Aula de português — Carlos Drummond de Andrade

A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.

A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.

Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.

O português são dois; o outro, mistério.

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Vicente — Miguel Torga

Naquela tarde, à hora em que o céu se mostrava mais duro e mais sinistro, Vicente abriu as asas negras e partiu. Quarenta dias eram já decorridos desde que, integrado na leva dos escolhidos, dera entrada na Arca. Mas desde o primeiro instante que todos viram que no seu espírito não havia paz. Calado e carrancudo, andava de cá para lá numa agitação contínua, como se aquele grande navio onde o Senhor guardara a vida fosse um ultraje à criação. Em semelhante balbúrdia – lobos e cordeiros irmanados no mesmo destino -, apenas a sua figura negra e seca se mantinha inconformada com o procedimento de Deus. Numa indignação silenciosa, perguntava: – a que propósito estavam os animais metidos na confusa questão da torre de Babel? Que tinham que ver os bichos com as fornicações dos homens, que o Criador queria punir? Justos ou injustos, os altos desígnios que determinavam aquele dilúvio batiam de encontro a um sentimento fundo, de irreprimível repulsa. E, quanto mais inexorável se mostrava a prepotência, mais crescia a revolta de Vicente.

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Mulher ao espelho — Cecília Meireles

Hoje que seja esta ou aquela,

pouco me importa.

Quero apenas parecer bela,

pois, seja qual for, estou morta.

 

Já fui loura, já fui morena,

já fui Margarida e Beatriz..

Já fui Maria e Madalena.

Só não pude ser como quis

 

Que mal faz, estar cor fingida

do meu cabelo, e do meu rosto,

se tudo é tinta:o mundo, a vida,

o contentamento, o desgosto?

 

Por fora, serei como queira

a moda, que me vai matando.

Que me levem pele e caveira

ao nada, não me importa quando.

 

Mas quem viu, tão dilacerados,

olhos, braços e sonhos seus

e morreu pelos seus pecados

falará com Deus.

 

Falará, coberta de luzes,

do alto penteado ao rubro artelho.

Porque uns expiram sobre cruzes,

outros, buscando-se no espelho.

(Achei tão bonito…)

“A 9 de janeiro de 1639, ele escreve a Mersenne: “Propus me fazer um estudo durante o resto deste Inverno, que não sofra nenhuma distração”; e suplica-lhe que lhe “permita não voltar a escrever até a Páscoa”, salvo por motivo urgente. E para que Mersenne não se inquiete com sua saúde durante este silêncio, promete avisá-lo se lhe acontecesse “entretanto alguma coisa de humano […]. E assim, enquanto não tiverdes notícias minhas, acreditareis sempre, se for do vosso agrado, que eu vivo, que eu estou de saúde, que filosofo e que existo apaixonadamente…”.”

(Geneviève, Rodis-Lewis. Descartes a biografia, p.175).

Dualismo — Olavo Bilac

Não és bom, nem és mau: és triste e humano…

Vives ansiando, em maldições e preces,

Como se a arder no coração tivesses

O tumulto e o clamor de um largo oceano.

Pobre, no bem como no mal padeces;

E rolando num vórtice insano,

Oscilas entre a crença e o desengano,

Entre esperanças e desinteresses.

Capaz de horrores e de ações sublimes,

Não ficas com as virtudes satisfeito,

Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:

E no perpétuo ideal que te devora,

Residem juntamente no teu peito

Um demônio que ruge e um deus que chora.

Sete motivos para você não se tornar professor — Pedro P. Bittencourt

Em uma publicação anterior, mencionei algumas razões que levam pessoas para carreiras na educação. Comentei também que eram razões bastante pessoais, baseadas em minhas vivências e em conversas com amigos e colegas. Minha ideia era simplesmente te dar algum indicativo de que talvez valesse a pena você pensar em seguir essa carreira. Não era uma lista sobre qualidades de um bom professor ou sobre os benefícios da profissão. Essa, a princípio, era a ideia.

Assim, faço agora um complemento àquele texto. Pretendo te mostrar sete pontos que fazem pessoas desistirem da ideia de se tornarem professores, às vezes no meio do caminho. Assim, essa lista talvez possa ser encarada, sim, como um compêndio de “malefícios da profissão”, suas desvantagens, coisas do tipo. Mais uma vez, a ideia fazer uma comparação que permita colocar as coisas em perspectiva, colocar cada ponto nos pratos da balança e ver qual lado pesa mais.

Outro fato importante: ambos os textos foram escritos em conjunto porque achei que isto faria mais sentido. Além de evitar que eu publicasse um sem ter ideia do outro, isto me permitia também incluir e retirar coisas de uma lista ou de outra, tentando pesar demais para um lado específico. E o que me soa pertinente: no começo foi muito mais fácil pensar em motivos para te desmotivar do que para tentar te convencer. Talvez por isso tenha demorado tanto; era mais fácil eu pensar em coisas negativas do que em positivas, o que me fazia pensar “pera, isso não tá certo; quem, afinal, eu tô tentando convencer, as pessoas ou a mim mesmo?”.

Talvez as duas respostas sejam verdadeiras. Na coluna da direita eu escrevia pontos fracos e olhava pra coluna da esquerda, vazia, pensando “ok, mas também tem as coisas boas, né”. Não foi uma tarefa simples. Porque é o tipo de coisa que incomoda. Pensar que não estou fazendo o que acredito, encarar a frustração diária, o desespero cotidiano. Aquela sensação permanente de fracasso. E de vazio.

