Aforismos de fundo de gaveta (VII)

Há conceitos que são como chapeis de burro: aqueles que os utilizam logo são identificados e tratados com aquela condescendência mimoseada aos tolos que os faz até esquecer o ridículo de suas cabeças. Embora o amadurecimento chegue naturalmente para alguns deles e faça com que abandonem seus chapeis e superem a vergonha de terem desfilado publicamente nessa condição, é bem mais comum que sigam imaturos e desavergonhados por longo tempo sem sequer notar o tratamento especial que recebem. Cedo ou tarde, porém, mesmo esses atrasados conseguirão notar aquilo que sempre foi óbvio para todos e deixar sua antiga condição: “Vejam, há quem use chapeis de burro”, dirão como se desvelassem uma profunda metafísica ao apontar aqueles de quem se desvencilham e com quem até pouco tempo se misturavam. Trata-se de algo vergonhoso de ver, certamente, mas ao qual não cumpre dirigir desprezo ou piedade; há esperança mesmo para eles, pois assim como descobriram a burrice, talvez um dia possam descobrir a inteligência.

Aforismos de fundo de gaveta (VI)

O pior daqueles que pensam apenas de forma binária é que a única maneira que encontram para compreender o múltiplo é tentar enquadrá-lo em seu esquema (ainda que ao custo da criação de monstros teóricos). Por isso, quando ele é questionado, não é incomum que essas pessoas retruquem com a questiúncula: “Mas o que é que vamos colocar no lugar?”. Nesses momentos é preciso respirar fundo e controlar a impaciência, ao menos até encontrarmos um modo pacífico e claro de dizer: “Também vamos demolir o lugar”.

Aforismos de fundo de gaveta (V)

É com grande facilidade que qualquer um adota a ampliação da educação como valor político, afinal, o amplo apreço dedicado à educação faz com que poucos de nós queiram questioná-la como valor. Mas aquele age assim compreenderá mesmo o que está a defender? Ou crerá que um mundo mais educado é aquele em que todos pensarão como ele? Será que não desconfia que nesse novo mundo seus valorezinhos — pequenos e mesquinhos — serão ainda menos considerados na política, na arte e na academia? Será que ignora completamente que, por meio da educação, emergirá um mundo que nenhum de nós será capaz de compreender e tampouco de aprovar, uma vez que seremos nós e nossos valores que serão ultrapassados por ele?

Suspeito que muitos desses pensem que a única tarefa do futuro será lhes dar razão um dia… Em função disso, aconselho-lhes que, para que continuem seguros, sigam se ajoelhando no altar da Ignorância, sua única e verdadeira deusa. Rezem para que ela nunca falhe.

Pequena provocação (anti) terapêutica

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1. Certas vertentes da Psicologia pretendem tratar pessoas psiquicamente transtornadas com a técnica da “terapia psicológica”, que consistiria na realização de encontros que promoveriam a fala e a reflexão conjunta acerca daquilo que perturba o paciente. O objetivo dos encontros seria equilibrar a psique do doente e lhe dar subsídios para dissolver alguns de suas perturbações e enfrentar outras.

2. Bem, suponhamos que um paciente melhore de seu transtorno depois de certo tempo fazendo uma terapia psicológica qualquer, supondo também que sua melhora tenha ocorrido em função de eventos paralelos à terapia os quais ele não mencionou ao psicólogo em nenhum momento. Diante de uma situação assim, seria possível ao psicólogo notar que sua terapia não foi responsável pela melhora do paciente? De que maneira?

3. Se o terapeuta puder separar a melhora do paciente da ação de sua terapia, então é possível dizer “se” e “por quais motivos” a terapia funciona bastando separar o que provém da técnica e o que não provém, entretanto, se ele não puder realizar essa separação, então mesmo ocorrendo qualquer melhora no paciente no tempo em que ele é tratado, o psicólogo jamais saberá dizer se ela se deu por conta da terapia ou por outro motivo qualquer, o que torna a técnica terapêutica algo que, em nenhum momento, se pode dizer que funciona ou mesmo que produz qualquer melhora no paciente.

