A respeito do falecimento de Osvaldo Porchat

Para o pesar daqueles que amam e estudam filosofia, faleceu no dia quinze deste mês o grande filósofo paulista Oswaldo Porchat Pereira.

Pouco conhecido fora da universidade, Porchat era antes de tudo um intelectual querido. Aqueles que fizeram contato com sua obra ou com a pessoa humilde e discreta por detrás dela acabavam desenvolvendo afeição por ambas e, embora tenha tido vários adversários ao longo de sua carreira (sobretudo entre seus próprios discípulos), Porchat jamais criou inimigos; mesmo seus objetores lhes prestavam muito respeito. Por sinal, o primeiro livro publicado em sua homenagem, O filósofo e sua história, reunia não só artigos que analisavam sua obra e o peso delas na filosofia brasileira como também artigos com críticas minuciosas aos seus textos que foram nitidamente consideradas por ele na evolução de sua obra.

De professor de latim à especialista na obra de Aristóteles, de tomista fervoroso a continuador do ceticismo de Sexto Empírico, Porchat passou por diversas fases em seu pensamento, sempre agraciando a universidade com textos lúcidos e belos os quais explicavam exatamente os motivos de suas mudanças. Tratava-se de um intelectual brilhante de uma enorme importância para a filosofia brasileira tanto pelos pensadores que formou, quanto por suas teses originais e por sua importância como fomentador de um debate nacional na área.

Para quem quiser conhecê-lo com mais profundidade ou saber das especificidades de sua obra ou biografia, há locais melhores nesse sentido que este blogue (como o site da revista Sképsis ou mesmo o clássico Rumo ao ceticismo), porém, diante de sua morte, eu gostaria de lhe fazer minha própria homenagem precisando sua influência em minha formação.

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Pedras e vidraças

1. Lembro que existia um aluno na minha primeira graduação que fazia discursos inflamados a cada oportunidade que encontrava. Pouco importava que o professor estivesse apenas explicando um autor ou uma teoria, ou que o questionamento do rapaz não fizesse sentido naquele contexto, pois ele levantaria a mão do mesmo jeito para se opor ao autor, ao professor, ao capitalismo, sei lá. O fato é que suas falas eram inteiramente vazias e sem qualquer resquício de inteligência, o que ajudava a perceber que eram na verdade um embuste, uma performance para atrair a atenção e fazer com que as pessoas quisessem ter com ele — “que parada de revolução é essa aí que você está falando?”.

Como soubemos depois, esse rapaz entrava e saía de de graduações de humanas “espalhando a palavra”. Diante disso, tentei imaginar quem o financiava e o que ele pretendia com aquilo, mas na época eu não tinha ideia dessas coisas. Foi a primeira vez que vi algo do tipo.

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Religare

1. Capitu não tem descrição física em Dom Casmurro. Bento até se aproxima de apresentar uma no misterioso capítulo trinta e dois, porém percebe que seus sentimentos o fazem fracassar, sendo consequência desse fracasso a moça emergente da descrição ser enevoada, esmaecida, e não passar de uma interpretação de uma personagem literária que, por sua vez, é também a estetização das memórias do narrador derivadas de suas experiências com sua amada.

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Duas inquietações sobre House of Cards

1. Frank Underwood, um político inescrupuloso em ascensão, é uma pessoa surpreendentemente sem preconceitos. Nas várias frentes em que ataca a política americana, ele se permite conversar com as várias alas do congresso (negra, cristã, liberal, o que for) sem jamais hostilizá-las por representarem quem representam.

Frank simplesmente não liga para quem é o outro e essa falta de preconceito é parte de sua força, pois ter preconceitos significaria não poder conversar com esses grupos, não poder tramar com eles, ou ainda, não poder usá-los em benefício próprio. Com isso, é justamente a falta de escrúpulos do personagem que o torna não preconceituoso, sendo que sua virtude não é propriamente moral mas amoral.

Minha inquietação a respeito disso é a seguinte: considerando apenas relações de poder, aquele que tem moral é o fraco? Em outras palavras, moral é coisa de quem não sabe consegue pegar o que quer? No fim das contas, o preconceito é um tipo de escrúpulo, de moral? (Agora baixinho para ninguém ouvir: a moral é um tipo de preconceito?).

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Despetalar

Sonhamos em nossas infâncias as coisas mais ilógicas e magníficas, parecendo existir uma curta distância entre o querer e o realizar a qual tornava a mera idealização de um sonho quase tão poderosa quanto sua realização.