Não gostaria que essa lista te fizesse desistir de se tornar professor. Ainda acho que você deve, sim, investir nessa carreira  —  e acredito que se você acompanha o que escrevo, as chances são boas. Meu maior objetivo com essa série de publicações é mostrar que: ser professor é muito recompensador. Mas o desafio é gigantesco.

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O filósofo do contra (trecho) — José Arthur Giannotti

O grande perigo do jornal – e eu tenho participado dele – é que de repente começam a pedir coisas sistematicamente a você. Daí você começa a escrever de acordo com o pedido, e, se faz assim, escreve de acordo com o efeito que vai produzir entre os leitores – daqui a pouco estará escrevendo o que as pessoas querem ouvir, não o que você quer falar. Para o intelectual isso é muito fácil porque pode-se pegar qualquer ideias que esteja circulando e legitimá-la através da citação de um filósofo. E gosto não se discute. Então o que acabamos fazendo é pegar um conceito popular e conferir-lhe um pseudo estatuto cientifico – e com isso as pessoas que estão nos ouvindo ficam absolutamente felizes porque dizem, ah, pois não é exatamente o que eu estava pensando… Resultado: nos tornamos ecos do senso comum, que é o da mistificação. Temos que pensar popularmente, mas dispensando o senso comum. Somos intelectuais da miséria mas não queremos ser intelectuais miseráveis.”

Nota: trata-se de uma entrevista com o filósofo José Arthur Giannotti para a Folha de São Paulo na década de oitenta. A versão completa está aqui.

Teoria da solidão — Vicente Ferreira da Silva

Todos aqueles que refletiram sobre os vínculos que unem o homem aos outros homens, não se cansaram de afirmar que é o homem um ser gremial, disposto pela sua índole biopsíquica e espiritual a viver em conjuntos que o ultrapassam. Esta vida que ultrapassa o homem e somente na qual ele se conhece, define, desenvolve e exalta, é a vida cultural em toda a sua amplitude, a esfera do espirito objetivo. Como reconheceu Hölderlin, “nós, os homens, somos um diálogo”, isto é, existimos num diálogo e antes mesmo de despontarmos para a nossa consciência particular já estamos envoltos nesse colóquio ilimitado. Apreendemo-nos, sentimo-nos dentro dos quadros dessas formas simbólicas e linguísticas intersubjetivas e é esse discurso social que faz surgir o mundo como se nos apresenta. Disto já podemos concluir de que maneira radicada e profunda o “outro” está impresso em nós mesmos, em que medida o nosso existir é antes um coexistir; ao vivermos particularmente, vivemos conteúdos universais.

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A família imperial “tem sangue negro”, diz “príncipe” do Brasil

Faz algum tempo que publiquei aqui uma entrevista com a Yara Baumgart feita pela revista Veja. Nela, a socialite sustentava um discurso ridículo em que misturava filosofia, burrice e futilidade de um modo tremendamente engraçado — um clássico da filosofia nacional, como eu disse na ocasião.

Agora, replico aqui uma entrevista feita pelo portal R7 com Dom Bertrand de Orleans e Bragança, um dos descendentes de Dom Pedro que sonha em ser príncipe do Brasil. Seu discurso tem o mesmo espírito daquele de Yara, algo que constitui um alento para os historiadores. Eles agora não precisam mais invejar os filósofos, pois possuem seu próprio clássico do ridículo. 

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XXVI — Mario Quintana

Deve haver tanta coisa desabada
Lá dentro… Mas não sei… É bom ficar
Aqui, bebendo um chope no meu bar…
E tu, deixa-me em paz, Alma Penada!

Não quero ouvir essa interior balada…
Saudade… amor… cantigas de ninar…
Sei que lá dentro apenas sopra um ar
De morte… Não, não sei! não sei mais nada!…

Manchas de sangue inda por lá ficaram,
Em cada sala em que me assassinaram…
Pra que lembrar essa medonha história?

Eis-me aqui, recomposto, sem um ai.
Sou o meu próprio Frankenstein – olhai!
O belo monstro ingênuo e sem memória…

Carta de Nietzsche a Franz Overbeck

[Sils-Maria, 30 de julho de 1881]

Estou inteiramente espantado, inteiramente encantado! Tenho um precursor e que precursor! Eu não conhecia quase nada de Espinosa; que eu agora ansiasse por ele foi uma “ação do instinto”. Não só, que sua tendência geral seja idêntica à minha — fazer do conhecimento o afeto mais potente — em cinco pontos capitais de sua doutrina eu me reencontro, este pensador, o mais fora da norma e o mais solitário, me é o mais próximo justamente nestas coisas: ele nega o livre-arbítrio —; os fins —; a ordem moral do mundo —; o não-egoísmo —; o mal —; se certamente também as diferenças são enormes, isso se deve mais à diversidade de época, de cultura, de ciência. In summa: minha solidão, que, como sobre montes muito altos, com freqüência provocou-me falta de ar e fez-me o sangue refluir, é ao menos agora uma dualidão. — Maravilhoso! Aliás, meu estado de saúde de forma alguma corresponde às minhas esperanças. Tempo excepcional também aqui! Eterna variação das condições atmosféricas! — isso me leva ainda a deixar a Europa! Preciso ter céu limpo durante meses, senão eu não consigo avançar. Já 6 acessos graves, com duração de dois a três dias!! — Afetuosamente

Seu amigo.