Um adendo: um psicólogo é capaz de montar um esquema bastante razoável da psique de uma pessoa transtornada e, a partir disso, discutir com ela as causas de seus males, suas possibilidades de mudanças e coisas assim. Se o profissional for bom e o paciente estiver mesmo disposto a se repensar e mudar, acho que a terapia pode mesmo “funcionar” a despeito do problema que levantei continuar presente.

Aforismos de fundo de gaveta (II)

Justiça metafísica. Segundo certa corrente metafísica, todo bem carrega certo pesar ao nascer: ele passa a existir em algum instante temporal específico, inexistindo até o momento de seu surgimento. Disso é possível concluir que todo bem envolve uma ausência de bem ou, em algumas filosofias, um mal — já ao nascer.

Caso venham a considerar isso algum dia, aqueles que tentam restabelecer a justiça finalmente entenderão que sempre partem da pior situação possível, uma vez que no fundamento de todo bem que a justiça pode trazer ou significar há sua ausência. E conquanto ela possa ser compensada, jamais poderá ser desfeita. Por mais bem-vinda que seja, nenhuma justiça futura poderá desfazer sua própria ausência até seu surgimento, consequentemente, o restabelecimento da justiça só poderá ser justo caso se faça não somente para seu presente ou para seu passado, mas, sobretudo, para seu futuro.

Aforismos de fundo de gaveta (I)

Sobre a gramática da política. Qualquer um que pretenda colocar uma espécie de ponto final na história se põe como o melhor ou mais capaz que os demais, meras vírgulas, como se os períodos da história convergissem para seu surgimento e nenhum outro pudesse surgir posteriormente e ultrapassá-lo para dar continuidade à narrativa. Assim, qualquer forma de ponto final histórico carrega uma arrogância de origem, sendo uma espécie de grito para o futuro: — Bons como eu vocês jamais serão.

Pequena provocação (a)teológica

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1. Teoricamente, deus tudo sabe: qualquer ação sua sempre causa exatamente o que ele desejou que causasse, uma vez que seu conhecimento do futuro e do resultado de suas ações permite que elas se deem com exatidão.

Diferentemente dele, nós desconhecemos quase tudo: agimos sem saber qual será o resultado de nossa ação, por isso, erramos frequentemente em nossas tentativas e carregamos incertezas em tudo o que fazemos.

2. Mas se deus tudo sabe, então há algo que ele não sabe: como é não saber. Deus não sabe como é agir sem conhecimento, tal como um mortal, pois tem todo o conhecimento a seu dispor. Sempre que conhece, conhece absolutamente, logo, mesmo que conhecesse a ignorância, conheceria do ponto de vista de quem sabe tudo a respeito dela e não do ponto de vista de quem a experimenta “por dentro”.

Por sinal, mesmo que quisesse experimentar a ignorância enxergando por meio de nossos olhos, como se eles fossem seus óculos, por exemplo, ainda estaria enxergando a partir de sua onisciência e, consequentemente, ainda estaria sabendo de tudo em vez de experimentar a ignorância. Deus, se existir, é incapaz de entender a condição humana justamente porque é incapaz de experimentar a ignorância que a acompanha.

3. Disso se segue que ou o conceito de onisciência é contraditório, ou que deus não é onisciente. Ou que eu fiz algum raciocínio errado aí atrás, é claro.

Que venham as refutações.

Duas notinhas sobre esse texto: a primeira é que a tirinha magnífica que o ilustra vem do ótimo Um sábado qualquer; já a segunda é que minha amiga Victória Fajardo (também filósofa) lhe fez uma objeção interessante que eu gostaria que constasse aqui: ela considerou que Jesus, ao ser um deus que se fez humano e que perdeu sua temporariamente sua onisciência, poderia experimentar a ignorância. Eu concordo com ela, entretanto, acrescento que se depois de sua morte Jesus voltasse a ser onisciente, então o problema voltaria e mesmo quando pensasse em sua própria experiência de ignorância ele estaria incapacitado de experimentá-la.