Encontro inusitado

Texto escrito originalmente em 2017

1. Recentemente, fiz um concurso público em outro Estado, encontrando lá um rapaz que estava empolgado quanto ao Olavo de Carvalho. Como se tratava de alguém gentil, deixei que só ele falasse, e como também era filósofo, com mestrado e tudo, esperei que me dissesse alguma coisa inédita a respeito desse autor, que me apresentasse alguma perspectiva a qual nunca me ocorreu — quem sabe eu descubro algo novo e tenho que reconsiderar o que penso sobre o Olavo?

2. Li alguns textos desse autor: o livro O mínimo que você precisa saber para não ser idiota, um artigo interessante mas completamente equivocado sobre Descartes (resenhado aqui), um texto constrangedor a respeito Kant e, obviamente, também vi alguns daqueles vídeos bizarros divulgados por aí. 

Bem, penso que conforme estudamos um tema e os debates em torno dele, também passamos a colecionar autores com os quais possuímos alguma divergência, conquanto continuemos a respeitar a profundidade de seus trabalhos. Tenho essa relação com Martial Gueroult, Leibniz, Marx e tantos outros. Porém, ainda que Olavo escreva sobre assuntos que eu estudo (Filosofia e História da Filosofia) e possua uma posição própria a respeito deles, ele certamente não está entre esses autores. 

Olavo não é um autor profundo que desafia tradições por meio de textos polêmicos, porém um chulo que não entendeu a sofisticação dos problemas que decidiu abordar. Suas análises são ridículas e parem perspectivas bizarras que ninguém minimamente instruído no assunto conceberia. Elas sequer merecem uma contraposição, uma vez que nem mesmo chegam a tocar o debate em que tentam se inserir. Tratam-se de textos pouquíssimo rigorosos que não resistem a uma análise filosófica apurada.

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Suspeito que ele tenha tido uma formação intelectual solitária, recebendo poucas correções e críticas de outras pessoas, o que o fez chegar à maturidade ainda errando no mais básico. Ou qualquer coisa assim, já que, francamente, nunca tive interesse em estudar a fundo o assunto, embora estivesse disposto a escutar alguém que tivesse.

3. Foi por isso que ouvi o rapaz com algum interesse e esperei que ele me dissesse algo que eu nunca investigaria a fundo por mim mesmo. Mas não há boa vontade que mude a realidade.

Para a minha decepção, ele apenas repetia os lugares comuns a respeito do Olavo: ter aulas com esse autor seria como estudar com um filósofo sem igual, sua profundidade seria ímpar, entre outras coisas assim. O rapaz citou os livros que comprou do autor, relembrou as zombarias do Olavo sobre outras pessoas, as teses mais gerais desse autor e seguiu dizendo outras coisas dessa sorte sem que, em nenhum momento, apresentasse quaisquer resquícios de uma leitura crítica ou aprofundada daquilo. Por mais que eu tentasse conduzi-lo a algum pensamento próprio, suas falas jamais apresentavam outra coisa que não fosse a própria “propaganda” em torno dessa figura. A leitura de Olavo não lhe suscitava nada a não ser a própria leitura que Olavo faz de si.

Perdendo a paciência, tentei perguntar acerca dos livros que o rapaz tinha lido porque supus que, caso delimitássemos o assunto a um livro específico, talvez eu pudesse fazê-lo apresentar alguma ideia própria, alguma maneira mais pessoal de ler aquele autor; contudo, nada além de amenidades surgiu. Com isso, fui me aborrecendo e fazendo o possível para mudar de assunto dali por diante — eu não queria ouvir propagandas.

4. Quando abrimos aqueles livros de história que promovem uma abordagem superficial ou simplesmente sintética a respeito de um pensador, encontramos ali afirmações do tipo: “Sócrates foi o inventor do Ocidente…”, “A história da filosofia é um apêndice da obra de Platão”, “Ockham é o anti Tomás de Aquino…”, entre outras máximas que são como que imagens propagandísticas de grandes intelectuais, uma redução de sua complexidade a uma frase de efeito. Todavia, somente quando lemos suas obras é que compreenderemos a grandeza desses indivíduos, a começar pela dificuldade de acessar o que dizem. Só aí começamos a trocar essas frases por experiências mais maduras, que não podem ser reduzidas a ditos tão simples. Em suma, se tivermos a sorte de ter meios para entender um pouco dessas obras, voltaremos mais complexos dessa leitura, com palavras novas que dizer, um hálito diferente na boca; ninguém sai ileso da leitura de um grande pensador. 

