Teoria da solidão — Vicente Ferreira da Silva

Todos aqueles que refletiram sobre os vínculos que unem o homem aos outros homens, não se cansaram de afirmar que é o homem um ser gremial, disposto pela sua índole biopsíquica e espiritual a viver em conjuntos que o ultrapassam. Esta vida que ultrapassa o homem e somente na qual ele se conhece, define, desenvolve e exalta, é a vida cultural em toda a sua amplitude, a esfera do espirito objetivo. Como reconheceu Hölderlin, “nós, os homens, somos um diálogo”, isto é, existimos num diálogo e antes mesmo de despontarmos para a nossa consciência particular já estamos envoltos nesse colóquio ilimitado. Apreendemo-nos, sentimo-nos dentro dos quadros dessas formas simbólicas e linguísticas intersubjetivas e é esse discurso social que faz surgir o mundo como se nos apresenta. Disto já podemos concluir de que maneira radicada e profunda o “outro” está impresso em nós mesmos, em que medida o nosso existir é antes um coexistir; ao vivermos particularmente, vivemos conteúdos universais.

Essa dependência que nos vincula á vida social tem um alcance muito maior do que uma simples satisfação de necessidades econômicas e materiais. O homem não se basta a si mesmo não só em sentido físico, como também em sentido metafísico, isto porque a autocompreensão de seus fins, propósitos, ideais, valores e empreendimentos postula uma ordem de vigências sociais que condiciona todas as tarefas particulares. Se a nossa conexão com os outros homens é, pois, uma lei tão entranhada ao nosso ser, como podemos então falar em solidão e ruptura, como podemos aceitar o testemunho de tantos pensadores que situaram nesse enclausuramento da vida um dos ideais máximos da existência sobre a terra? As possibilidades pessoais, estando inscritas no contexto social, esse afastamento não acarretaria uma redução funesta do espaço de exercício individual? Os pregadores da solidão não estariam preparando o aniquilamento do próprio homem?

Devemos notar antes de tudo que se afastar de determinados homens, classes, ambientes e setores da sociedade, não significa necessariamente abandonar qualquer trato humano, mas sim desenvolver em outros planos e direções um convívio mais livre. A solidão seria assim a substituição de um contorno humano opressivo e imposto, por um novo horizonte de relações pessoais. É a experiencia poderosa de um Hölderlin traduzida nestes versos:

Doch kannt’ich euch besser

Ais ich je die Menschen gehannt,

Ich ver stand die S tille des Áthers,

Der Menschen Worte verstand ich nie.

Os maiores misantropos tiveram a sua confraria secreta, as suas amizades ideais que assiduamente frequentavam. As vozes eternas do passado, a demografia de seus próprios sonhos substituía a proximidade humana que não era encontrada na realidade. Podemos aqui falar de urna solidão populada, escolha de um outro convívio, forma de superação dirigida em geral para um encontro decisivo.

Como em todas as coisas humanas, não existe urna só especie de solidão, mas inúmeras: autênticas e falazes, de ressentimento e hostilidade, de carência e plenitude, de amor e de simpatia ao absoluto.

A superação ínsita no isolamento, o seu movimento próprio de transcendência, podem tanto significar triunfo e libertação, como em outros casos, uma tortuosa abdicação de nossa alma. Neste caso, ao negar o “outro”, ao insular-se em seu espaço próprio, o solitário só procura uma nova imunidade para sua mais íntima escravidão. Escapando ao olhar do próximo, o homem, neste caso, não se proporciona qualquer nova possibilidade, não potencia sua faculdade de comunicação, mas unicamente se contraí num mutismo redutor e sombrio. Como vemos, a ruptura do convívio humano não é um fato unívoco e simples, pois comporta toda uma gama de especificações e motivações.

Diz Aristóteles na Moral a Eudemo que “o ser que se basta plenamente a si mesmo não tem necessidade de pessoas que Ihe sejam úteis, nem de que sejam benévolas com ele, nem da vida em comum, já que pode viver amplamente, só e a sós consigo mesmo. Esta pendência absoluta ressalta sobretudo com evidencia na Divindade”. Em forma mitigada, é esta a independência que buscamos guando desfazemos, de maneira provisoria ou permanente, os laços com a sociedade existente. Entretanto, a independência do homem, a sua vitória contra os sortilégios e influências desmerecedoras do ambiente, o seu centrar-se em si mesmo, não acarreta a impossibilidade de novos encontros; pelo contrario, é uma preparação para eles. Ao afastar-se das “moscas da praga pública”, Zaratustra prepara o advento de uma nova relação e de um novo sentido vital. O amor da independência não é o encomio de um Eu em detrimento de outro, mas a amorosa realização de uma harmonia reciprocamente fortalecedora. Na afirmação desesperada de Ibsen, de que o homem forte é o homem só, sentimos o anelo de uma compreensão que ultrapassa e de certa maneira nega sua fria repulsa.

