam positivamente valorados) e aqueles externos a ele (que seriam negativamente valorados), decorrendo daí uma curiosa “hierarquia da emancipação” e, a depender de cada caso, “grupo dentro de grupos” e “hierarquias dentro de hierarquias”.

Confesso que tive meus momentos com essa gente: conheci pessoas, apoiei e desapoiei ideologias, identidades e tendências, decepcionei-me cedo com alguns e tarde com outros por meio de variados graus de sabedoria e burrice de minha parte, contudo, quase todos me decepcionaram e não consigo esconder minha careta sempre que encontro alguém com muitos ideais assim.

Para ser franco, encoleriza-me que eles pensem no Outro como sendo esse animal selvagem que precisa ser espancado até virar doméstico — só estando cativo é que pode ser livre, só sendo submisso é que merece compaixão. A jaula da emancipação, asseguram-me, têm cores amáveis, ideologias bonitas e, sobretudo, companhia, muita companhia.

Por conta disso, suspeito que seja qual for o belo nome que tais pessoas inventem para si a fim se unirem e seja qual for a pureza moral das intenções que aleguem possuir, elas jamais deixarão de afiar suas garras antes de saírem de casa, pois podem precisar ferir quem não quiser ser emancipado. Aparentemente, emancipar o Outro é um processo violento em que, dilacerando-lhe a cara, esculpimos seu rosto para parecer mais com o nosso. Ao fim, nós contemplaremos no espelho mais ou menos a mesma face: a de um monstro.

Desconstrução

hqdefaultUm tiranossauro de lego. Corpulento, ameaçador. Dentes coloridos que devorariam eu e você.

Alguém diz: — É preciso desconstruir nossos tiranossauros.

Sinto que devo concordar. Façamos isso então.

Retiremos seus dentes e ele não assustará mais, depois a longa cauda parar evitar surpresas.

O que restará? Um tronco, braços, pernas, uma estrutura — um homem? Ou será mulher? Qualquer coisa masculina ou feminina?

Claro que não.

Desconstruamos também homem, mulher, masculino, feminino e o que mais restar depois disso. Nenhuma estrutura prévia, por mais bacana que seja, estará protegida do desmonte. Retiremos os braços, as pernas, ossos, pulmões, tudo.

O chão ficará uma bagunça: partes por todo lado e nenhuma estrutura que possamos reconhecer.

O que sobra? As peças. E a lembrança das coisas que um dia foram construídas por elas.

Daí, poderemos até inventar de remontar essas estruturas ou mesmo de construir outras mais, contudo, uma vez que a desconstrução tenha sido feita (e uma vez na vida já basta) saberemos que qualquer futura construção será resultado do arbítrio de quem a fez. É tão fácil construir um dinossauro quanto um homem, mas ambos são igualmente desmontáveis. É só lego.

Hoje muitos de nós querem jogar esse jogo, há inúmeras mãos ávidas por desconstruir tiranossauros. Pois bem, desconstruam, acho ótimo, mas seria bom que considerassem que a desconstrução, se bem feita, não protege ou enseja estruturas, pois aquilo que sobra também é desfeito e assim por diante até atingirmos a dureza dos tijolos. Querem mesmo brincar? Brinquem então, mas ao final do jogo seus próprios brinquedos também serão peças, a menos, é claro, que se queira parar antes do fim para proteger alguns deles. Nesse caso, por uma questão de honestidade, vocês terão que deixar de falar em desconstrução. E pular fora do jogo.

PS: este texto nasceu dessa reflexão do Valter Magnaroli.

Análise do conceito de “dívida histórica”

Creio que aqueles que utilizam o conceito de “dívida histórica” dos brancos para com os negros, desejando com isso defender certas leis e políticas públicas atualmente, não percebem o monstro metafísico que estão a alimentar. Particularmente, entendo que esse conceito é irracional e desnecessário para a defesa de qualquer posição política de hoje.

Por meio deste meu pequeno texto tentarei mostrar por quê.

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Análise de um argumento “pró-aborto” (Parte I)

Este texto é uma incursão num tema sobre o qual não tenho posições muito firmes, a legalização do aborto. Apresentarei nele um argumento comumente utilizado para defender a discriminalização do aborto e, em seguida, discutirei qual é sua eficácia, quais são suas premissas e assim por diante.

Minha pretensão não é fazer apologias de qualquer tipo, mas analisar filosoficamente o funcionamento desse argumento e demonstrar quais são suas pressuposições e como ele, dependendo da maneira como for formulado, acaba permitindo a defesa de teses bem diversas daquelas que seus utilizadores pretendem.

