Junho de 2013 e minha circunstância (Parte II de II)

Este texto é dedicado ao meu amigo Mailson Cabral

(Leia a primeira parte aqui)

1. Somente depois de passar anos no desemprego e no subemprego consegui entrar na universidade pública. Era o auge do governo Lula e eu estava colhendo o melhor da expansão do ensino superior e da melhoria dos indicadores sociais ocorrentes naquele tempo. Muitos daqueles que entraram comigo sentiam o mesmo e foram os primeiros de suas famílias a chegar à universidade e à universidade pública, tendo certo otimismo a respeito do futuro. Entre nós era comum a preferência pelo PT como partido representante dos avanços sociais recentes, sendo que por mais que o confrontamento político fizesse parte de nossa trajetória, renegar essa governo era algo que não esteve em questão por muito tempo (1).

29791226_1768030393259226_1215721495662402892_nApesar disso, logo que entrei nesse novo mundo, comecei a perceber seus problemas.

Para começar, bem como a maioria dos alunos, eu carregava muitas lacunas formativas as quais atrapalhavam meu desempenho no curso e quase não existiam iniciativas por parte da universidade que lidassem com isso. Por mais que conseguisse “passar de ano” e seguir para as etapas seguintes da graduação, sentia que isso não fazia qualquer sentido ali e que eu estava abaixo do que a Filosofia realmente tinha para oferecer. Com isso, vivenciei um longo percurso de acúmulo de frustrações e pequenos desconfortos que minaram minha autoestima e afunilaram minha perspectiva com o tempo, fazendo com que eu concebesse possibilidades cada vez mais estreitas para o meu futuro. Por sinal, demorei ainda mais para notar o volume de colegas que — desorientados — desistiam do curso, da universidade (ou até da vida) por sentimentos semelhantes aos meus.

Problemas de ordem material também nos afligiam seriamente e nossa permanência na universidade estava ameaçada pela precariedade da instituição, pelas bolsas irrisórias oferecidas por ela e pela falta de moradia estudantil. Malgrado os cortes mais severos contra a educação fossem ocorrer apenas com o segundo governo Dilma (2), no auge da expansão universitária federal (REUNI) as coisas já desmoronavam. A exemplo disso, nosso campus em Santos oferecia a graduação em Educação Física sem sequer ter uma quadra poliesportiva (3), e seu prédio era tão precário que os alunos ficaram semanas sem aulas quando uma chuva fez desabar um forro de teto e deixou o lugar alagado (4). De igual modo, no campus Diadema não existiam salas de aula para abrigar todas as turmas, nem recursos para os laboratórios; ao passo que no campus Guarulhos não existiam salas suficientes, bandejão, espaço para o acervo da biblioteca, entre muitas outras coisas. Por sinal, vigorava um descontentamento geral a esse respeito e, com certa recorrência, ouvíamos boatos sobre a possibilidade de se transportar nosso campus para alguma região “mais acessível” (central), deixando a periferia aos periféricos. Para piorar, em 2012, em meu próprio campus, um dossiê (5) encabeçado pelo departamento de Filosofia chamava os alunos de “semialfabetizados”, acirrando os ânimos e nos empurrando para a manifestação política como um caminho natural diante daquiloSalvo engano, creio que passei por quatro ou cinco greves ao longo de minha estadia na universidade, sendo que algumas delas foram televisionadas, outras envolveram conflitos com a PM, outras agressão a jornalistas, brigas entre estudantes, assédio moral e físico, vandalismo e coisas mais que só podem ser compreendidas — se é que podem — à luz daquele contexto.

2. Uma grande expansão — descuidada, irresponsável — estava em curso, ela nos incluía nas instituições públicas para nos excluir por dentro delas.