Nota: essa carta foi publicada aqui no Brasil nos Cadernos espinosanos (2007, XVI, p.131-138). A tradução é do Homero Santigo.

Lendo André Gombay (trecho)

“Em latim, as palavras são malignus genius; em Francês, malin génie; e, na tradução padrão da língua inglesa, evil genius [gênio maligno]. O maléfico, ou ardiloso (callidus), enganador será mencionado mais três vezes nas poucas páginas a seguir. A menção intermediária ocorre em um momento reconhecidamente importante, o assim chamado argumento do cogito, próximo ao início da Segunda meditação. Depois disso, silêncio: nunca mais encontramos o demônio. Não nos é dito como ele desaparece e somos levados a presumir (…) que um deus benevolente “coibiria” (coercere) suas atividades. Logo, ele não é uma presença permanente nas Meditações.

Mais surpreendentemente ainda: é a ele e não a Deus — que a posteridade atribuiu o lugar de honra no panteon do engano de Descartes. Quase se poderia dizer que a maior conquista do demônio foi usurpar o lugar de Deus: fazer com que a posterioridade lhe atribuísse todo o poder de enganar que Descartes, embora breve e hipoteticamente, atribuiu a Deus. Assim como “as formas platônicas”, o “gênio maligno de Descartes” agora é um lugar-comum filosófico — e poderíamos perguntar por quê. Afinal de contas, ao contrário de Descartes, não tememos a blasfêmia.”

Gombay, André. Descartes, p.50. São Paulo: Artmed, 2009.

Divulgação de artigos de Osvaldo Luiz Ribeiro

Divulgo aqui um link com os artigos publicados nos últimos anos pelo teólogo Osvaldo Luis Ribeiro, autor que aprecio muito e já abordei aqui anteriormente.

Recomendo fortemente a leitura de seus textos e seria possível apresentar vários bons motivos para tanto. Seu estilo nietzschiano é sedutor, seus textos são muito bem escritos, podendo ser fruídos facilmente, a despeito de se debruçarem sobre assuntos bastante específicos, porém, muito mais que isso e mais até que o teor crítico apaixonado — e um tanto rabugento — das críticas que ele lança contra tudo e todos, penso que é sua autenticidade o melhor dos motivos para ler o que ele escreve. Osvaldo é um intelectual que coloca a cara a tapa a cada texto, que se arrisca fazendo afirmações impopulares, assumindo posições que outros esconderiam para não perderem favores alheios e que não se refugia detrás da autoridade de nenhum autor ou poder.

Particularmente, respeito profundamente essa bela e rara postura. Apoiarei sempre aqueles que a tem e tentarei imitá-los: vida longa a essa gente incandescente.

XVII — Mario Quintana

Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha…

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada…
Arde um toco de vela, amarelada…
Como o único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! Desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!

Como abandonei o ativismo na internet — Stefanie Cirne

Divulgo hoje um texto excelente da jornalista Stefanie Cirne. Confesso que até o momento eu nada sabia a seu respeito, porém seu texto aborda muito bem um tema o qual, vez e outra, também abordo aqui, que é certa mentalidade envolvida na militância política brasileira atual, o que me deixou interessado em saber mais acerca de suas opiniões. Como abandonei o ativismo na internet, publicado na plataforma Hysteria, consiste um texto de crescimento pessoal, um relato acerca de como a autora adentrou no ativismo feminista e, no entanto, com o tempo, acumulou desconfortos a seu respeito e se repensou como pessoa.

Como sou alguém de fora desse tipo de ativismo e costumo lhe dirigir críticas (e zombarias…) justamente pela mentalidade que ele sustenta, achei interessante acompanhar o processo pelo qual Stefanie passou para se desvencilhar disso, iniciando pela adotação de discursos, símbolos, bem como trejeitos próprios desse ativismo, e em seguida se desprendendo gradativamente deles. Penso que isso deveria ocorrer naturalmente com todo ativista, entretanto, sabemos que poucos preservam aquela autonomia que os faria continuar crescendo e questionando suas crenças.

No mais, embora eu não tenha interesse em tecer comentários críticos sobre o texto, precisando divergências e coisas dessa sorte, ainda assim gostaria de comentar brevemente a situação da autora como “ex-ativista” ou “pós ativista”. Trata-se do seguinte: eu valorizo bastante esse processo em que ela se liberta dos esquemas interpretativos alheios para se tornar ela mesma; contudo, creio que esse processo só precisou transcorrer naquelas — muitas — pessoas que viveram o ativismo de forma extrema, que se intoxicaram fartamente com as opiniões que vigoravam nele. Já no surgimento dos primeiros ativistas que gritavam disparates como “dívida histórica”, “lugar de fala”, “desconstrução“, que maltratavam pessoas, que tentavam silenciar dissidências e outras coisas assim, muitos notaram os problemas implicados nessa mentalidade e a criticaram, sendo rejeitados pela turba ativista em função disso. Stefanie está ciente disso, certamente, mas a partir daí é preciso convir que, embora exista nos dias de hoje muito mais espaço no ativismo para razoabilidade e para pessoas como a própria Stefanie, alcançar essa razoabilidade é nada mais que chegar ao bom senso com anos de atraso.

No que depender de mim, que nunca me dei bem com a militância, dou as boas vindas a essas pessoas e espero poder convir com elas, porém, sem querer ser arrogante, alerto que o jogo já está rolando faz um bom tempo; vocês têm muito o que correr atrás.