A menos, é claro, que não se trate de um grande pensador, que não exista qualquer substância por detrás da imagem e que ele não seja mais que a propaganda que em torno de si. 

Por isso, ouvir o rapaz foi decepcionante: ele era cativo de uma imagem e sequer sentia a necessidade de ultrapassá-la. Ainda que eu estivesse completamente equivocado em minha leitura e existisse um grande pensador por detrás da aura “trash” do Olavo, mesmo o rapaz mais empolgado com sua obra não conseguia alcançar esse grande pensador, nem perceber a necessidade dele existir.

Se há um grande pensamento ali, então ele está tão fundo com relação a essa superfície que não há como não considerá-lo morto e enterrado. Sinceramente, que descanse em paz.

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3 pensamentos sobre “Encontro inusitado

  1. Um pequeno reparo: Pelo que observei, numa leitura inicial, Olavo deve mais à uma tradição esotérica, ocultista, do que a Tradição Filosófica Ocidental. Ou melhor, ele lê a
    filosofia através do filtro esotérico, ocultista, cujas raízes remontariam à Antiguidade e Medievo. Outra fonte foi a Escola Perenialista, concebida por três pensadores metafísicos do século XX:

  2. Li, hoje de manhã, uma matéria na Época desta semana, onde o autor propõe uma “desconstrução” do pensamento olaviano. Pelo que observei, numa leitura inicial, ele deve mais a uma tradição esotérica, ocultista do que a Tradição Filosófica Ocidental. Ou melhor, ele lê a
    filosofia através do filtro esotérico, ocultista, cujas raízes remontariam à Antiguidade e Medievo. Outra fonte Escola Perenialista, concebida por três pensadores metafísicos do século XX: o francês René Guénon, o suíço-alemão Frithjof Schuon (1907-1998) e o anglo-indiano Ananda Kentish Coomaraswamy. Estes afirmavam que existe uma unidade filosófica que jaz por baixo das grandes tradições religiosas (e no pensamento de Pitágoras, Platão, Aristóteles e Plotino); e a partir do Renascimento, esta unidade se desagregou, gerando o mundo caótico que temos. Daí a hostilidade a Descartes e o artigo estranho que ele escreveu sobre Kant. Olavo de Carvalho adota o sentimento anti modernidade deles, o que inclui desprezo pela democracia e um profundo elitismo espiritual, no qual existe um grupo de mestres superiores se destacam da massa dos impuros e ignorantes (os perenialistas não viam problema algum no fato de uma sociedade ser dividida em castas, com cada um em seu lugar predeterminado e mesmo na existência de “raças” humanas, com características distintivas). Desse modo, tenho a impressão que o rapaz com quem você conversou não ache demérito algum em se referir a Olavo como uma espécie de sábio brâmane, sem imperfeição alguma. Curioso, não?

    • Acho isso correto, mas note que o Olavo se apresenta como filósofo e defende essa interpretação sobre a decadência do pensamento ocidental como uma tese filosófica. Em outras palavras, acho que ele não se entende como um esotérico que esteja lendo filosofia, mas como um filósofo de certo tipo, que valoriza o esoterismo. Pelo menos acho que é isso.

      É desse ponto de vista que vem meu desconforto: a Filosofia é técnica. Suas discussões dependem de uma forma específica de formular conceitos e discuti-los, sendo que isso é desenvolvido no contato com os textos e com a comunidade filosófica. Inclusive, os filósofos mais influentes não são simplesmente inventores de pontos de vistas originais, mas de formas novas de argumentação que são profundamente intrincadas, técnicas, e que terão impacto justamente por isso.

      É por isso que penso que se o rapaz não notava a necessidade de cobrar o Olavo, estava falhando como filósofo, gostando de um “filósofo” por apreciar não uma filosofia expressa por ele, mas uma ideologia vaga.

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