Na época, eu não compreendia bem a extensão daquilo que estava acontecendo ou o quanto minha circunstancia fazia parte de algo maior. Inicialmente, eu não percebi como isso repercutia no ensino médio público brasileiro, que estava abarcando cada vez mais estudantes enquanto suprimia os critérios que os reteriam por não aprenderem. Eu pouco sabia da expansão das Fatecs promovida por Alckmin em São Paulo, por exemplo, que contrataria professores fraquíssimos que lecionariam em campus precários com orçamentos apertados. De igual modo, eu desconhecia o volume de verbas públicas que o PROUNI repassaria para grupos privados oportunistas que montariam cursos fajutos ao longo dos anos (6). Em suma, somente depois de muito tempo pude perceber esse movimento no qual a educação era amplamente oferecida ao mesmo em que também perdia seu valor — todos teriam seu diploma: o governo e a iniciativa privada assegurariam a existência de universidades toscas para acolher até o mais analfabeto dentre nós. Mas de que serviria isso? O que faríamos com nossos diplomas? Aonde iríamos como intelectuais semialfabetizados? Nossa perspectiva profissional era desalentadora.

A despeito da escassez escabrosa de professores, o Estado de São Paulo raramente abria concursos para preencher seu quadro profissional, todavia, ainda que encontrássemos um lugar no ensino médio público, a carreira de professor era tão precária quanto a dos profissionais sem qualquer graduação. É verdade que tínhamos também a perspectiva de nos tornarmos professores universitários, muito melhor que aquela do professor de ensino médio, entretanto, não só as vagas eram poucas como as exigência eram altas para uma classe social extremamente carente. Quem dentre nós teria condições para se manter estudando num mestrado ou doutorado? Quem conseguiria produzir um trabalho intelectual profícuo tendo que atuar em empregos degradantes para comer e pagar o aluguel?

Ao meu redor, algumas pessoas criaram soluções individuais para permanecerem cortejando melhores perspectivas na pós-graduação e coisas assim, porém, mesmo elas sofreram tentando equilibrar subsistência e atividade intelectual. Um número absurdo de colegas desenvolveu doenças mentais ou agravou aquelas que já tinham (7), e o departamento de pesquisa recebeu diversos pedidos de prorrogação e desistências naquele período.

Por anos, a expansão da universidade pública me dividiu entre a alegria de ter acesso a um mundo o qual nunca tive e a suspeita acerca do significado daquilo. Ora, para que essas universidades estavam sendo construídas? Por que eram feitas com tamanha precariedade? E seria justo de minha parte reclamar do que ocorria? Eu não sabia. A situação estava permeada de contradições difíceis de compreender, sendo que permaneci sem entender tudo aquilo até as manifestações de 2013 começarem mudar minha cabeça.

cidadao_02 copy3. Quando ocorreram as jornadas de junho, muitos de meus colegas ainda viviam aquele clima leve de cooptação lulista e pensavam a si mesmos como devedores da expansão universitária iniciada pelo PT.

Por conta disso, tão logo as manifestações começaram a comprometer seu partido, eles passaram a se manifestar contra os manifestantes, argumentando que tais pessoas seriam manipuladas, alheias ao “lado certo da história” o qual estaria (obviamente) com o governismo o qual rejeitavam. Porém, nessa época nada mais me ligava ao petismo e logo duvidei dessas críticas. Ora, o país não estava mesmo ruim? As pessoas não possuiriam nenhum motivo legítimo para protestar? Teriam pisado nas ruas por que foram iludidas por aparelhos televisores? Interpretações assim era forçadas demais e, sobretudo, eram interessadas demais, isentando o governo de críticas e responsabilizando pelo problema a suposta alienação da população.

Para mim, era nítido que as manifestações estavam a ferir as identidades políticas ligadas ao petismo; justamente o povo que ele dizia defender o confrontava. Isso fez com que certo ressentimento nascesse daí e com que a defesa do partido se radicalizasse de forma gradativa — os governistas passaram a se representar como grandes opositores das massas, heróis sem capa de nosso país, ainda mais valorosos por não serem reconhecidos em sua denúncia da falta de consciência histórica das manifestações. Assim, sempre que alguma ocorrência ameaçava seu partido, eles se articulavam para redescrevê-la de uma maneira politicamente conveniente, inclusive, contanto para tanto com a ajuda de veículos que tinham crescido por meio de verbas federais.