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Resenha: Fragmentos do horror — Junji Ito

Publiquei no Café com Tripas uma resenha do livro Fragmentos do horror, de Junji Ito, que pode interessar os leitores deste espaço. Leia aqui.

Descobri Junji Ito faz alguns por meio de traduções piratas na internet, bem num tempo em que eu estava procurando fugir um pouco da hegemonia dos shonens e descobrir novos mangás. Esse autor foi um dos primeiros com quem tive contato na época e, com o tempo, ele acabou sendo um dos que mais contribuíram para que eu continuasse lendo mangás ao longo da vida adulta, pois me mostrou que o mangá poderia me proporcionar experiências tão diversas quanto a literatura ou o cinema.

Atualmente, mesmo já tendo passado alguns aninhos desde quando o li pela primeira vez, confesso que ainda tenho dificuldade de conversar sobre mangás com as pessoas, pois os mais jovens consomem os mesmos títulos comerciais sempre, enquanto os mais velhos ainda não descobriram que os mangás são um gênero literário, quer dizer, uma forma de expressão ampla que abarca diferentes tipos leitores. Diante disso, fico feliz que ocorram publicações de autores como o Junji Ito aqui no Brasil, já que elas são uma porta aberta para novas experiências e para que o consumo das produções de sempre seja oxigenado com coisas novas, privilegiando outras leituras e outros leitores.

Gesso — Manuel Bandeira

Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova

O gesso muito branco, as linhas muito puras 

Mal sugeria imagem da vida

(Embora a figura chorasse).

Há muitos anos tenho-a comigo.

O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de

[pátina amarelo-suja.

Os meus olhos, de tanto olharem,

Impregnaram-na de minha humanidade irônica de tísico.

Um dia mão estúpida

Inadivertidamente a derrubou e partiu.

Então ajoelhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmentos,

[recompus a figurinha que chorava.

E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo

[mordente da pátina…

Hoje este gessozinho comercial

É tocante e vive, e me fez agora refletir

Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu

Nenhum olhar (trecho)

Penso, talvez o sofrimento seja lançado às multidões em punhados e talvez o grosso caia em cima de uns e pouco ou nada em cima de outros. Ainda que o peso do meu peito seja custoso, qual é o peso de um abismo?, ainda que me sinta um cego a crescer sem olhos para um precipício, tenho que me levantar desta cama. Tenho de levantar estas pernas que não são minhas, mas de um rochedo, e ir tratar das ovelhas. A minha cadela. O campo. O sobreiro grande. que sombra estará agora debaixo do sobreiro grande? Ainda que caminhe pela noite ao meio da tarde, ainda que no pico do sol seja o mais negro da noite e dentro da noite seja noite também, por tudo ser noite aos meus olhos, tenho de me levantar desta cama. Mesmo que seja para sofrer e sofrer, tenho de ir de encontro àquilo que serei, por ter sido isto e não poder fugir, não poder fugir de me tornar alguma coisa.

José Luiz Peixoto. Nenhum olhar, Agir, 2005.

O tigre — Eduardo Lizalde

Há um tigre em casa

que dilacera por dentro aquele que o olha.

E somente tem garras para aquele que o espia,

e somente pode ferir por dentro,

e é enorme:

maior e mais pesado

que os outros gatos gordos

e carniceiros pestíferos

de sua espécie,

e perde a cabeça com facilidade,

fareja o sangue mesmo através do vidro,

percebe o medo até da cozinha

e apesar das portas mais robustas.

Costuma crescer de noite:

coloca sua cabeça de tiranossauro

em uma cama

e o focinho fica pendurado

para lá das colchas.

Seu dorso, então, se aperta no corredor

de uma parede à outra,

e somente alcanço o banheiro rastejando, contra o

teto,

como que através de um túnel

de lodo e mel.

Não olho nunca a colmeia solar,

os negros favos do crime

de seus olhos,

os crisóis da saliva envenenada

de suas presas.

Nem sequer o cheiro

para que não me mate.

Mas sei claramente

que há um imenso tigre encerrado

em tudo isso.

Uma tentativa de explicar “A falta do grande romance brasileiro” — José Geraldo

Dizem que deu na Folha, mas eu não leio jornal mais — então eu só fiquei sabendo através do blog do Rodrigo Gurgel, o polêmico crítico literário, de quem tenho aprendido a gostar (falo do blog e não do crítico, porque conhecer o primeiro não equivale a conhecer o segundo). Para quem não sabe do que estou falando, dou um resumo e deixo o link para quem queira ler o texto inteiro (e eu recomendo, pois vale a pena).

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O significado do ceticismo (texto no Blog cético)

Faz um (bom) tempo que escrevi esse texto, porém foi somente hoje que, por precisar dele para preparar uma aula, me dei conta de que ainda não o tinha divulgado aqui, algo que estou corrigindo agora. Como todo texto feito para blogues de colegas, O significado do ceticismo tem um sentido informativo, buscando se debruçar sobre o conceito de ceticismo — sua origem, seu significado contemporâneo — e está muito ancorado nas ideias do filósofo brasileiro Plínio Smith, discípulo do lendário Osvaldo Porchat.

Junto ao racionalismo moderno, o ceticismo é uma das escolas filosóficas que mais influenciou meu caráter e mesmo não o estudando mais formalmente, jamais deixei de ter seus argumentos e problemas em meu pensamento. Para quem como eu tem interesse nas discussões filosóficas a respeito do conhecimento, creio que conhecer o ceticismo é fundamental e fica aqui minha diminuta contribuição nessa direção. Leia aqui.