Suponho que caso os raciocínios colocados aqui não contenham falhas, então eles poderão ser úteis tanto para criticar argumentos como esse quanto para melhorá-los, sendo nesse sentido que este texto pode contribuir para o debate em torno do assunto.

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Ler Paulo Freire

Ainda sobre A educação e o processo de mudança social, diz Paulo Freire na introdução:

Comecemos por pensar sobre nós mesmos e tratemos de encontrar, na natureza do homem, algo que possa constituir o núcleo fundamental onde se sustente o processo de educação.

Qual seria este núcleo captável a partir de nossa própria experiência existencial?

Este núcleo seria o inacabamento ou a inconclusão do homem.

O cão e a árvore também são inacabados, mas o homem se sabe inacabado e por isso se educa. Não haveria educação se o homem fosse um ser acabado. O homem pergunta-se: quem sou eu? de onde venho? onde posso estar? O homem pode refletir e colocar-se num determinado momento, numa certa realidade: é um ser na busca constante de ser mais e, como pode fazer esta auto-reflexão, pode descobrir-se como um ser inacabado, que está em constante busca. Eis aqui a raiz da educação.

A educação é uma resposta da finitude da infinitude. A educação é possível para o homem, porque este é inacabado e sabe-se inacabado. Isto leva-o à sua perfeição.

Freire, Paulo. Educação e mudança, pág.27-28. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

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Nota sobre Machado e a escravidão

MACHADOAcusaram Machado de se omitir quanto a escravidão; antes tinham acusado Cruz e Sousa da mesma coisa.

Foram uns imbecis que o fizeram.

Poderiam ter lido Machado com cuidado e visto ali — logo depois do óbvio — as severas críticas que ele dirigia contra a escravidão. Poderiam ter procurado saber do assunto e encontrariam bons motivos para que ficassem em silêncio, mas não procuraram nada. Leram literatura sofisticada de olhos fechados e depois disseram que a escuridão era oca.

Foram imbecis, completamente imbecis.

Machado poderia não ter escrito uma linha sequer sobre a escravidão e mesmo assim eles seriam imbecis, poderia ter feito somente poemas sobre moscas, caso quisesse, que eles ainda seriam imbecis.

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Resenha: Master Onani Kurosawa — Yokota Takuma

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Considerações a respeito e a partir da obra

Um mangá que tem a masturbação como tema está muito próximo de fracassar como obra. Primeramente, por se dirigir ao público jovem, ele pode ser estupidamente didático ou tão imaturo quanto pensa que seu público é, além disso, também pode buscar atrair o leitor pelo sexo com o objetivo de excitá-lo, transformando-se em simples pornografia.

Master Onani Kurosawa, todavia, escapa dessas armadilhas por não se reduzir ao tema da masturbação e fazer uso dele para contar a história sentimental do protagonista, apresentando certo período de sua vida a partir da transformação de seus sentimentos. O onanismo funciona como uma maneira de situar a história e como um caleidoscópio da interioridade do personagem, mostrando o que lhe ocupa a mente quando ele não está com as outras pessoas e pode olhar para si sem suas máscaras sociais.

Essa abordagem muitíssimo interessante faz com que o mangá suscite diversas discussões a respeito da sexualidade e, por conta disso, mais que resenhar a história contida ali, eu tentarei iniciar algumas dessas discussões nas linhas a seguir.

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Sobre o furto de livros

Uma das coisas mais deploráveis que descobri na universidade foi o quão comumente alunos furtam livros. Seja em bibliotecas universitárias, de bairro ou mesmo em feiras de livros e outros eventos assim, é frequente que universitários em grupo ou individualmente surrupiem livros de todos os tipos e valores, que serão lidos, trocados ou vendidos mais tarde.

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Ler Corbisier

Não concordo com Corbisier, mas que ele escreve bonito…

A ignorância da filosofia leva geralmente a supor que essa forma de reflexão, ou de conhecimento, lida com abstrações, enquanto as ciências, as artes e as técnicas, ocupar-se-iam do concreto. Ora, o que ocorre é exatamente o contrário, pois são as ciências, as artes e as técnicas que lidam com abstrações, quer dizer, com realidades destacadas ou “abstraídas” do contexto de que fazem parte. O fenômeno biológico, por exemplo, de que se ocupa a biologia, é uma abstração, pois implica o fenômeno químico que, por sua vez, implica o fenômeno físico, etc. Qualquer obra de arte ou produto artesanal, implica o contexto cultural desse contexto. Considerado em si mesmo, não passa de uma abstração. Qualquer técnica, tomada isoladamente, sem que se leve em consideração o local e a época em que foi produzida, é também uma abstração, uma parte retirada de um todo, ou de uma totalidade.

