A respeito do falecimento de Osvaldo Porchat

Para o pesar daqueles que amam e estudam filosofia, faleceu no dia quinze deste mês o grande filósofo paulista Oswaldo Porchat Pereira.

Pouco conhecido fora da universidade, Porchat era antes de tudo um intelectual querido. Aqueles que fizeram contato com sua obra ou com a pessoa humilde e discreta por detrás dela acabavam desenvolvendo afeição por ambas e, embora tenha tido vários adversários ao longo de sua carreira (sobretudo entre seus próprios discípulos), Porchat jamais criou inimigos; mesmo seus objetores lhes prestavam muito respeito. Por sinal, o primeiro livro publicado em sua homenagem, O filósofo e sua história, reunia não só artigos que analisavam sua obra e o peso delas na filosofia brasileira como também artigos com críticas minuciosas aos seus textos que foram nitidamente consideradas por ele na evolução de sua obra.

De professor de latim à especialista na obra de Aristóteles, de tomista fervoroso a continuador do ceticismo de Sexto Empírico, Porchat passou por diversas fases em seu pensamento, sempre agraciando a universidade com textos lúcidos e belos os quais explicavam exatamente os motivos de suas mudanças. Tratava-se de um intelectual brilhante de uma enorme importância para a filosofia brasileira tanto pelos pensadores que formou, quanto por suas teses originais e por sua importância como fomentador de um debate nacional na área.

Para quem quiser conhecê-lo com mais profundidade ou saber das especificidades de sua obra ou biografia, há locais melhores nesse sentido que este blogue (como o site da revista Sképsis ou mesmo o clássico Rumo ao ceticismo), porém, diante de sua morte, eu gostaria de lhe fazer minha própria homenagem precisando sua influência em minha formação.

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Flusser versus Descartes

Este texto é uma pequena consideração a respeito de uma crítica de Vilém Flusser (1920-1991) à filosofia de René Descartes (1596-1650) feita no livro A dúvida.

Ao analisar de forma crítica as afirmações de Flusser pretendo fazer com que este texto também sirva como um esclarecimento a propósito a filosofia de Descartes nos pontos criticados.

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Sobre o tempo e a memória nas Confissões de Agostinho

9789722713269Diz Agostinho que: “Sem dúvida que a memória é como uma espécie de estômago da alma” (pág.467), recorrendo à uma metáfora corpórea que não pretende asserir que a memória seja uma faculdade do corpo, na verdade, ela perpassaria o corpo sem se confundir com ele por existir apenas na alma.

Como não tem forma corpórea, a memória também não é um “local” onde está “armazenado” aquilo que vivemos. Nossas lembranças não podem ser recolhidas da memória como se puséssemos nossa mão dentro de um recipiente para retirá-las de lá. Elas não estão situadas no espaço físico como corpos.

Além disso, nossas lembranças não estão sujeitas ao tempo tal como as sensações que as produziram, pois enquanto as sensações desaparecem tão logo certo período decorra, as lembranças delas permanecem indefinidamente e podem, inclusive, reaparecer subitamente quando não são chamadas.

O que significaria, então, apresentar a memória como “uma espécie de estômago”? 

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Resenha: De como fazer filosofia sem ser grego, estar morto ou ser gênio — Gonzalo Palacios

como_fazer_filosofia2004Para pensar o pensamento brasileiro

No Brasil, todos os anos os professores universitários de Filosofia levam para a sala de aula certa expectativa: eles não esperam encontrar dentre seus alunos o novo Descartes ou o novo Wittgenstein que irá revolucionar a cultura e mudar nossa maneira de fazer filosofia, sendo assim, eles os ensinam como se estes fossem se tornar, no melhor dos mundos possíveis, também professores universitários. De igual modo, todos os anos esses estudantes agem conforme às expectativas de seus professores, estudando pouco nos anos de graduação e descobrindo como conservar as mesmas opiniões que já tinham antes de se tornarem filósofos durante os anos de pesquisa.

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A certeza nas Meditações de Descartes

O texto abaixo consiste numa breve comunicação que realizei durante a Oitava Semana de Orientação Filosófica e Acadêmica (VIII SOFIA) da Unifesp. Como tive a oportunidade de atuar na organização de duas edições desse evento, foi bastante agradável poder me apresentar nele este ano.

Basicamente, meu texto expunha algumas problemáticas da História da Filosofia Moderna e da filosofia de René Descates. Como este não é um espaço específico para filósofos, mudei algumas coisas nele visando torná-lo mais acessível aos leitores daqui. Façam um bom proveito.

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