O tempo — Mario Quintana

O despertador é um objeto abjeto.

Nele mora o Tempo. O tempo não pode viver sem

[nós, para não parar.

E todas as manhãs nos chama freneticamente como

um velho paralítico a tocar a campainha atroz.

Nós

é que vamos empurrando, dia a dia, sua cadeira de

[rodas.

Nós, os seus escravos.

Só os poetas

os amantes

os bêbados

podem fugir

por instantes

ao Velho… Mas que raiva impotente dá no Velho

quando encontra crianças a brincar de rodas

e não há outro jeito senão desviar delas a sua

[cadeira de rodas!

Porque elas, simplesmente, o ignoram…

Resenha: O alienado — Cirilo S. Lemos

Faz um tempinho que escrevi uma resenha a respeito do livro O alienado, de Cirilo S. Lemos, mas esqueci de dar notícia dela aqui. Trata-se de uma ficção científica a qual tem diversas semelhanças (influências) com a trilogia clássica de Asimov, sendo bastante interessante por se situar na exata medida entre a escrita inteligente e o entretenimento despretensioso. Meu texto é curtinho, mas serve de promoção crítica da obra. Caso tenham interesse, leiam-no aqui.

Biznes

A verdade não vende.

Ela fica lá, encalhada

jogada atrás das estantes dos best-sellers

embaixo de algum tapete

no canto do fundo de algum armário de cozinha que ninguém limpa por dentro

enrolada dentro do baseado empastelado mais próximo

ou mesmo granulada no meio do pó de sua preferência.

Às vezes, tem até um pessoal que aluga.

Olham bem, fazem o empréstimo, colocam na bolsa e levam pra casa. Tudo certinho.

Mas essas almas inquietas jamais ficam mais do que três dias com as verdades alugadas; chegam aqui sempre com aquelas caras de susto, ainda esbaforidas de tanto que correram pra devolver as verdades.

Eles as devolvem ainda frescas, amarguíssimas, mal tocadas ou sequer retiradas da caixa. Um desperdício.

O dia em que o negócio das verdades der certo ficarei riquíssima, mas não poderei dividir meus lucros com quase ninguém: poucos se mantêm após o consumo regular de verdades.

Mas, sabe como é

nada pessoal,

amizade amizade

biznes à parte.

PS: texto roubado do ótimo A las buenas chicas no les pasa nada. Tenham o bom gosto de ir lá conhecer.

O jogador generoso — Charles Baudelaire

Ontem, no meio da multidão do bulevar, senti-me roçado por um Ser misterioso que sempre quis conhecer e a quem reconheci imediatamente, embora jamais o tivesse visto. Havia, sem dúvida, nele, em relação a mim, um desejo análogo, pois ele me deu uma piscada de olho significativa à qual apressei-me em obedecer. Segui-o atentamente e logo desci atrás dele para uma moradia subterrânea deslumbrante onde brilhava um tal luxo que nenhuma habitação acima em Paris poderia oferecer um exemplo aproximado. Pareceu-me singular que eu já tivesse passado tantas vezes ao lado desse prestigioso esconderijo sem adivinhar a entrada. Reinava ali uma atmosfera delicada, conquanto perturbadora que fazia esquecer quase instantaneamente todos os horrores aborrecidos da vida; respirava-se ali uma sombria beatitude, análoga à que deveriam sentir os comedores de lótus, quando desembarcando em uma ilha encantada, iluminada por clarões de uma eterna tarde, sentiam nascer neles, aos sons adormecedores de melodiosas cascatas, o desejo de nunca mais rever seus lares, suas esposas, seus filhos, e de nunca mais voltar a subir sobre as altas ondas do mar.

Havia lá estranhas faces de homens e mulheres marcadas por uma beleza fatal que me parecia ter visto em épocas e em países de que me era impossível lembrar exatamente, e que me inspiravam mais uma fraterna simpatia cio que esse natural medo que nasce ordinariamente do aspecto do desconhecido. Se eu quisesse tentar definir de qualquer maneira a expressão singular de seus olhares, diria que jamais vi olhos brilhando mais energicamente do horror do tédio e do desejo imortal de se sentir viver.

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Entrevista — Yara Baumgart

Fruto da magnífica vocação da revista Veja para encontrar figuras trashs entre os endinheirados brasileiros, essa entrevista com a socialite Yara Baumgart é praticamente um clássico da filosofia nacional. Publicada em 2004, ela ficou injustamente sumida nos últimos anos até ser disponibilizada recentemente pela digitalização dos antigos números da revista.

Para todos aqueles que nunca leram essa pérola de nosso jornalismo só posso dizer que os invejo; eu gostaria de poder reler esse texto como se fosse a primeira vez.

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A igreja do diabo — Machado de Assis

Capítulo I — De uma ideia mirífica

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.

Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a ideia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: — Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

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As mulheres e a filosofia — Curta-metragem

Lançado faz alguns anos pela ótima Jambeiro filmes, esse curta-metragem surgiu antes do feminismo ficar tão em moda quanto nos últimos anos, por isso, não está envolvido pela necessidade de se reportar a qualquer grupo ou de reafirmar teses e palavras próprias à militância, podendo expor discursos de pessoas reais que não querem representar quem quer que seja, nem pregar nada a ninguém.

