Breve comentário sobre o livro de Mary Del Priore

Confesso que abandonei duas vezes o livro de Mary Del Priore antes de conseguir terminá-lo. Do outro lado A História do sobrenatural e do espiritismo possui um prefácio terrivelmente mal escrito que me fez crer que o restante do livro seria igualmente ruim. Na terceira vez em que me confrontei com aquele texto desagradável, porém, consegui forças para continuar avançando. Para a minha sorte, o problema do prefácio parece ser alguma sobra de uma revisão mal feita, pois o restante do livro flui com facilidade.

Apesar disso, tive uma experiência morna com a obra, sobretudo porque algumas posições teóricas da autora limitaram meu interesse e atrapalharam minha fruição. Por isso, em vez de resenhar o livro aqui, tentarei detalhar neste texto minhas críticas em relação ao texto de Del Priore.

Texto versus ilustrações: como A História do sobrenatural e do espiritismo aborda diversas personalidades e práticas coletivas (as sessões de mesas girantes, por exemplo) a autora tem muito o que mostrar visualmente. Aliás, as ilustrações contidas no livro são muito interessantes, pois desvelam o imaginário de uma época e apresentam todo um universo próprio, contudo, elas estão apresentadas numa sessão à parte do livro e precisam ser vistas em um momento póstumo à leitura, perdendo sua interlocução com o texto. É preciso ler as ilustrações e depois tentar retomar os textos que as esclarecem, ou ler o texto e tentar adivinhar quais ilustrações são referentes a quais excertos, num entendiante movimento de ida e volta que só atrapalha a fruição do livro.

Muitos detalhes; pouco rigor: ainda que o livro de Del Priore seja bastante informativo e traga muitos dados interessantes, ele também é um bocado frouxo e transmite a impressão de falta de rigor e cuidado, pois suas informações são frequentemente ambíguas e precisariam de um esclarecimento conceitual mais rigoroso que a autora não faz. Talvez sequer perceba a necessidade de fazer; não sei dizer. 

Cito um exemplo: “Os dogmas principais do espiritismo eram a “reencarnação” e a “pluralidade de mundos” […]” (p.55). 51rtRHZ27uLPara começar, é comum que espíritas impliquem com a palavra “dogma” quando aplicada à sua religião, pois tal palavra indicaria aquelas normas indiscutíveis contidas nas religiões. Supostamente, o espiritismo não teria quaisquer normas desse tipo, consequentemente, o leitor que ler a obra com os olhos de um espírita terá motivos para negar o que a historiadora diz. Penso porém que é possível defendê-la nesse caso, bastando interpretarmos que a palavra dogma de uma maneira menos pejorativa, como um termo que designa as teses fundamentais de uma doutrina sem as quais ela não existe. Sinceramente, acho que é a isso que Del Priore está se referendo, inclusive, concordo com ela a esse respeito. Não só não há espiritismo sem a crença na “reencarnação” e na “pluralidade de mundos”, como também seria preciso engordar bastante essa lista acrescentando aí a existência dos fenômenos mediúnicos, dos espíritos, etc. A lista é enorme, na verdade. Penso que a historiadora mencionou apenas dois dogmas porque pretendia tratar especificamente deles logo mais, contudo, mesmo que façamos esse trabalho de entender a posição da autora e defendê-la de uma leitura enviesada, seu texto poderia dispensar o leitor disso ao apresentar os elementos que anulariam essa leitura. Uma nota de rodapé na palavra dogma, explicando o que autora entende por dogma e o que seriam dogmas no espiritismo faz falta nesse excerto, por exemplo. Imprecisões ou ausências como essa estão por todo o livro, facilitando leituras ruins, má compreensões ou simplesmente limitando o livro em pontos nos quais ele poderia orientar melhor o leitor.

