Nem ateu sou mais

Existiu um tempo em que eu sabia dizer por que era ateu, conhecia razoavelmente as provas da existência de deus e até seria capaz de recitá-las como quem recita um poema. Mas isso faz muito tempo e hoje sou ateu pela mera falta de uma palavra melhor. Não só os deuses desapareceram de meu imaginário, como também qualquer identidade que lhes fizesse oposição. Atualmente, não me oponho mais a entidade alguma, nem tenho mais argumentos contra deus algum, pois não há confronto com aquilo que sequer me desperta atenção. Porém, que nome se dá para alguém que ignora algo que é fundamental para outras pessoas? Francamente, não sei, mas talvez seja o momento de dar adeus à velha identidade e reconhecer ateu também não sou mais.

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11 pensamentos sobre “Nem ateu sou mais

  1. Um texto com o qual muito me identifico por reconhecer a “caduquice” de certas expressões, ao menos em se tratando de mim. O termo parece estar muito associado a uma militância e possui, sem dúvidas, uma conotação muito negativa, dada a forte influência religiosa na sociedade. Eu já me disse crente, ateu e agnóstico. Não sei se, no fundo, há sínteses entre essas “visões” ou se a separação do tipo “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa” caberia aqui. O fato é que, embora eu me interesse bastante pelo estudo da religião em geral, e do cristianismo e seus textos sagrados em particular, quero muito pegar um arrego nesse novo termo que você ou quem quer que seja venha a “bolar”. Enquanto não, fica a teu gosto escolher qual o melhor.

    • Acho que o problema é que o termo “ateu” coloca a experiência do outro (que não tem valor algum para mim) para me definir. Eu sou aquele que não tem algo importante para o outro, aí acabo me definido pela visão que o outro tem de mim, o que é um tanto estranho.

      Só não sei se cabe colocar algum termo no lugar de ateu, como descrente ou algo assim. Ultimamente tenho pensado que é melhor não ter palavra alguma para isso, pois só existem ateus a partir do ponto de vista dos teístas. O sujeito que não vê deuses no mundo não necessariamente precisa afirmar uma identidade em relação ao que ele pensa que existe ou não no universo.

      • Eu entendo isso que você está querendo dizer de “o termo ateu me define pelo crente”, mas calma, não se esqueça que de qualquer forma o crente é um sujeito “com Deus” (ainda que seja um delírio) e o ateu é sem isso.

        Mas eu entendo que é estranho. É como criar um termo para quem não tem câncer. Hahaha!

  2. Sabe que ainda essa semana eu estava com um outro porteiro com essas discussões e eu tive de fazer um esforço para me lembrar dos argumentos. Hahaha!

    Não me lembro se eu já comentei com você, mas existe um texto (curto) do Ryle chamado “Expressões Sistmaticamente Enganadoras” onde, em resumo, ele argumenta que frases como “Deus não existe” ou “O diabo existe” são expressões sistematicamente enganadoras porque já na linguagem assumem uma entidade e atribuem a ela um predicado. Mas essa estrutura de linguagem não se refere a nada no mundo. É um texto muito bom e bem escrito, recomendo.

    Eu me lembro de ter visto alguma coisa em Nietzsche sobre esse seu novo estado de espírito. Hahaha! Era alguma coisa envolvendo o termo “ultra ateu”.

    Faz sentido que se a coisa não existe e, por tabela, não faz parte do dia a dia, então não se faz porque debater. Mas um dia quando você voltar ao mundo, verá que debatedores estão sempre à espreita. Hahaha!

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