Assim, é melancólico que os brinquedos que já quisemos, a ida aos lugares antes almejados entre outras coisas dessa sorte não tenham qualquer sentido agora, e que nem mesmo lembremos bem daquilo que desejamos por muito tempo e com muita intensidade, pois é justamente hoje que temos meios para alcançar o que já quisemos.

Mas se os velhos sonhos já não fazem mais sentido, quais seriam então os novos? O que queremos realizar de mais extraordinário atualmente ou mesmo num futuro próximo?

Parece inadequado colocar tal questão e mesmo a palavra sonho, quando aplicada a um adulto, soa como se não tivesse muito cabimento, como se sonhar fosse conservar um resquício de imaturidade de tempos idos.

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Se réfléchir en Adam

MichelangeloPour reconnaître comme la condition humaine est vicieuse et misérable, le péché de Adam toujours m’a fasciné. Son geste nous met dans une situation presque entièrement en lachute, nous condamnant à respirer pour toute la vie le péché et à laisser à nos enfants le même destin malhereux.

Ainsi, il est avec une grande facilité que nous détestons Adam, parce qui nous croyons qu’il aurait pu choisir différemment une fois que nous — en lui regardant en rétrospective — croyons qui nous aurions pu.

Or, mais quelle sottise profonde est celle qui nous fait penser que nous pouvons venger où il a échoué? Pourquoi, en étant un résultat du péché, nous pensons être comme le dieu qui condamne et non comme le pecheur qui commet des erreurs? Par hasard, nous sommes capables de refuser le péché aujourd’hui?

Détester le miroir est seulement une manière insensé d’être en désaccord avec lui et, également, d’échouer miserablement avec lui.

S’il y avait la vérité dans la bible sur ce mythe, dieu aurait felicité son enfant prodigieux:

Trés bien, Adam, tu as correspondu aux attentes de Dieu. Rien de plus!

Mais la bible est religieuse et dit qui nous pouvons fuir notre humanité, que Adam aurait pu ne pas péchér, que nous sommes corrects en lui condamnant et, bien sûr, nous condamner avec lui.

En particulier, je préfère regarder mon ancestral mythologique avec un peu de curiosité et d’admiration. Si un jour je reprendre la prière, je ne vais pas avoir des doutes à lui en parler:

Merci, Adam, pour toute l’humanité que vous m’ai donné.

PS: le texte en portugais.

Susceptibilité

Idées superieures, quelqu’un dit, et quelque chose s’agite dans mon intérieur.

Tout les genres d’idées reçu tout le genre de valeur positive, nous savons bien, mais nous devons convenir qui n’est pas dificile considerer positivement les idées.

Les idées peuvent être erronées, mais elles ne peuvent pas commetre des erreurs, elles peuvent être bonnes ou turpides, mais elles ne pouvent pas juger ce qui est bon ou turpide.

Considèrez vous l’idée de dieux, par exemple: un être omnipotent, omniscient, omniprésent. À partir de ces attributs nous comprenons qu’il est aussi juste, bon, digne d’louange, etc.

Curieusement il est trés facile être supérieur quand il est dieu…

Ah, idées superieures! Quel grandeur a n’être pas susceptible? Quelle valeur a celui que commet pas d’erreur? Ce qui n’ apprend pas en chaque choix le poids de ce qu’il a choisi? Nous souhaitons donner aux choses une valeur d’éternité et les isoler dans un monde en ce qu’elles ne peuvent pas être brisées, mais quelle valeur a ce qu’a toute l’éternité pour être ce qu’il desire? Par hasard, la grandeur n’aura été en chaque nouvelle tentative, nous pouvons poser tout à perdre?

PS: le texte en portugais.

Calculer le désir

Il est inhabituel que nos désirs soient bien au-delà-de nos classes sociales ou de nos possibilités immédiates de vie. Même le désir, malgrée son aura irrationelle, enroule quelque calcul, principalement la soustraction.

Par exemple: le laid n’attend pas avoir la plus belle. Il est certain qu’il la désire, ardemment, mais elle ne fera pas partie de ses plans, mais seulement de ses rêves, et un moment donné il réveillera d’eux. “Laissez les belles femmes pour les hommes sans imagination”, Proust aurait dit et il n’aurais pas mal dit, en raison de la impossibilité d’avoir ce qu’il desire, le laid le aurait appuyé.