Particularmente, eu o acho aconchegante e interessante, principalmente por sua despretensão e por seu formato dialético. Fica aqui para quem tiver interesse.

Espanquemos os pobres! — Charles Baudelaire

Durante quinze dias confinei-me em meu quarto e me cerquei de livros que estavam na moda naqueles tempos (há dezesseis ou dezessete anos); quero falar de livros em que se trata da arte de tornar os povos felizes, sábios e ricos em vinte e quatro horas. Tinha eu digerido engolido, quero dizer todas as elucubrações de todos os empresários da felicidade pública dos que aconselham a todos os pobres a se fazerem escravos e dos que persuadiam que eles são reis destronados. Ninguém acharia surpreendente que eu entrasse então em um estado de espírito vizinho da vertigem ou da estupidez.

Pareceu-me, somente, que eu sentisse, confinado, no fundo do meu intelecto, o germe obscuro de uma ideia superior a todas as fórmulas de curandeiras que eu, recentemente, vira, folheando no dicionário. Mas isso só era a ideia de uma ideia, algo de infinitamente vago.

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Chronique de 5 de octobre de 1885 – Machado de Assis

Vous n’imaginez pas oú je suis allé le vendredi. Les lecteurs mal saivaient à peine où j’ai été vendredi. Voilá: j’ai été dans la salle de la fédération spiritiste brésilienne où j’ai ecouté la conférence que le monsieur M. F. Figueira sur le spiritisme.

Je sais que cela est une nouveauté pour les lecteurs, n’est non plus pour la fédération, qui ne m’a vu pas et ni m’a pas invité; mais il est allé cela a été ce qui m’a converti à la doctrine; il a allé ça a été ce cas imprevú de entrer là, rester, écouter et sortir sans que personne ne s’en apperçoivent.

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Quem pode falar sobre discriminação social? (texto no Blog cético)

Publiquei no Blog cético um texto sobre discriminação social e ciências humanas intitulado Quem pode falar sobre discriminação social?. Fazendo um breve resumo de seu conteúdo, o texto enfrenta o argumento de que somente pessoas discriminadas podem identificar discriminação e fazer ciência acerca da discriminação, um assunto bem popular atualmente que pode interessar os leitores deste espaço. Vocês podem conferir o texto aqui.

Resenha (no Café com Tripas): Morela — Edgar Allan Poe

Escrevi recentemente uma resenha do conto Morela, de Edgar Allan Poe, no Café com Tripas. Ainda que o tom daquele blogue difira significativamente do tom desse aqui, a análise do conto é séria e a reflexão é válida o bastante para ser divulgada aqui.

O texto participa do desafio #12MesesDePoe, em que os blogues participantes resenham, a cada novo mês, um conto do poeta inglês.

Vocês podem conferir meu texto aqui.

As forças naturais desconhecidas (trecho) — Camille Flammarion

Por conta de minhas leituras de O babuíno de madame Blavatsky, de Peter Washington, e de algumas meditações recentes a propósito de temas religiosos, decidi compartilhar aqui um velho achado do excelente Obras psicografadas: um capítulo do livro As forças naturais desconhecidas, de Camille Flammarion, astrônomo francês contemporâneo de Kardec que tinha muito a dizer acerca das pesquisas do sobrenatural no século dezenove e das próprias pesquisas do fundador do espiritismo. Aliás, muito mesmo, o capítulo é enorme. Para quem tem gosto pela história da ciência e da religião, no entanto, creio que ele seja bem interessante e possa servir como uma boa fonte para investigações futuras.

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Resenha (no Café com Tripas): O último adeus – Cynthia Hand

Publiquei no Café com Tripas uma resenha do livro O último adeus, de Cynthia Hand.

A primeira vista, a obra está dentro do nicho de entretenimento para jovens adultos (YA) e não interessaria os leitores daqui, apesar disso, para escrever a seu respeito tive que ponderar bastante sobre a relação entre interpretação textual e crítica literária, um assunto o qual já abordei diversas vezes neste espaço (como nessa resenha e nesse texto) e pode interessar aqueles que o frequentam.

O tom utilizado lá é consideravelmente diferente do que uso aqui, porém, o conteúdo preserva o mesmo cuidado que procuro ter com os textos deste blogue. Confiram neste link.

Crônica de 5 de outubro de 1885 — Machado de Assis

Mal adivinham os leitores onde estive sexta-feira. Lá vai; estive na sala da Federação Espírita Brasileira, onde ouvi a conferência que fez o Sr. M. F. Figueira sobre o espiritismo.

Sei que isto, que é uma novidade para os leitores, não o é menos para própria Federação, que me não viu, nem me convidou; mas foi isto mesmo que me converteu à doutrina, foi este caso inesperado de lá entrar, ficar, ouvir e sair, sem que ninguém desse pela coisa.

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Um cético na Cabala — Luiz Felipe Pondé

Que tal ir aos Jardins, em São Paulo, tomar um café gostoso, falar da última viagem ao Vietnã e assistir a uma aula de cabala no Kabbalah Centre da Madonna? Definitivamente um luxo: ver e ser visto, posar de espiritualizado e “aprender” a fazer Deus trabalhar para você. Tudo de bom, não?