Situando-se na perspectiva da totalidade, a filosofia é a única forma de reflexão, de pensamento e de conhecimento, que não lida com abstrações, pois mesmo quando, para efeitos metódicos ou didáticos, isola ou destaca um objeto, jamais perde a consciência de que o objeto abstraído só é o que é, só tem sentido, enquanto integrado em seu contexto, na totalidade de que faz parte.

Corbisier, Roland. Filosofia política e liberdade, pág.22. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.

PS: ocorre, porém, meu caro Corbisier, que as filosofias não encontram apenas uma totalidade mas coleções – todas pias de serem a mais totalizante dentre elas. Seguem mil vezes mil perspectivas de cada uma, em sua maioria (as que importam, pelo menos) inconciliáveis.

Minha opinião (não que interesse a um morto saber): como ninguém resolveu a questão até o momento ou fui tolo demais para descobrir quem teria sido, talvez seja o caso que, dadas as regras do jogo, cada qual encaixe o que vê do mundo naquilo que pensa dele – mas terei razão ao dizê-lo? Ou será apenas o que minha totalidade alcança?

O triunfo do cinema

Foto0013Creio que cá no século XXI serei apenas eu a lamentar o triunfo absoluto do cinema como forma de arte. Sou, talvez, o único homem deste século que lê com mais celeridade do que assiste um filme, pois abandono as películas com tédio e é somente com vagar que volto até elas. Aquelas imagens que não precisam de nenhuma conquista, que se entregam como meretrizes e que se exibem a mim sem que eu seja necessário afetam deveras minha fruição… Por sinal, que tipo de arte é essa que prescinde de quem a aprecie? Uma película é desvelada (ou melhor: desvela-se) inteiramente sem que um espectador sequer precise assisti-la, bastando um apertar de botão, um toque frio num instrumento mecânico, que ela se entregará ao vazio. Sua performance automática ocorrerá do começo ao fim – à medida de seu ritmo – sem que venha a se apressar um passo sequer pela vergonha de fazê-lo para ninguém. Consequentemente, tendo o espectador fruído ou não, existindo um espectador ou não que veja o filme, a película encerrará o que propôs fazer no tempo que ela mesma estipula para si.

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Sobre as críticas de Rafael Menezes (mais)

Seguem abaixo minhas considerações a respeito do texto de Rafael Menezes, Sobre a resenha do livro Os filósofos.

Acerca disso é preciso dizer Rafael formulou críticas bastante específicas à minha resenha que não poderiam ser respondidas senão de modo específico, por conseguinte, minha resposta ficou bastante longa ao tanger diversos pontos. Apesar disso, tentei reduzi-la ao mínimo: ignorei minúcias que, espero, não farão falta; deixei de redigir uma conclusão mais geral; e uni algumas respostas a críticas diferentes em função da semelhança que mantinham entre si.

No mais, devo acrescentar que: qualquer nova resposta a esse assunto será dada ao pé deste texto ou daquele anterior (aqui), e que nada mais tenha a dizer sobre Herculano Pires que caiba num novo texto. O assunto finda aqui.

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Replicando: Considerações sobre a resenha do livro Os Filósofos, de José Herculano Pires, realizada pelo Sr. Homem sem Sobrenome

Foi publicado outro texto de Rafael Menezes a propósito de minha resenha sobre Herculano Pires. Este novo consiste numa continuação direta do texto anterior, com a discussão dos trechos da resenha que o antecessor não abordava.

Por conta disso, reconsidero minhas suspeitas sobre ele não ter lido o livro e também minha predisposição a publicar algo mais sobre o assunto, sendo que, tão logo eu consiga tempo, escreverei minhas considerações a respeito.

Para ler o texto de Rafael clique aqui

Sobre as críticas de Rafael Menezes

Seguem abaixo algumas considerações a respeito das críticas de Rafael Menezes, em seu texto Sobre a resenha do livro Os filósofos (para saber mais clique aqui).

Por uma questão de tempo e disponibilidade, produzi um texto bastante sintético que resume a argumentação de Rafael em quatro pontos principais. Como método de exposição, reconstruí inicialmente suas críticas e, em seguida, apresentei minhas considerações a cada uma delas. Ao término disso, fiz um balanço dos dizeres de Rafael como um todo.