Lembro de uma colega de graduação que tinha um sério problema de escrita: seus textos eram desenrolares descritivos, quer dizer, eles meramente relatavam aquilo que ela tinha visto ou lido na exata ordem em que as coisas tivessem se apresentado. Minha colega era incapaz de colocar aos fatos qualquer questão; apenas os repetia sem perceber que eles não eram tácitos e estavam impregnados de ideologias, sendo preciso lidar com tais coisas para apresentá-los num texto crítico. Retomo essa lembrança porque o livro de Mary Del Priore se parece com os textos de minha colega, não colocando questões nem para si, nem para o leitor, e avançando pela apresentação de fatos sucedidos de fatos, personagens sucedidos por outros personagens, que não necessariamente confluem para uma interpretação do assunto; somente para sua exposição. A autora parece jamais ter tido questões sobre o tema, ela apenas o aprendeu.

A narrativa sobre a história: creio que a origem de meus incômodos com a obra seja o fato da autora sempre preferir a narrativa em vez do trabalho investigativo rigoroso. Seu livro faz uma exposição geral da história da espiritualidade no Brasil, entretanto, evita discutir minúcias de quaisquer tipos, inclusive quando trata do espiritismo. Del Priore pouco aborda questões controversas a respeito da história dessa religião, o que acaba dando um tom um tanto “oficialesco” ao livro, como se a autora evitasse desagradar os adeptos desse credo. Tudo soa plácido, confortável demais, e somos pouco informados acerca dos conflitos internos do espiritismo, suas linhas concorrentes, as conhecidas fraudes em que alguns de seus membros se meteram e coisas assim. A história do sobrenatural e do espiritismo está muito abaixo de um trabalho como O babuíno de madame Blavatsky, por exemplo, que vai fundo no processo tortuoso de consolidação de uma religião.

despeito da quantidade de informações que a autora apresenta, seu texto suscita dúvidas se ela sabe mesmo a extensão daquilo com que está lidando ou se decidiu propositalmente ficar na superfície do assunto para priorizar a divulgação científica. A investigação sobre as bases teóricas do espiritismo não vai muito além do óbvio sobre Mesmer e Pestalozzi, por exemplo, o que me fez lembrar da última vez em que li um texto de Kardec e era apresentada, de uma maneira não muito sofisticada, alguma prova da existência de deus a partir da noção de causa e efeito. Era um eco de Tomás de Aquino, sem dúvidas. Kardec nitidamente sabia “por ouvir dizer” algo das clássicas provas da existência de deus, mas de forma rudimentar, sem o requinte que elas possuem nas obras dos filósofos medievais. Diante disso, é possível colocar questões do tipo: quais seriam as leituras de Kardek? Um bom estudo sobre o espiritismo poderia esclarecer questões como essa que, pelo que sei, seguem em aberto, embora possam ser notadas por qualquer leitor com algum conhecimento da história do pensamento científico e filosófico ocidental. Quando abri o livro de Del Priore, imaginei que essas questões fossem ao menos mencionadas nele, que a autora fosse ao menos abrir caminhos para o leitor trilhar por si mesmo segundo seu interesse, todavia, a historiadora dificilmente se desvia daquilo que é amplamente conhecido a respeito do espiritismo e promove poucas reflexões dentro dos temas tradicionais. Por conta disso, não me causou espanto que o último capítulo de seu livro, a conclusão, fosse tão curto mirrado, com corolários de pouca penetração.

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6 pensamentos sobre “Breve comentário sobre o livro de Mary Del Priore

  1. Voltando um pouco ao assunto, após alguns meses: dei uma olhada no “O babuíno de madame Blavatsky”. Interessante, lembrei que os seguidores mais fieis de Kardec (seus contemporâneos e os de hoje, aqui no Brasil) atribuem justamente à influência da Teosofia de Blavatsky e outras correntes espiritualistas o declínio do Espiritismo na França, e de certa forma na Europa, ou seja sua perda de credibilidade. Quando Allan Kardec morreu, sua revista mudou de linha editorial, agregando contribuições dos teosofistas e companhia, perdendo as características do pensamento do codificador, com pretensões mais científicas e filosóficas, mesmo revolucionárias, no entender de alguns… Há um pesquisador espírita brasileiro chamado Paulo Henrique de Figueiredo, que vasculhou arquivos franceses e encontrou outros aspectos da biografia de Kardec, escrevendo livros a respeito. Fala de um Espiritualismo mais filosófico que prosperava na academias francesas nas primeiras décadas do XIX, coetâneo ao positivismo comteano. Kardec, na época Leon H. D. Rivaill foi influenciado por este pensamento. Depois veio a hegemonia do cientificismo e “materialismo”, abortando esse pensamento. Paulo Henrique tem um programa radiofônico e vídeos no YouTube onde aborda o assunto, de onde tirei essas informações. Como não sou filósofo, gostaria de saber se você conhece algo a respeito deste “Espiritualismo” – o termo é amplo e engloba muitas coisas. Ou o Paulo Henrique estaria viajando um pouco na maionese… Sei que os espíritas tem a mania de qualificar de “materialismo” tudo aquilo que vai contra suas concepções. Pessoalmente, acho muito forte a influência de Comte sobre Kardec, embora possa não ser a única.

