Tarde demais e Inês é morta — José Cândido de Carvalho

Leu a carta chegada de Lisboa, tossiu sua tossinha de cemitério, foi ver a cara no espelho e disse:

Chegou tarde!

Era Rebordão Castanheira e a vida toda sonhou com os alto-relevos das dama em noites de braços macios. Tudo isso na camaradagem de bifes impulsionados a vinhos de preço. E cinquenta anos se passaram sem damas, sem braços, sem vinhos. O que Rebordão Castanheira teve em quantidade de encharcar, foi papel para despachar em sua pobre mesa de amanuense de Inspetoria de Águas. Foi humilhado e ofendido. Aturou diretores e subdiretores que falavam com os pés. Certa ocasião, por causa de uma vírgula, levou um montanhoso bofetão. E ao querer casar com a menina Peralgina, filha de um reles chefete de seção, teve o pedido indeferido a socos. Foi para Catumbi com o nariz de Rebordão Castanheira e voltou com o nariz de ananás. E o chefete, na sua porta de Catumbi:

Vai descer em outro terreiro! Vai casar com a mãe!

Ao dar baixa na Inspetoria de Águas, depois de uma papelada de 35 anos de tamanho, Rebordão era um caco. Por ele haviam passado mágoas e fomes. Vivia por procuração, nos braços dos remédios. Diante de um carro de enterro sem defunto tinha muita vontade de levantar o espeto do braço e dizer:

Táxi! Táxi!

Releu a carta em que um advogado de Lisboa comunicava, em termos de discurso, que o tio Joaquim Castanheira, duas quinzenas antes de empacotar, havia feito dele herdeiro de todos seus teres e haveres, coisa de monta, com vinhedos, dinheiros em banco, apólices, dividendos, cachos de casas, uma por cima das outras. E Rebordão aos cacos, com a alma partida ao meio. Parou diante do espelho e voltou a dizer:

Chega tarde.

Pegou a carta e foi olhar a rua. Chovia uma chuvinha triste, em jeito de adeus. Pela janela da Pensão Santa Rita, Rebordão viu passar, ao abrigo do guarda-chuva, aquela geleia contida em suas tremuras pelas calças justas de uma menina bonita, uma certa Lúcia Teresa que morava na esquina. E Rebordão para Rebordão:

Passa tarde, já fora de hora.

Amassou a carta, jogou seus dizeres no lixo e largou no papel esta resposta para o doutor de Lisboa:

Lamento informar V.S.a que o amanuense Rebordão Castanheira faleceu há vinte anos. O que restou dele foi um Rebordão em cacos, sem preparo para arcar com tanta herança junta.

Datou e assinou. E voltou para a janela da pensão Santa Rita de modo a olhar a chuva que caía triste como um amor perdido.

PS: esse primor depressivo foi publicado no livro Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon e deveria ter aparecido aqui no blogue mais cedo. Adiei no entanto essa tarefa porque não encontrei nenhuma versão desse conto-causo pela internet e tive que reescrever o texto a partir de meu livro da Editora José Olympio (2008). Parece que o autor anda meio em baixa e pouca gente tem discutido suas obras por aí. Apesar disso, José Cândido é um autor magnífico e sua literatura está mais ou menos entre José Lins do Rego e Guimarães Rosa. Soube que O coronel e o lobisomem até ganhou um filme (com a musa Ana Paula Arósio!), então torçamos para eu e o cinema nacional consigamos restaurar sua popularidade.

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3 pensamentos sobre “Tarde demais e Inês é morta — José Cândido de Carvalho

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