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Algumas impressões sobre Memórias do cárcere

Sempre considerei Graciliano Ramos um escritor complicado: suas palavras duras e retilíneas expressavam pensamentos sem curvas nem beleza, que sem me causar qualquer empatia, retratavam “coisas” viscerais e impressionantes; todavia, mesmo hoje, depois de terminar meu terceiro livro dele, continuo sem entender exatamente que coisas eram essas. Honestamente, não sei ao certo o que aprendi com Graciliano Ramos e ignoro se gosto do que ele escreve ou não, se me reconheço em qualquer dito seu, se são interessantes os seus livros, sua falta de encantamento com o mundo; ignoro tudo isso; sei apenas que quero aprender mais a respeito de suas obras e que há algo de inquietante em sua prosa ou em sua pessoa que me seduz, mesmo que eu não possa entendê-la muito bem.

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Nota sobre certos leitores de hoje

Faz um tempinho que em minhas aventuras pela internet tenho observado um aumento significativo no número de blogs e vlogs literários. Ler, ao que parece, está na moda, e fico bastante feliz que seja assim.

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Apesar disso, sempre que espio algum desses novos canais sobre literatura, sinto certa inquietação anotar que todos ou quase todos compartilham certas características que dizem respeito não a si mesmos, seus defeitos e qualidades, mas a determinado tipo de leitor que os constituem e a quem se dirigem. Melhor dizendo, inquetam-me algumas coisas nas pessoas que fazem tais canais e naquelas para as quais eles são feitos.

Creio serem três essas características:

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Duas questões a propósito do livro de Dee Brown

9788525407009Concluí recentemente o soberbo Enterrem meu coração na curva do rio, livro de Dee Brown que narra de um modo épico e trágico os incontáveis massacres indígenas na conquista do oeste estadunidense. Trata-se de uma obra notável que durante os últimos meses preencheu meus intervalos entre leituras obrigatórias. Sinto que compensou cada página. Minha empolgação com o assunto, no entanto, não me fará escrever uma resenha do livro, uma vez que não sou historiador e não me considero competente para avaliar criticamente os posicionamentos historiográficos do autor. Seria bobagem escrever a propósito de um livro sobre o qual não sou capaz de dizer nada relevante, além disso, já existem várias resenhas ruins a respeito de boas obras por aí: um texto meu não teria qualquer nulidade nova para acrescentar.

Apesar disso, como foi bastante instigante atravessar as páginas dessa obra e ponderar a respeito daquilo que li, em vez de produzir uma resenha detalhada, gostaria de realizar duas ponderações que julgo pertinentes para historiadores e filósofos a fim percorrer, por meio delas, alguns dos problemas levantados pelo livro. Vejamos no que isso vai dar.

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Nota sobre uma opinião de Luiz Felipe Pondé

Ao contrário de muitos de meus colegas, não tenho qualquer rejeição particular pelo filósofo Luiz Felipe Pondé. Não que eu não entenda porque há tanto ódio em relação a ele, eu entendo bem, porém, pessoalmente, consigo separar em seus discursos aquilo que considero aceitável daquilo que considero inaceitável. Com isso, não sinto necessidade de desprezá-lo, reverenciá-lo ou de deixar de ouvir o que ele tem a dizer.

Hoje, no entanto, eu gostaria de fazer uma crítica a certa opinião que Pondé tem repetido em algumas de suas palestras e textos. Trata-se do entendimento de que o ateísmo seja uma concepção óbvia de mundo. Segundo o filósofo, não seria preciso pensar muito para chegar a conclusão de que deus não existe, sendo assim, esta não seria uma posição intelectualmente refinada: basta pensar um pouquinho e concluiremos que o mundo é ruim, que a vida não tem qualquer sentido e – voilà – que provavelmente nenhum deus olha por nós.

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A culpa é do aluno: reflexões sobre nosso estágio em Filosofia

O texto aí abaixo consta aqui por um motivo bem simples: trata-se da primeira comunicação sobre Filosofia que apresentei publicamente. Ela não versa acerca de História da Filosofia, analisando disputas filosóficas e coisas assim, mas expressa o meu próprio ponto de vista a respeito de algo que me interessa: a formação filosófica. Assim, por mais específico que seja o tema analisado (os problemas da licenciatura na Unifesp Guarulhos), faço um convite para que você, leitor, não se aborreça desde já e o ignore, pois há nessa discussão particular algo de fundamental para qualquer um que goste de Filosofia ou Educação, que é a pergunta pelo significado da educação filosófica.

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