Você não precisa disso? Duvido. Você não tem medo da vida? Não minta. Pouco importa se compramos uma saída para o medo no Amex, se andamos de metrô ou de BMW, se frequentamos igrejas evangélicas ou aprendemos palavras mágicas em hebraico ou sânscrito, se trazemos as marcas da idade num rosto envelhecido ou as escondemos atrás da pele esticada. Pouco importa – todos nós temos medo da vida.

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Blogues (falecidos) que ainda leio

Nos céus nebulosos da internet nem sempre é fácil encontrar conteúdos de qualidade, mais ainda, nem sempre aqueles raros santuários que abrigam tais conteúdos recebem visibilidade suficiente para que consigam sobreviver. Como diz aquela música do Legião: “é tão estranho, os bons morrem jovens”, aliás, Renato Russo que o diga.

Pensando nisso, decidi listar aqui alguns blogues que, mesmo não sendo mais atualizados, continuam recebendo minha visita e minhas preces para que jamais saiam do ar. Por razões que tentarei explicar logo mais eu sou grato a cada um deles por terem contribuído significativamente para minha formação com conteúdos de qualidade. Quer eles voltem ou não a ativa um dia, continuarei com minhas preces. Daqui por diante, façam também as de vocês.

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O cobrador que lia Heidegger — Samir Thomaz

Nem só de Zíbia Gasparetto e Paulo Coelho vivem os leitores dos coletivos urbanos de São Paulo. Com todo o respeito aos leitores da escriba espírita e do glorioso “mago”, talvez a dupla brasileira mais lida hoje no país, mas não é todo dia que, ao transpor a catraca do ônibus, deparamos com o cobrador lendo uma obra de Heidegger.

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Complexo de vira-latas — Nelson Rodrigues

Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui, eu pergunto:

— Não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?

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O papagaio depressivo — Luis Fernando Veríssimo

 Compraram o papagaio com a garantia que era um papagaio falador. Não calava a boca. Ia ser divertido. Não há nada mais engraçado do que que um papagaio certo? Aquela voz safada, aquele ar gozador. Mas este papagaio era diferente.

No momento em que chegou em casa, o papagaio rodeado pelas crianças. Dali a pouco um dos garotos foi perguntar ao pai:

— O quê?

O Papagaio estava citando Kierkegaard para as crianças. Algo sobre a insignificância do Ser diante do Nada. E fazendo a ressalva que, ao contrário de kierkegaard, ele não encontrava a resposta numa racionalização da cosmogonia cristã. O pai mandou as crianças se afastassem e encarou o papagaio.

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A falácia da desmilitarização da polícia – José Maria e Silva

O texto abaixo foi originalmente publicado pelo sociólogo e jornalista José Maria e Silva no Palavra acesa, mas como seu blogue está desativado desde 2013 e o tema abordado continua importantíssimo decidi republicá-lo aqui.

Mais que defender aquilo mesmo que está em seu título, creio que a preocupação fundamental contida no texto seja desfazer caricaturas da discussão sobre polícia e sociedade. Nesse aspecto ele é excelente e representa minha opinião melhor do que eu mesmo poderia.

No mais, os links e as caricaturas de mal gosto colocadas ao longo da argumentação foram acréscimos meus. Elas pertencem ao Carlos Latuff e representam aqui essa visão vulgarizada da polícia (e da política) que o texto combate.

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Diálogos sobre a religião e a morte (Parte I)

Basicamente, o texto que segue é um diálogo entre colegas.

Ele constitui a primeira parte de um diálogo entre eu e o Mailson Cabral (do Templo e Taverna) a respeito do tema da morte, englobando religião, filosofia e coisas mais. A ideia foi fazer um diálogo franco e sem grandes rodeios, em que pudéssemos expor nossas posições e inquietações sobre o assunto sem necessariamente concluir uma verdade ao fim. O resultado vocês podem acompanhar logo abaixo.

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Ler Corbisier

Não concordo com Corbisier, mas que ele escreve bonito…

A ignorância da filosofia leva geralmente a supor que essa forma de reflexão, ou de conhecimento, lida com abstrações, enquanto as ciências, as artes e as técnicas, ocupar-se-iam do concreto. Ora, o que ocorre é exatamente o contrário, pois são as ciências, as artes e as técnicas que lidam com abstrações, quer dizer, com realidades destacadas ou “abstraídas” do contexto de que fazem parte. O fenômeno biológico, por exemplo, de que se ocupa a biologia, é uma abstração, pois implica o fenômeno químico que, por sua vez, implica o fenômeno físico, etc. Qualquer obra de arte ou produto artesanal, implica o contexto cultural desse contexto. Considerado em si mesmo, não passa de uma abstração. Qualquer técnica, tomada isoladamente, sem que se leve em consideração o local e a época em que foi produzida, é também uma abstração, uma parte retirada de um todo, ou de uma totalidade.

Situando-se na perspectiva da totalidade, a filosofia é a única forma de reflexão, de pensamento e de conhecimento, que não lida com abstrações, pois mesmo quando, para efeitos metódicos ou didáticos, isola ou destaca um objeto, jamais perde a consciência de que o objeto abstraído só é o que é, só tem sentido, enquanto integrado em seu contexto, na totalidade de que faz parte.

Corbisier, Roland. Filosofia política e liberdade, pág.22. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.

PS: ocorre, porém, meu caro Corbisier, que as filosofias não encontram apenas uma totalidade mas coleções – todas pias de serem a mais totalizante dentre elas. Seguem mil vezes mil perspectivas de cada uma, em sua maioria (as que importam, pelo menos) inconciliáveis.