Foi dessa maneira que ações hediondas realizadas pelo partido foram interpretadas como aceitáveis por aqueles suscetíveis a esse aliciamento. As ocupações militares nas favelas no Rio de Janeiro foram propagandeadas como “retomada do controle” por parte do Estado, por exemplo, mesmo que sequer fossem capazes de conter os índices de criminalidade e violência nas áreas ocupadas. De modo semelhante, a lei antiterrorismo e o novo código florestal passaram pelas narrativas de esquerda como se o PT, vez e outra, precisasse permitir alguma maldade da direita a fim de continuar governando pelos mais pobres. O mesmo ocorreu quanto a violência contra ribeirinhos, indígenas e manifestantes anti copa a fim de garantir a construção de obras (hidrelétricas, estádios, etc.) que não tinham nenhum outro propósito senão a corrupção, sendo desse modo também que Dilma cortou gastos primordiais na saúde, na educação e se reelegeu prometendo que não faria reajuste fiscal, não retiraria direitos trabalhistas, nem levaria a direita ao Planalto para, logo ao se reeleger, realizar exatamente o que disse que não faria.

tumblr_mdnbm2shmK1rb3qj0o1_1280

Quando esse quadro se formou com mais nitidez em minha mente, comecei a recolocar as questões sobre as origens de minha universidade e a pensar como se encaixavam nesses acontecimentos. Percebi então que expandir o ensino superior era completamente diferente de se preocupar com ele, que lhe ceder dinheiro era uma forma de receber reconhecimento pelas melhorias que ocorriam nele, de calar os críticos, de comprar aliados que seriam favorecidos por esses investimentos e gerar boa vontade ali. Em suma, a expansão era um meio de se fazer política, um modo disfarçar os velhos pecados e explorar possibilidades inexploradas pelos governos anteriores.

Eu me formaria em outra instituição superfaturada até os ossos, criada como subterfúgio para enriquecer gente suja e conceder favores, que em nada diferia das obras da Copa do Mundo ou mesmo das casas populares construídas em minha cidade pelo Minha Casa Minha Vida, que precisariam ser desocupadas assim que fossem entregues por estarem prestes a desabar (8). Ora, a expansão universitária, as obras da Copa, as casas populares não tinham sido mal feitas por acidente, nem seriam abandonadas por acaso. Elas eram resultado de uma mesma política de governo, uma mesma coalização política. Ocorria que a necessidade de educação, moradia, lazer e tantas outras estavam sendo representadas politicamente por estelionatários que entendiam que tais coisas eram pretextos para a expansão do poder e da corrupção. Como diria Machado: “Quem não sabe que ao pé de cada bandeira grande, pública, ostensiva, há muitas vezes várias bandeiras modestamente particulares, que se hasteiam e flutuam à sombra daquela, e não poucas vezes lhe sobrevivem?”.

Nós nunca tivéramos nada e acreditávamos dever lealdade aqueles políticos porque eles nos concediam benefícios inéditos, algo compreensível, afinal, como poderíamos nos opôr ao aliciamento político quando ele estava tão intimamente associado à promoção de benefícios que até o momento nos tinham sido negados? Por muito tempo, governos sucessivos nos negaram aquilo que era nosso direito e nos “acostumamos” a nada receber em troca de nossos impostos, por isso, não era estranho tardarmos para concluir o óbvio: a promoção de benefícios públicos era um dever de todo governo, pois esses benefícios nasciam de nosso dinheiro e esforço diário em manter a nação em pé.

Não obstante o fato de ansiarmos pelos direitos mais básicos, não precisávamos aceitar o modo sujo como eles nos estavam sendo ofertados. Era inadmissível que nossos direitos nos fossem dados como esmolas ou que fossem adulterados pela corrupção, nesse sentido, é óbvio que os bons resultados do governo petistas eram bem vindos, porém, eles não deveriam ser tolerados da forma torpe como estavam sendo concedidos, nem precisavam ser pagos com lealdade — não devíamos nada a político ou partido algum.

13151655_827791220698936_3652209276832307037_n

4. A partir dessas reflexões, passei a questionar aquilo que provinha das pessoas de esquerda com as quais eu convivia: o suposto direitismo atribuído aos manifestantes, as interpretações que tentavam salvaguardar conclusões nocivas à esquerda e ao PT, entre outras coisas que acabaram me deixando de fora da consolidação da narrativa que, nos anos seguintes, colocaria Dilma e seu partido como uma grande vítima da direita brasileira. A partir disso também, passei a almejar todos os direitos dos quais fui privado e a nada devolver em troca, eu queria tudo e não devolveria nenhuma fidelidade no voto, nenhum pensamento de gratidão, nem um mísero obrigado.