Devant les nombreuses possibilités que nous percevons, avec le temps, qu’elles ont eté jamais possibles, qu’ils étaient seulement visibles, nous choisissons des objectifs chaque fois plus petits et nous faisons semblant qu’il est très facille et naturel faire cette sélection, que nous n’ayont jamais souhaité sinon le peu de choses que nous avons conquis. Nous souhaitons sembler heureux avec nos morceaux, avec nos miettes, comme des renards que suivent en disant aux raisins: “vous etês verts, vous etês verts”…

Mais les impossibilités ne nous laissent pas définitivement, elles restent devant nous comme une vitrage que nous pouvons regarder mais jamais toucher. Si nous la regardons avec un peu d’attention, nous percevons que son réflexe évoque des doutes sur nos sourires calculés et sur notre entêtement en disant qui oui, nous sommes heureux.

PS: le texte en portugais.

Athéisme, symboles, gestes

Pour le bien et pour le mal, l’athéisme assassine des symboles et, par conséquence, il assassine aussi la relation affective qui se créait avec eux. Le monde du athée n’a plus de son, de couleurs ou de dieux, mais seulement des vibrations, des spectres de lumière et le vieux “je” en parlant avec lui-même. Tout les sens inventifs que la foi donnait aux choses les plus banales — avec une naiveté sincère ou simplement ignorant — se défont dans l’esprit de l’athée. La superstition et les mystères sont eliminé, parce que sont expliqués les tonnerres, la peste et même la mort.

Ainsi, le vieux geste de saluer la photo d’un mort, par exemple, qui reliait une personne à son quotidien d’une manière profonde à faire que même une photo puisse contenir une vie entière, il reste entièrement destitué de signification. Quand le mort reste hors d’atteinte parce que la médicine et le bon sens disent que personne ne vit au-dela de sa mort, la salutation perd sa symbologie et devient quelque chose de soi pour soi. D’ailleurs, quelque chose un peu ridicule.

La même chose arrive avec beaucoup d’autres symboles et gestes…

Ainsi, je me pose une question: nous, les modernes, les post-modernes, utilisez le mot que vous aurez désiré, nous vivrons sans symboles? Nous percevrons “ce qui est par ce qu’il est”?

Je ne sais pas.

Mais quand je vois quelqu’un faire le signe de la croix devant une église ou quelque chose comme ça, je ne sais comment ne pas me inquiéter avec son geste. Et douter un peau des gains de la perte de la foi.

PS: le texte en portugais.

Espelhar-se em Adão

MichelangeloPor reconhecer como a condição humana é viciosa e miserável, o pecado de Adão sempre me fascinou. Seu ato nos coloca numa situação quase inteiramente decaída, condenando-nos a respirar por toda vida o pecado e a legar aos nossos filhos o mesmo destino infeliz.

Por causa disso, é com grande facilidade que passamos a odiar Adão, crendo que ele poderia ter escolhido diferentemente porque nós — olhando-o em retrospectiva — acreditamos que poderíamos.

Ora, mas que tolice profunda é essa que nos faz pensar que poderíamos vingar naquilo que ele fracassou? Por que, sendo fruto do pecado, pensamos ser como o deus que condena e não como o pecador que erra? Por acaso somos capazes de recusar o pecado hoje?

Odiar o espelho que é Adão é apenas um modo tolo de discordar dele e, igualmente, de fracassar miseravelmente com ele.

Caso existisse verdade na bíblia a respeito desse mito, deus teria felicitado seu filho prodigioso:

Muito bem, Adão. Pecaste: correspondeste às expectativas do próprio Deus. E nada pode ser maior!

Mas a bíblia envereda pela religião e diz que podemos fugir à nossa humanidade, que Adão poderia não ter pecado, que estamos corretos em condená-lo e, é claro, em nos condenarmos com ele.

Particularmente, prefiro contemplar meu ancestral mitológico com alguma curiosidade e admiração. Se um dia voltar a rezar, não terei dúvidas em lhe dizer:

— Obrigado, Adão, por toda a humanidade que me deste.

Ateísmo, símbolos, gestos…

Para o bem e para o mal, o ateísmo assassina símbolos e, como consequência disso, assassina também a relação de afeto que se construía com eles. É que o mundo do ateu não tem mais sons, cores ou deuses, só vibrações, espectros de luz e o velho “eu” falando consigo mesmo. Todos aqueles significados inventivos que a fé cedia às coisas mais banais – fosse com uma ingenuidade sincera ou simplesmente ignorante – desvanecem da mente do ateu. Elimina-se toda superstição e mistério, explicam-se os trovões, as pragas e até a morte.

Desse modo, o velho gesto de cumprimentar a foto de um falecido, por exemplo, que atrelava uma pessoa ao seu cotidiano de maneira profunda ao fazer com que até um retrato pudesse conter uma vida inteira, fica inteiramente destituído de sentido. Quando o morto se torna inalcançável porque a medicina e o bom senso dizem que nada se estende além de sua morte, o cumprimentar perde seu aspecto simbólico e se torna algo de si para si. Algo um tanto ridículo, aliás.