    • Eu não conhecia essa leitura sobre o espiritismo declinar por conta da teosofia, mas tendo a não concordar com ela, afinal, o espiritismo era tão moda quanto a teosofia; ambos só teriam a preferência do grande público por pouco tempo. Inclusive, não estou sendo nada original ao dizer isso: essa é a leitura do Machado de Assis.

      Agora, sobre a outra questão, lembro que o Conan Doyle tinha uma “História do espiritualismo” que, salvo engano, tomava o termo espiritualismo nessa acepção ampla de “religiões ou teorias que admitem a existência ou influência algum espírito”. O fato é que o século dezoito é farto de novas religiões e de tentativas de, fora das instituições tradicionais, conciliar as novidades de seu período com as velhas crenças.

      Claro que no fundo disso existem cientistas e filósofos fazendo uma discussão sofisticada (e em boa parte materialista), entretanto, ela vai chegar aos populares e aos intelectuais medianos de forma mais vulgarizada. Nesse sentido, o Kardec tem uma parte puramente filosófica sim (desculpe, não lembro o livro), porém ela é… simplória, quer dizer, ele nitidamente conhecia algo do debate mais sofisticado, mas não era nenhum pensador de primeira linha, apenas um sujeito mediano que acabou assimilando as tendências de seu período.

      Lembro que o Foucault dizia que o melhor para entender uma época não era tanto ler os gênios, ou seja, o Diderot, o Baudelaire, o Rousseau, mas o sujeito medíocre, um Kardec da vida. Por isso, eu acho que o Kardec é um espelho muito bom da própria época, é o meu maior interesse nele.

      • Vejo “declinar” no sentido que ficou como mais uma doutrina religiosa entre outras (ainda que espíritas façam referência ao famoso “tripé” – ciência, filosofia e religião – o que predomina é esta parte devocional; e não atingiu o mainstream acadêmico francês e europeu de um modo geral nos campos das ciências naturais e sociais, e claro, a filosofia. Se foi por culpa da associação com os teosofistas e outros ou por inconsistências da doutrina em si, fica como tema a ser pesquisado.

        Quanto a Kardec, vale lembrar que foi discípulo de J.H. Pestalozzi, pedagogista suíço de renome. Antes de se tornar o codificador da doutrina, ele foi um pedagogo que publicou trabalhos na área da matemática e questões educacionais em geral.

        De fato, Allan Kardec é um belo espécime para se compreender os dilemas das primeiras décadas do século XIX. Em especial, a tentativa de cientificizar o sagrado, tornando-o totalmente explicável, lógico, racional, mensurável… Tive um professor de metodologia da história na FFLCH, que, na primeira aula, ao mencionar o cientificismo deste século, pronunciou mais ou menos o seguinte: “O século XIX foi um tempo tão obcecado pela ciência, que houve um maluco chamado Allan Kardec que tentou estudar cientificamente a comunicação com os mortos… ” [logo depois falou que respeitava todas as crenças, para não ferir suscetibilidades , eheheheh].

        Há também, a parte social, relações entre patrões e operários, condição da mulher, além de certas idiossincrasias raciais típicas da época. Outra coisa, ele encampava a ideia de que se pode reformar a sociedade através da educação, com destacado acento na questão moral. Desse modo, evitariam-se conflitos sociais mais agudos. Era um reformista, com certa proximidade com os socialistas utópicos. Tanto que, há um livro espírita recente (não lembro o autor) cujo título é “Fora da educação não há salvação”…

        PS: Posso compartilhar seu texto sobre a situação da Venezuela no meu facebook?

