Algumas palavras sobre Filosofia para corajosos, de Luis Felipe Pondé

Quando comprei esse livro num sebo aqui na cidade, eu esperava ler algo que fosse leve sem deixar de ser rigoroso. Minha expectativa não era descabida, afinal, eu já tinha lido várias obras assim, como alguns livros do Bertrand Russell, os livros da coleção O prazer de pensar, da coleção Passo-a-passo, entre outros. Mas Filosofia para corajosos não só frustrou minha expectativa como também se mostrou um livro genuinamente ruim, cheio de leveza porém sem nenhum rigor filosófico.

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Embora tenha escrito a obra como uma espécie de iniciação filosófica para que o leitor passasse a “pensar com a própria cabeça”, Pondé apresenta poucos (e pobres) argumentos para defender suas ideias, acabando por produzir uma obra que, em vez de propor reflexões, apenas faz apologias de suas crenças.

Um intelectual iniciante que confundisse apologia com reflexão poderia ser apenhas criticado, contudo, Pondé tem uma trajetória acadêmica longa e não é nenhum iniciante. Ele sabe muito bem que produziu uma obra apologética. Sendo assim, seu livro não padece de um erro originário que mereça uma crítica, mas de uma sacanagem originária a qual cumpre denunciar, pois seu autor não há de se emendar.

No senso comum, pensar com a própria cabeça significa algo como “possuir ideias originais”, “não ser obrigado a seguir os pensamentos alheios”, “ser alguém crítico” ou coisa assim. Quando analisamos a possibilidade de ensinar essa prática, porém, nos deparamos com um problema: se você foi ensinado por outro a pensar por si mesmo, então não está pensando por si mesmo, mas pelo que te foi ensinado. Pode parecer confuso, porém é um problema bastante real: como saber se não estamos sendo induzidos a certas conclusões, certos modos de pensar que somente parecem autônomos? Como diferenciar pensamento livre de doutrinação?

Ao retomar esse belíssimo tema em seu livro, o autor deveria lidar com as dificuldades implicadas nele, contudo, não é o que ocorre. Até suas boas reflexões se sustentam em argumentos pífios, sendo que, na maioria das vezes, elas nem mesmo se sustentam. Além disso, se são notáveis os pensadores que ele leu, são ainda mais aqueles autores que ele não leu e critica — ou simplesmente xinga — sem nenhum fundamento (como os modernos e seus sucessores contemporâneos).

Mas se o adversário pode ser desconsiderado com um simples xingamento, por que não desconsiderar Pondé da mesma forma?

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Seja quando defende seu próprio ponto de vista ou quando critica o ponto de vista alheio, o autor abre mão de qualquer rigor filosófico e discursa de forma rasa, fingindo ser uma pessoa franca que “meramente” denuncia a ideologia alheia. Particularmente, me espanta que alguém que tenha uma carreira acadêmica publique uma coisa desse nível, entretanto, é claro que Filosofia para corajosos não foi escrito para acadêmicos, tampouco para leigos bem informados; a obra existe para suprir o desejo do público de jornal de acompanhar as aventuras do personagem inventado pelo autor.

Todos esses anos de publicidade em colunas de jornal e programas de televisão podem até ter feito bem para a vida do indivíduo Luis Felipe Pondé, porém mirraram o filósofo que existia nele, que se tornou incapaz de transgredir — seja nos temas ou na profundidade — o personagem que consagrou diante de seu público.

Caso seus tiques, manias e falas enviesadas não nos agradem, ou caso procuremos em seu texto pelo intelectual que supostamente existiria por detrás do personagem, nada encontraremos, pois ele não só ficou fora do livro como também não está mais em lugar algum. Sobrou apenas um indivíduo previsível e intelectualmente amansado, cativo da platéia que ele um dia cativou e que precisa representar uma mesma performance para manter sua clientela de conservadores iletrados.

Acho que desde que li Os filósofos, de Herculano Pires, eu não sentia o dever de fazer um julgamento tão duro aqui a respeito de um livro: Filosofia para corajosos é uma obra desprezível que mancha nosso mercado de livros. Trata-se de um produto abjeto que só funcionará com aqueles que já foram convencidos previamente pelo autor e não colocarão suas palavras sob suspeita. E mesmo essas pessoas merecem mais.

Pensar com a própria cabeça é inevitável, cada um só tem a sua, mas pensar por si mesmo é algo a ser conquistado — como? Provavelmente existem tantos meios quanto cabeças, mas duvido que qualquer um deles passe pela leitura desse livro.

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6 pensamentos sobre “Algumas palavras sobre Filosofia para corajosos, de Luis Felipe Pondé

    • Entre os textos que ele publica na internet há coisas muito boas. Particularmente, lembro de um texto sobre fascismo e outro sobre como o Papa enxerga o mundo que são sublimes; talvez eu os replique aqui. Lembro também que ele fez ótimos textos sobre as manifestações de 2013, os melhores que li na época.