Minha opinião (não que interesse a um morto saber): como ninguém resolveu a questão até o momento ou fui tolo demais para descobrir quem teria sido, talvez seja o caso que, dadas as regras do jogo, cada qual encaixe o que vê do mundo naquilo que pensa dele – mas terei razão ao dizê-lo? Ou será apenas o que minha totalidade alcança?

Sobre as críticas de Rafael Menezes (mais)

Seguem abaixo minhas considerações a respeito do texto de Rafael Menezes, Sobre a resenha do livro Os filósofos.

Acerca disso é preciso dizer Rafael formulou críticas bastante específicas à minha resenha que não poderiam ser respondidas senão de modo específico, por conseguinte, minha resposta ficou bastante longa ao tanger diversos pontos. Apesar disso, tentei reduzi-la ao mínimo: ignorei minúcias que, espero, não farão falta; deixei de redigir uma conclusão mais geral; e uni algumas respostas a críticas diferentes em função da semelhança que mantinham entre si.

No mais, devo acrescentar que: qualquer nova resposta a esse assunto será dada ao pé deste texto ou daquele anterior (aqui), e que nada mais tenha a dizer sobre Herculano Pires que caiba num novo texto. O assunto finda aqui.

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Replicando: Considerações sobre a resenha do livro Os Filósofos, de José Herculano Pires, realizada pelo Sr. Homem sem Sobrenome

Foi publicado outro texto de Rafael Menezes a propósito de minha resenha sobre Herculano Pires. Este novo consiste numa continuação direta do texto anterior, com a discussão dos trechos da resenha que o antecessor não abordava.

Por conta disso, reconsidero minhas suspeitas sobre ele não ter lido o livro e também minha predisposição a publicar algo mais sobre o assunto, sendo que, tão logo eu consiga tempo, escreverei minhas considerações a respeito.

Para ler o texto de Rafael clique aqui

Sobre as críticas de Rafael Menezes

Seguem abaixo algumas considerações a respeito das críticas de Rafael Menezes, em seu texto Sobre a resenha do livro Os filósofos (para saber mais clique aqui).

Por uma questão de tempo e disponibilidade, produzi um texto bastante sintético que resume a argumentação de Rafael em quatro pontos principais. Como método de exposição, reconstruí inicialmente suas críticas e, em seguida, apresentei minhas considerações a cada uma delas. Ao término disso, fiz um balanço dos dizeres de Rafael como um todo.

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Replicando: Sobre a resenha do livro Os filósofos

Faz algum tempo que publiquei uma resenha sobre Os filósofos, uma espécie de manual de História da Filosofia do pensador espírita Herculano Pires.

Lembro que foi bastante instigante escrevê-la, dada a possibilidade de refletir sobre os problemas interpretativos que o livro continha e descobrir minhas próprias maneiras de evitá-los. Na época, imaginei que meu texto teria, sobretudo, dois tipos de leitores: aqueles interessados nas discussões históricas que eu promovia e aqueles que fossem espíritas ou leitores de Herculano, sendo que, para encontrá-los, divulguei o texto nos sites em que achei menções ao livro. Pois bem.

Eis, então, que hoje o Rafael Menezes, do blog O Espírito e o Tempo, leitor do segundo tipo, publicou um texto a propósito de minha resenha (aliás, uma refutação, sob vários aspectos) que replico logo abaixo.

Particularmente, gosto bastante disso. Ser lido, mesmo que daí se resulte uma contra-argumentação daquilo que eu afirmei, atesta que meus textos tocam temas que são relevante para outra pessoa além de mim mesmo, independentemente da concordância que tenhamos em relação aos pontos discutidos. Sendo assim, tão logo for possível, pretendo escrever algumas considerações sobre as críticas do Rafael – a quem desde já agradeço pela leitura e pelos apontamentos feitos – e com isso balancear em quais pontos concordo com elas ou não.

Até lá, aproveitem o texto dele e desconfiem um pouco de mim.  Leiam aqui.

Viagens de Gulliver (trecho)

“Meu pequeno amigo (…), você fez o mais admirável panegírico sobre seu país. Você provou claramente que a ignorância, a preguiça e o vício são os verdadeiros qualificativos de um legislador. Que as leis são muito bem explicadas, interpretadas e aplicadas por aqueles cujos interesses e habilidades residem em pervertê-las, confundi-las e eludi-las. Observo entre vocês algumas linhas de uma instituição que originalmente seria muito tolerável, mas que na aplicação tornou-se obliterada, deturpada e manchada pela corrupção. Não percebo, em tudo o que me disse, que se exija nenhuma perfeição dos que alcançam os cargos de direção entre vocês, muito menos que se exijam homens que se tenham tornado nobres pela virtude, que os sacerdotes sejam homenageados por sua piedade ou ensinamentos, os soldados por sua conduta ou coragem, os juízes por sua integridade, os senadores pelo amor à sua terra, os conselheiros por sua sabedoria.

Como você, prosseguiu o rei, passou a maior parte de sua vida viajando, estou disposto a esperar que tenha escapado de muitos vícios de seu país. Mas, pelo que pude perceber no nosso relacionamento e pelas respostas que consegui extorquir de você com muito esforço, devo concluir que a maior parte de seus compatriotas é a mais perniciosa raça de pequenos e odiosos parasitas que a natureza permitiu que rastejem na face da Terra.”

Swift, Jonathan. Viagens de Gulliver, pág.166. SP: Nova Cultural, 2003.