As manifestações romperam meus últimos elos ideológicos com o petismo ao mesmo tempo em que radicalizaram os governistas, fazendo com que eu não me visse mais representado em ninguém ao meu redor e tendo que elaborar, por meus próprios conceitos, minhas posições políticas. Confesso que, desde então, tem sido menos a leitura de teorias e mais um acompanhamento crítico do acontecimentos que moldou meu posicionamento político. É verdade que, de lá para cá, li autores que acabaram influenciando minha maneira de interpretar os acontecimentos, porém, os conceitos que hoje utilizo para analisar a política surgiram mais do confrontamento com os fenômenos e menos do confrontamento com os textos. Mais abandonei que adotei teorias, sendo que, dessa época em diante, aprimorei minha capacidade de pensar por conta própria, sobretudo, porque eu debatia recorrentemente com pessoas que desejavam me cooptar e precisava ser capaz tanto de interpretar os acontecimentos quanto de desfazer as tentativas de deturpá-los.

Obviamente, há um preço a ser pago por essa independência, que envolve certa solidão intelectual e certo questionamento constante a respeito de si mesmo, contudo, tratar minhas próprias crenças com todo rigor que posso e ser honesto a respeito delas permite que eu olhe meu reflexo no espelho sem sentir constrangimentos, que encare o mundo de maneira franca e convicta. Até hoje, esse tem sido um valor que prezo e estou feliz em poder pagar.

Referências

(1) Lula diz que povo que protestou contra ele deveria beijar seus pés. São Paulo: Folha política, 2018. Disponível em: < http://www.folhapolitica.org/2018/03/lula-diz-que-povo-que-protestou-contra.html >. Acesso em: 1 de julho de 2018.

(2) Sem recursos, federais em São Paulo reduzem obras, cortam limpeza, elevador, celulares e até luz. São Paulo: G1, 2018. Disponível em:< https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/sem-recursos-federais-em-sp-reduzem-obras-cortam-limpeza-elevador-celulares-e-ate-luz.ghtml >. Acesso em 26 de junho de 2018.

(3) Unifesp em Santos enfrenta problemas. São Paulo: O Estado de São Paulo, 2010. Disponível em: < https://www.estadao.com.br/noticias/geral,unifesp-em-santos-enfrenta-problemas,517277 >. Acesso em 28 de junho de 2018.

(4) Prédio da Unifesp Santos fica sem aula após chuva. São Paulo: G1, 2012. Disponível em: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2012/04/chuva-causa-problemas-em-predio-da-unifesp-em-santos.html >. Acesso em 28 de junho de 2018.

(5) A crise da Escola de Humanidades da Unifesp e sua permanência no Pimentas. São Paulo: Escola de Filosofia, Letras e ciências humanas, 2012. Disponível em: < https://greveunifesp.files.wordpress.com/2012/08/dossie-sobre-a-crise-da-eflch-unifesp-e-o-bairro-dos-pimentas1.pdf >. Acesso em: 28 de junho de 2018.

(6) Prouni criou milionários em troca de má qualidade na educação. São Paulo: Carta capital, 2014. Disponível em: < https://www.cartacapital.com.br/educacao/prouni-criou-milionarios-em-troca-de-ma-qualidade-na-educacao-7396.html >. Acesso em: 30 de junho de 2018.

(7) Estudantes de mestrado e doutorado relatam suas dores na pós-graduação. São Paulo: Folha, 2017. Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2017/12/1943862-estudantes-de-mestrado-e-doutorado-relatam-suas-dores-na-pos-graduacao.shtml >. Acesso em: 30 de junho de 2018.

(8) Prédio do Minha Casa Minha Vida é interditado poucos meses depois de ser entregue em Guarulhos. São Paulo: G1, 2017. Disponível em: < https://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/predio-do-minha-casa-minha-vida-e-interditado-poucos-meses-apos-ser-entregue-em-guarulhos.ghtml >. Acesso em 3 de julho de 2018.

Anúncios

Um pensamento sobre “Junho de 2013 e minha circunstância (Parte II de II)

  1. Pingback: Junho de 2013 e minha circunstância (Parte I de II) | Ao invés do inverso

Ouse dizer o que pensa

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s