        • Fico pensando que, embora esteja mesmo lá, a ciência contida no espiritismo nunca cumpriu os requisitos do método científico. As teses científicas da codificação não estão sujeitas à revisão ou à construção coletiva, tal como estão as hipóteses científicas, sendo que a ciência posta ali é apenas a opinião de Kardec sobre temas científicos. Por isso, acho um tanto natural que ela tenha pouco apelo e que ela seja substituída pela parte doutrinária e moral.

          Ah, sobre o texto da Venezuela, pode compartilhar sim, os textos aqui são todos abertos, fique a vontade.

  2. Alguns questionamentos aqui expostos passaram por minha cabeça quando li este livro. De fato, a iconografia poderia ser melhor trabalhada em contraste com as fontes; doutrinas e conceitos são apresentados de forma ligeira, sem aprofundamento. Quanto ao fato de ser uma narrativa, talvez seja uma escolha da autora em comum acordo com a editora, pois, com alguma boa vontade, parece um texto dedicado ao grande público, sem o aparato acadêmico, embora a bibliografia especializada e fontes primárias estejam bem organizadas para quem desejar se aprofundar mais tarde. Como é sabido, a temática do espiritualismo (sendo o espiritismo uma vertente deste) é bastante popular e atraente ao leitor brasileiro (em que pese o crescimento da literatura cristã de matriz reformada e pentecostal, desde a autoajuda até escritos teológicos mais densos) e rentável ao meio editorial. Na minha opinião, Mary Del Priore é uma historiadora mais clássica, no sentido anglo-saxão; ou seja: procura reunir um grande aparato documental, escrito e iconográfico, e é mais comedida no recurso ao instrumental analítico das ciências sociais, quando da interpretação das fontes. Talvez explique sua estranheza com relação ao livro. Senti falta de uma problematização mais ampla, o que tornaria o livro maior e quiçá perdesse seu intuito de divulgação amena. Mas, como escrevi acima, a historiadora preferiu ser mais cronista do que apresentar um texto mais profundo. Fica sempre a velha questão do historiador brasileiro (e também filósofo, sociólogo, antropólogo, cientista político): ele consegue escrever para um público não acadêmico sem perder a densidade e ao mesmo tempo ser elegantemente acessível? Por que nossa divulgação científica não tem sempre a mesma qualidade da francesa e anglo-saxônica? Por falar em espiritismo, não sei se você conhece o Movimento Universitário Espírita (Religião e Política no Espiritismo Brasileiro, 1967-1974) de Sinuê Neckel Miguel, que foi mais ousado que Mary Del Priore no aspecto analítico – e mesmo polêmico – , embora tenha um caráter mais monográfico.

    • Para falar a verdade, eu tenho pouco conhecimento de correntes historiográficas, então não sei enquadrar a Mary Del Priore dentro de qualquer corrente ou estilo. O único modelo que eu tenho na cabeça sobre escrever história, que acho que foi o historiador que eu mais li, é o Le Goff. Mas minha leitura é leiga mesmo. O que tento fazer é tentar capturar um pouco a lógica do texto e ver até que ponto ela funciona.

      Eu até tinha pensado sobre as questões mercadológicas que você levanta, tanto sobre o teor analítico do livro quanto sobre o tom que a autora emprega, mas confesso que eu não sei bem o que concluir. Em parte, acho que o livro está bem escrito e funciona bem em relação ao que pretende, em parte, tenho a impressão que ele não faz falta na vida de ninguém. Não sei mesmo.

      Aqui comigo tenho o “Espiritismo à brasileira”, da Sandra Jacqueline Stoll, que ainda não li, e já tinha lido “O babuíno de madame Blavatsky”, do Peter Washington, que é excelente, mas quase não trata de espiritismo; eu não conhecia a obra que você citou. Meu interesse no espiritismo vai um pouco na linha das teses do Weber sobre o desencantamento do mundo. Eu acho muito interessante como o espiritismo, junto com um monte de outras religiões, quer pegar noções científicas para racionalizar o fenômeno religioso, mas ao mesmo tempo não tem uma relação muito profunda com a filosofia, nem com a ciência. É uma religião que é quase que um espelho da própria época.

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