O mesmo se dá com infinitos outros símbolo e gestos…

Daí, coloco-me a questão: nós, modernos, pós-modernos, usem o termo que quiserem, viveremos sem símbolos? Teremos um cotidiano despido de mistérios? Amaremos e odiaremos as coisas sem mediações simbólicas? Perceberemos “o que é pelo que é”?

Sei lá.

Mas quando vejo alguém a fazer o sinal da cruz diante de uma igreja ou coisa do tipo, não tenho como não me inquietar com seu gesto. E duvidar um pouco dos ganhos da perda da fé.

PS: traduzi esse texto para o francês aqui.

Calcular o desejo

É incomum que nossas metas estejam muito além de nossas classes sociais ou de nossas possibilidades imediatas de vida. Mesmo o desejo, a despeito de sua aura irracional, envolve algum cálculo, principalmente subtração.

Por exemplo: o feio não espera ter a mais bela. É certo que ele a deseja, ardentemente, mas ela não fará parte de suas metas, somente de seus sonhos, e em algum momento ele acordará deles. “Deixe as mulheres belas para os homens sem imaginação”, diria Proust e não diria mal. Na impossibilidade de ter o que deseja, o feio o endossaria.

Diante das inúmeras possibilidades as quais vamos descobrindo que nunca foram possíveis, que eram somente visíveis, selecionamos metas cada vez menores e fingimos que é fácil e natural fazer tal seleção, e que nunca desejaríamos outras coisas senão aquelas poucas que conquistamos. Queremos parecer contentes com nossos bocados, com nossos farelos, como raposas que seguem dizendo às uvas: “estão verdes, estão verdes”…

Mas as impossibilidades jamais nos deixam definitivamente, elas permanecem diante de nós como uma vidraça que podemos olhar sem jamais tocar. Se a observamos com atenção, veremos que seu reflexo ainda levanta alguma suspeita a respeito de nossos sorrisos calculados e de nossa teimosia em dizer que sim, somos felizes.

PS: fiz uma  versão francesa desse texto aqui e fiz mais algumas reflexões no mesmo sentido desse texto aqui.

Suscetibilidade

Ideias superiores, alguém diz, e algo se agita dentro de mim.

Ideias de todo tipo recebem todo tipo de valor positivo, bem sabemos, mas convenhamos que não é difícil ser positivamente valorado quando se é uma ideia, não?

Ideias podem estar erradas, mas não podem errar, podem ser boas ou torpes, mas não podem julgar o que é bom ou torpe.

Considerem a ideia de deus, por exemplo: um ser onipotente, onipresente e onisciente. Desses atributos se depreende também que ele é justo, bom, digno de louvor, etc.

É curioso que seja tão fácil ser superior quando se é deus…

Ah, ideias superiores! Que grandeza há em não ser suscetível? Que valor há naquilo que não erra, que não descobre a cada escolha o peso do que escolheu? Queremos dar valor de eternidade às coisas, isolando as ideias num mundo em que elas não podem ser trincadas, mas que valor tem aquilo que possui todo o tempo para ser o que quiser ser? Acaso a grandeza não estaria em, a cada nova tentativa, poder pôr tudo a perder?

PS: fiz uma  versão francesa desse texto aqui.

“A que vulgarmente chamamos Brasil”

Antes de fixar o nome que tem hoje nosso país recebeu diversos outros. Um dos primeiros foi Terra de Santa Cruz (ou Vera Cruz), como todos sabem, porém muitos outros foram utilizados nos vários documentos que deram notícia de sua existência.

Ainda no século em que foi descoberto, alguns cronistas insistiram nesse nome original por conta da acepção religiosa que ele carregava. Terra de Santa Cruz conferia ao novo lugar uma finalidade excelsa que parecia ser mais conforme aos planos de deus. Como uma forma de fortalecer a nomenclatura e fazê-la vingar escreveram até mesmo uma História da província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil.

Eis um título curioso para um livro.

Ele nos faz notar que Brasil (grafado também como Bracir, Bersil, Bresilge, Bracil e outros) era o nome vulgar que sublinhava os interesses mesquinhos dos homens e remetia à mundanidade e à corporeidade da terra.

De certa forma a palavra feria a finalidade superior que os cronistas queriam lhe conferir e aí estava a importância do nome: ele decretava a razão de ser daquela terra. Ela serviria às finalidades de deus ou do diabo?

