Uma aporia sobre a crise venezuelana

Até a crise venezuelana ficar tão grave quanto está eu conservei certa ilusão com relação aos stalinistas brasileiros, crendo que esses tipos que comemoram a revolução Russa e tecem elogios ao comunismo soviético estariam tomados por sentimentos infantis e pela ignorância. Eu os associava a aquelas pessoas que dizem que a ditadura aconteceu para nos “salvar dos comunistas”: simples resquícios de um passado encardido. Além disso, também acreditei que se eles lessem trabalhos sérios sobre o período, agora que tanto tempo nos separa dele e que há tanto material a seu respeito, amadureceriam e abandonariam essas besteiras. Notariam enfim que estavam apenas comprando imagens historicamente datadas — “perdoa-os, pai, pois são meio idiotas”.

1280px-flag_of_venezuela_(1863–1905).svg

Mas ambas as crenças foram se despedaçando conforme percebi que, aos seus olhos, defender ou até mesmo dar notícia daqueles que sofrem, têm fome e são violentados, se transformou numa espécie de “ato contra revolucionário”. No seu entender, o sofrimento alheio seria aceitável por produzir certo horizonte transformador diante do qual toda barbárie estaria justificada. Quem a divulga estaria agindo ativamente contra tal fim. 

Sendo assim, por mais que não faltem informações a respeito da crise venezuelana (para quem está interessado em se informar, claro) e não possamos dizer que alguém atualmente ignore o que acontece lá, tais informações não fazem diferença alguma para as posições políticas dessas pessoas.

Se eu achava que os stalinistas poderiam se informar e abandonar seus credos bestas, quando comecei a reparar no seu comportamento em relação à politica atual, percebi que não era bem assim. Ainda que informados a respeito dessa violência toda, essas pessoas continuam defendendo as autoridades e os ideias que as justificam, mais ou menos como aquelas mulheres que mandavam cartas de amor para o bandido da luz vermelha — elas sabiam, não sabiam?

tumblr_mdnbm2shmK1rb3qj0o1_1280

Por sinal, estamos numa situação semelhante no Brasil: durante mais de uma década chutando índios, expulsando gente de suas terras para construir monumentos à corrupção, usando o exército contra a população, reprimindo quem se manifesta, rindo de suas revindicações, entre muitas outras coisas. Mas os mitos políticos não só lhes sobrevivem como também prosperam. E, atualmente, aquele que faz o gesto milenar de questioná-los é quem tem que se explicar — não são mais a miséria ou a violência que pedem explicações, não são a corrupção, o dogmatismo ou a política que se deve enfrentar, porém aqueles que se levantam contra tais coisas. Por que eles as criticam? Por que não as aceitam? Onde está a gratidão? Não sabem que é para o seu próprio bem?

Consideradas essas razões, penso que seja hoje, amanhã ou mesmo no tempo de Stalin, as pessoas sabem e ainda assim são como são. Logo, não pode ser simplesmente ignorância, deve existir algo mais que faça com que, a despeito do protesto da experiência, as pessoas mantenham suas interpretações fanáticas do mundo, com que o sofrimento alheio não pese em nenhum momento de seus julgamentos e com que nunca tenham dúvidas que possam comprometer seus próprias crenças. 

O que é isso eu confesso que não sei, no entanto, creio que, seja lá o que for essa coisa, nunca fomos (e nem parece que sejamos) capazes de nos livrar dela.

PS: escrevi esse texto no ano passado pensando especificamente na imigração de venezuelanos para o Brasil. Infelizmente, ele está sendo atualizado pelas tragédias recentes, por isso, achei que valia a pena publicá-lo aqui. 

Anúncios

Ouse dizer o que pensa

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s