O animal, nascendo como ser gregário ou solitário, vivendo em bandos ou arrastando sozinho seus dias, assim permanece sem nenhuma alteração só no comportamento: a formiga não foge á formiga, o rinoceronte não se reúne em greis. Ora, um dos extremos do homem é justamente essa sociedade primitiva e imobilizada, quase animal, em que o indivíduo não tem qualquer poder de escolha e seleção de seu convívio, sendo as suas relações grupais determinadas inexoravelmente. Não existe para ele possibilidade de qualquer recuo diante da obcecante e omnipresente força do grupo; a sociedade dada exclui toda sociedade livremente escolhida ou criada. Nesse estádio, não podemos ainda falar de qualquer ruptura ou afrouxamento dos elos coletivos, de nenhuma superação da sociedade dada, de nenhuma separação do eu do não-eu, e, portanto, de nenhum campo propício para um comportamento heterosocial espontâneo. O homem só pode assim abandonar por um ato íntimo os outros, não pode destruir as conexões congênitas de vida, pois ainda não existe como força autônoma.

Se neste primeiro estadio ainda não encontramos a solidão voluntária procurada, o amor da distância, encontramos no entanto frequentemente a solidão imposta e compulsiva, e expulsão do indivíduo de seu grupo. Vemos que á figura da solidão ativa e buscada, ao ato de deliberação, devemos antepor essa outra espécie de abandono passivo, exterior e ignominioso, imposto pelos outros e não imposto aos outros. A doença, o crime, a miséria e a execração coletiva constituíram sempre razões pelas quais o individuo foi ilidido de seu grupo. No que concerne à relação entre a doença e a solidão poderíamos lembrar que o enfermo não dispondo de seu próprio porvir, perdendo provisoria ou definitivamente a prospectividade de seus atos e portanto, como diz muito bem Pliilipp MüIIer, sendo destituído de toda urna dimensão de seu ser, não pode participar das ocupações sociais do momento. É portanto relegado a uma marginalidade que modifica totalmente suas ligações com o “outro”. Mesmo quando assistido e socorrido pelos outros, o doente é um solitário, pois não participa do caudal de vida e da plena temporalidade dos homens que o cercam. A proximidade espacial por si só nada significa e não é índice de uma relação inter-humana eficaz e verídica. Podemo-nos sentir inermes e abandonados em meio da mais densa multidão: magna civitas, magna solitudo e inversamente podemo-nos sentir assistidos, compreendidos e amparados na mais erma paragem.

Romper com o mundo é uma tarefa do espirito e não qualquer coisa de natural e instintivo. Se o nosso ser se esgotasse na coexistência biossocial não sentiríamos as vezes essa coexistência como um depauperamento de nossas possibilidades, procurando na solidão a reconquista de um bem superior. Vendo o equívoco em nos e em torno de nos, procuramos um novo direito para a nossa existência. É portanto a solidão o índice de nossa capacidade de franquear e vencer todo um conjunto de mecanismos e inercias biossociais, instituindo em nos e fora de nos um novo contorno pessoal. Só é verdadeira a solidão que nasce de um impulso próprio no coração do solitário. O resto é contingência, abandono, necessidade, mas nunca vida pudica e concentrada. O oposto desta última figura é a existência sem interstícios, devassada, das aglomerações hodiernas, em que a curiosidade e o olhar humano varrem e devastam tudo quanto há de inalienável no homem subjetivo. Do tormento da vida exposta falou Dostoiévski em seu livro Recordações da casa dos mortos.

Fala-se comumente na solidão das praias, em palmeiras ou bosques solitários. Essas expressões são, entretanto, meras metáforas, pois somente o homem pode ser solitário. As coisas são exterioridade pura, incapacidade de recolhimento e de auto distanciamento. O que é a natureza senão essa grande contiguidade, essa imensa conexão vital donde nada se pode ausentar? Unicamente o nosso ser, como não coisa, como excedente á natureza, como espirito, pode produzir-se como destino solitário e distante.

Anúncios

Ouse dizer o que pensa

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s