Queriam os cronistas que servisse às de deus e por isso insistiram na Terra de Santa Cruz. Botaram o nome na capa do livro e tudo. Acho que ninguém leu.

A despeito desse nobre objetivo, aqueles que colonizaram o Brasil jamais deixaram de buscar no país a corporeidade de seus recursos e a materialidade daquilo que ele pôde oferecer para fins de enriquecimento pessoal, ainda que a expensas dos povos que viviam aqui.

O divino age de maneiras misteriosas…

Onde estariam agora as cruzes santas e as finalidades superiores? Fugiram com as caravelas pelo mar sem fim.

Bem, mas e os índios? Foram ter com deus.

Ficamos apenas nós com o nome de uma mercadoria para designar um drama, um país.

Mas e o deus das cruzes santas aonde foi? Onde estará deus?

Águas passadas, amigos, águas passadas…

PS: este texto foi inteiramente baseado no artigo O nome do Brasil, de Laura de Mello e Souza.

Quase fábula

Uma amiga. Contava-me  sobre um rapaz:

Gosto dele mas não é bonito, dizia.

(Aliás, bonita ela também não era, digo eu, mas bastava que fosse bela aos olhos dele).

O rapaz tinha um jeito simpático que a agradava, apesar do corpo e do rosto desventurados.

Que fazer então? Ela me perguntou. A questão era mais difícil do que parece.

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Da impossibilidade de descrever os olhos de Capitu

Machado-MachadodAssis-webNo capítulo 32 de Dom Casmurro Bentinho descreve os olhos de Capitu da seguinte maneira:

Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.”

A descrição é física: os olhos lembrariam o mar em seus momentos de ressaca a tragar para si quem os observa; ao mesmo tempo ela é também insuficiente: “Vá, de ressaca”, diz o narrador queixoso. O físico daria uma “ideia da feição” ao descrever de alguma maneira aquilo que é percebido, mas só alcançaria uma descrição metafórica

Bem, por que então a metáfora? 

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“Sócrates era inimigo das pessoa e da sociedade”

Disse assim, desse jeito mesmo que escrevi. Era uma aluna do segundo ano do ensino médio recitando uma redação para uma sala mais ou menos interessada. Disse também outras coisas igualmente curiosas que não convém retomar, inclusive porque ela mesma deve ter esquecido logo depois de falar.socrates-caricature-gary-brown

O inquietante era que em situações diferentes daquela, quando conversava diretamente com seus colegas no intervalo ou coisa parecida, a mesma aluna era bastante comunicativa e dispunha de um conjunto amplo de gírias, gestos e bordões para falar com outros alunos, sendo bastante consciente daquilo que queria expressar; apesar disso, naquele momento em que lia um texto perante a professora, sua fala empobrecia como se ela fosse uma criança engatinhando num idioma novo. As sentenças que construía com vocábulos pouco familiares eram desajeitadas e até vazias de sentido, tal como essa que dá título a esta crônica: “Sócrates era inimigo das pessoa e da sociedade”.

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Voltar à escola

Ao voltar ao ensino médio público para cumprir os estágios de minha graduação notei que, curiosamente, aquela seria  a minha primeira oportunidade de observar os alunos sem que eu mesmo estivesse nessa posição de aluno, logo, seria possível tomar certo distanciamento crítico da discência e mais que fazer anotações para cumprir meus deveres, eu também poderia pensar sobre mim mesmo na condição de ex-aluno do ensino médio e atual aluno do ensino superior. Na verdade, essa experiência acabou sendo bem mais que apenas um reencontro com certa realidade e a escrita de alguns relatórios baseados nela. Voltar à escola me tocou bastante e mudou um pouco minha percepção sobre a universidade e o papel que ela exerce na educação, além de bagunçar meus sentimentos naqueles meses.

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Não estou entre os grandes

Para quem esqueceu eu relembro: a luta de classes existe! Disse a moça segurando o megafone.

2E quem não sabe disso? Perguntou-me uma amiga em tom de retórica e eu não respondi, mas sorri fingindo que silenciar significava assentimento. Bem dizendo, eu não sabia e nunca soube bem; mesmo quando adotava soluções milagrosas para os problemas do mundo como se minha vida dependesse delas, sempre tive alguma dúvida.

Esquerda, educação, deus: ao meu modo, já acreditei em cada uma dessas coisas com afinco, porém, depois acumulada certa experiência e leitura, não sei mais o que restou dele, de maneira que quando me questionam a respeito, assinto covardemente com a opinião do interlocutor por medo e preguiça de machucar o que é óbvio e sagrado para ele. Foi por isso que sorri e costumo sorrir sempre.

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