      Já os livros dele eu li um só sobre filosofia grega e não curti não, achei pouco informativo e um tanto anacrônico, mas não consigo me lembrar do nome.

      Acho que a grande virtude do Ghiraldelli é ser bom em reconstruir pontos de vistas diferentes do seu, algo que ele deriva de seus estudos do pragmatismo. Ele é muito bom nisso e essa virtude de levar o outro em consideração é algo raro.

      Agora, ele tem uma personalidade bem forte que o faz ser um cara meio chato, meio sem tato por vezes, que trata as pessoas com desrespeito, o que me repele.

      • O Ghiraldelli é um tipo de Gabriel Chalita de esquerda, no sentido da quantidade de livros. De fato tem umas observações pertinentes, outras nem tanto, porém sempre acompanhadas por esse destempero que você menciona, principalmente quando alguém discorda (mesmo com educação). Faz tempo que não leio alguma coisa dele ou vejo algum vídeo. Pelo menos tinha o mérito de responder quando indagado no seu blog e em outros canais. Coisa que o Pondé não faz. Minto: assisti um vídeo dele de algumas semanas em que tece considerações sobre mudanças na política de saúde mental do governo Bolsonaro. Pareceu-me algo requentado só para firmar que é “da resistência”: fala sobre aplicação do “eletrochoque” (mais precisamente Eletroconvulsoterapia) a torto e direito, sem os devidos critérios, internações em massa, gente sendo entupida de remédios… Não que inexista abusos. Eu, que faço acompanhamento psiquiátrico e psicológico, tomo antidepressivo, considero meio demagógico estes posicionamentos, movidos mais por voluntarismo político, sem maior contato com a complexidade das situações do sofrimento psíquico… Lembro de um comentário dele, sobre Paulo Freire, num livro sobre História da Educação de meados da década de 1990, considerando um autor mais panfletário do que consistente. Anos depois virou um super entusiasta do autor da “Pedagogia do Oprimido”, obviamente tachando de “reacionários” quem diverge do grande mestre.

  1. Aprecio uma ou outra ideia do Pondé; mas existe certa overdose de lançamentos desses autores mais midiáticos. Algo parecido ocorreu com a obra do Zygmunt Bauman, bastante prolífico, embora com maior densidade do que nossos autores, já que lá fora existem décadas e décadas de tradição em bons livros de divulgação (não que inexista mediocridades). Além de seu talento, imagino que burilado em anos e anos de sala de aula, pesquisas e conferências. O sociólogo polonês pode ser repetitivo, mas não trivial. Pelo menos no que li dele. Os nossos – Pondé, Cortella e Karnal, notadamente – tem que concorrer com material anglo-saxão e francês, principalmente, e com a famigerada autoajuda, nacional e importada. Daí a necessidade de equilibrar leveza textual e conteúdo consistente – o equilíbrio é fragilíssimo e não raro saem obras desconjuntadas como a que você resenhou. Voltando ao Pondé, admiro (ainda) certo tom provocativo do filósofo, em particular quando fustiga certos dogmas de certa esquerda e exageros do pós-modernismo e do politicamente correto. Todavia, seu personagem mais ranheta mostra sinais de esgotamento, creio eu devido à extrema exposição pública, da coluna da Folha aos vídeos no YouTube, e a repetitividade dos temas: quase tudo parece culpa das feministas e dos ambientalistas, e, o que acho lamentável, daqueles que tencionam reduzir as desigualdades e violências cotidianas em nosso Brasil, por exemplo… De certa forma, lembra um Olavo de Carvalho mais palatável, e realmente versado em Filosofia. Resta saber se o Pondé filósofo prevalece sobre a persona mais caricatural…

    • Eu concordo com você.

      O que me irrita mais que tudo no Pondé é pensar que ele tinha a faca e o garfo nas mãos para ser um bom autor conservador que elevaria o nível do debate público, no entanto, ele não só escolheu adversários baixos na esquerda como nunca saiu do registro mais rasteiro do debate. Ele poderia ler um Foucault e criticá-lo, ler um autor como Marx e mesmo assim não ser nem um pouco marxista, são coisas perfeitamente naturais. Bastaria estudar a fundo esses autores e seus adversários, mas o Pondé nunca esteve disposto a isso e, por ficar na superficialidade das coisas, acaba se juntando com a turma que não sabe de nada mesmo e gosta de quem zomba dessas figuras porque são imbecis.

      Há um vácuo no conservadorismo brasileiro que é ocupado por imbecis e charlatões, sendo que o Pondé poderia ter brilhado aí como um autor honesto e rigoroso dessa posição político-filosófica. Eu adoraria acompanhar um autor assim e nem sou conservador. Mas ele acabou virando somente um vendedor de livros toscos. É o que me dá raiva dele.

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