A distimia pela perspectiva de quem a sofre

1. Depois de fazer algumas pesquisas na internet, descobri que existiam vários bons textos (e vídeos) explicando pelo prisma medicinal o que viria a ser essa doença conhecida como distimia; contudo, descobri também que existiam poucos textos que a apresentassem pelo prisma de quem a sofre. Pensando nisso, decidi tecer um texto que ficasse de referência para quem pesquisasse o assunto no futuro, é o que segue.

Cebola

2. Bem, mas o que seria a distimia? Trata-se de um subtipo da depressão que causa tristeza crônica, apatia, anedonia, irritabilidade, entre outros sintomas. Porém, em vez de debilitar o paciente até impedir que ele siga com seu cotidiano, tal qual uma depressão “clássica” faria, a distimia age com vagar — uma camada de poeira que vai se sobrepondo às coisas e as recobrindo lentamente. Em muitos casos, inclusive, o paciente acaba construindo sua personalidade a partir da doença antes mesmo de descobrir que a possui. Com isso, seu pessimismo, seu desinteresse pelas coisas e sua dificuldade de realizar atividades comuns (como levantar da cama ou comer) lhe parecerão algo de seu caráter e não o resultado de uma doença.

Particularmente, sinto a distimia como uma espécie de pesar que acompanha meus atos, um fardo invisível que os torna não só penosos de realizar, como também extremamente exaustivos. Como agir é custoso, convém pensar bem antes de fazer qualquer coisa, procrastinar tanto quanto possível e evitar atividades cansativas (como o contato humano), o que favorece o isolamento e o abandono de projetos pelo caminho. Apesar disso, sou uma pessoa bastante ativa, forçosamente ativa: toco teclado numa banda de rock, dou aulas de filosofia no ensino médio, corro todos os dias, concluí meu mestrado recentemente, escrevo sempre sobre temas de meu interesse, namorei muitos anos, enfim, sei vestir minha fantasia de humano. Mas agir vem com sempre com um grande pesar e preciso criar cotidianamente estratégias que me obriguem a interagir com pessoas, fugir das ideias suicidas e tendências paralisantes.

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3. Suspeito padecer dessa doença desde os onze anos (tenho trinta), porém passei por diversos diagnósticos dentro do universo da depressão antes de ser diagnosticado como distímico. Culpa minha: eu abandonava o tratamento sempre que alcançava alguma estabilidade psicológica, acreditado que seria capaz de conseguir sozinho a partir dali. O que se sucedia dessa decisão, entretanto, era um retorno lento e gradativo aos males da doença, junto com a sensação de que eu estava fracassando e precisava me esforçar mais da próxima vez, fazendo o dobro, o triplo para conseguir. Provavelmente, se eu tivesse mudado esse pensamento mais cedo, teria recebido um diagnóstico adequado mais cedo também.

Minha circunstância só passou a mudar quando aceitei uma ideia a qual sempre fui infenso: que eu não era capaz de conseguir sozinho. Enquanto acreditei poder vencer meus fantasmas por mim mesmo, não investi seriamente na minha melhora e não lhe dediquei um lugar específico em minha vida. Por muitos anos, estive em situações as quais pude contar somente com minha própria força e foi me pensando como alguém independente que consegui prosperar. Por isso, reconhecer os limites de minha capacidade envolvia destruir (ou reformular) minha autoimagem e encontrar um novo modo de viver.

Decidi enfrentar minha circunstância de outro modo, um que não repetisse minhas tentativas anteriores. Estar certo deixou de ser importante, de modo que eu até poderia não concordar com as prescrições da psicologia e da psiquiatria, ou achar que os alardes de meus amigos eram incorretos, no entanto, ainda assim decidi escutá-los e tentar perceber as coisas de outra forma. Eu apenas queria viver dignamente e pouco importava aquilo não me propiciasse isso, inclusive os hábitos e pensamentos construídos ao longo dos anos. Embora fosse trabalhoso, abandonar um ponto de vista ou costume não seria mais algo o qual eu me recusaria a fazer. O que fosse necessário para melhorar eu faria. E melhorei.

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4. Assim como vários distímicos, construí minha personalidade a partir da doença e jamais experimentei o que seria não ter depressão, aliás, essa tem sido a maior diferença entre eu outras pessoas com transtornos mentais com quem já me encontrei: enquanto elas sabiam quem eram e lamentavam que suas crises as fizessem sair de si, eu sempre estive em crise e fui surpreendido pela possibilidade de sair delas. Até certa época, “a distimia era eu” e não seria possível viver sem esse sofrimento, contudo, aos poucos a doença deixou de se confundir comigo e se tornou “algo que tenho” e do qual poderia me desfazer. Passei a imaginar como seria minha vida livre disso e, durante algum tempo, até tive esperança de que existisse um “eu para além da doença”, o que descobri depois ser um equívoco, visto que a distimia fez parte de minha formação e integra portanto aquilo que sou.

Em função disso, a melhora que persigo não envolve retomar a saúde ou encontrar uma personalidade perdida em meio as crises, uma vez que nenhuma dessas coisas jamais existiu, mas construir algo novo a partir de uma personalidade formada junto à doença — não há cura, purgação ou restauração para mim; apenas emenda, transformação, redirecionamento… Mas o que isso significa exatamente?

Faz cerca de um ano e meio que decidi mudar meu modo de enfrentar minha circunstância, todavia, embora eu tenha melhorado bastante, continua sendo fácil desistir. Os sentimentos construídos a partir da distimia são poderosos e suscitam hábitos que sobrevivem mesmo ao desaparecimento desses sentimentos — os monstros podem ir embora, mas demora um bom tempo até que se possa olhar debaixo da cama sem medo.

Supondo que eu continue a melhorar até preponderar sobre a doença, restará então determinar quem sou, quer dizer, sem a tutela da distimia, sem o domínio de um transtorno, o que sobra? O que serei doravante?

Provavelmente, algo de quem fui até aqui e algo daquilo que me esforcei — em minha luta solitária — para ser. Com todo o peso e beleza que isso abarca.

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