Junho de 2013 e minha circunstância (Parte I de II)

Este texto é dedicado ao meu amigo Mailson Cabral

1. Eu ainda cursava a graduação em Filosofia quando as manifestações de junho de 2013 aconteceram e, embora estivesse num curso de humanas numa universidade pública e elas fossem o assunto do momento, eu não me sentia confortável para conversar com meus colegas a respeito do que ocorria. Era vitoriosa entre eles certa interpretação em que aquelas pessoas vestidas em verde e amarelo seriam direitistas raivosas, eivadas de ódio e preconceitos históricos, estando enganadas em suas reclamações e, sobretudo, em sua oposição ao governo vigente. Conquanto eu não tivesse acesso a uma opinião divergente dessa, nem mesmo a muitos elementos para formular uma, estava inclinado a rejeitá-la.

tolerancia

Um primeiro motivo para tanto era minha lembrança de um livro de história. Seu autor descrevia um levante popular brasileiro o qual, inicialmente, teria sido apoiado por nossa elite econômica e mais tarde perdido esse apoio. Essa elite passara a apoiar a repressão popular.

Bem, mas por que apoiar e depois desapoiar? Parece que não existia uma interpretação consensual entre os historiadores a respeito disso, o que fez o autor discutir várias interpretações possíveis para o acontecimento. Uma delas ficou em minha memória: talvez o apoio tivesse sido dado porque essa elite nunca antes entrara em contato direto com o povo e teria uma imagem estereotípica dele, como naquelas pinturas da propaganda soviética. Por conta disso, logo que essa elite passou a apoiar a população e a ter com aquela gente desdentada e ignorante, passou também a defender sua repressão.

Atualmente, essa interpretação me parece fraca em termos históricos, mas a considero poderosa como imagem — um grupo elitizado acuado por uma realidade assustadora. Foi essa imagem o meu motivo inicial para desconfiar da interpretação que meus colegas tinham sobre os manifestantes de junho de 2013. Minha interpretação era que a população brasileira seria múltipla e contraditória, abarcando tendências luminosas e obscurantistas, por conta disso, quando meus colegas selecionavam o pior da população para argumentar contra as manifestações, eu sentia que aquilo era verdadeiro, que as pessoas eram mesmo tão ruins quanto pareciam, mas que elas eram outras coisas também.

Um segundo motivo era que eu não acreditava ser possível que tanta gente se mobilizasse sem que estivesse presente um fator comum de grande peso entre elas. Para formular uma interpretação a esse respeito, refleti sobre o ensinamento de um professor que dizia ser comum que, por detrás dos levantes populares, existissem sérios problemas financeiros. Passei então a procurar algo diferente da infame “influência da mídia” que pudesse mobilizar tanta gente diferente, ao mesmo tempo em que segui rejeitando interpretações que negassem que os manifestantes pudessem agir por conta própria, ou seja, que os tratassem como “alienados” e coisas desse tipo. Demorei para elaborar uma resposta que pudesse explicar as razões dessas pessoas, mas cheguei enfim a duas conclusões.

A primeira foi que aquelas pessoas vivenciavam diariamente uma situação econômica e social ruim que consistia, em grande parte, na justificativa que tinham para protestar. As manifestações começaram com uma disputa em torno de dinheiro (quinze centavos), inclusive, o que denotava a existência de fatores tão objetivos quanto um bolso vazio a mobilizar aquelas pessoas.

A segunda foi que os manifestantes tinham em comum certa perspectiva que era muito mais significativa que aquilo que os separava. A diversidade presente nas manifestações — seu clima de despojamento, seus cartazes contraditórios, seu anedotário — era bem muito bem vinda ali, pois o que estava em questão era justamente acolher a diferença: que cada qual trouxesse sua pauta, apitos, fantasias, cartazes e viesse protestar.

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Lenin com os camponeses (1959), Evdokiya Usikova

2. Dessas discordâncias com meus colegas outras surgiram e fizeram com que, desde 2013, eu nunca mais tenha entrado em acordo com esse pensamento de esquerda endossado por eles. Quando ficou evidente que as manifestações tinham vindo para ficar e não poderiam mais ser ignoradas como uma mobilização genuinamente popular, foi a negação da autonomia dos manifestantes que possibilitou que eles dissessem que o movimento “não tinha direcionamento”, uma “pauta unificada” e coisas dessa sorte. Quando alguns intelectuais daqui de São Paulo começaram a organizar “cursos” e “palestras” sobre as manifestações, fiquei irritado percebendo que as pessoas saíam desses encontros lamentando a falta de “direcionamento” — tutela — do movimento: os revolucionários não liam Marx e os marxistas não eram revolucionários. Quando, em vários momentos posteriores, manifestantes foram reprimidos pela PM, foi esse estereótipo de direitistas malvados permitiu que meus colegas vibrassem (publicamente ou em silêncio hipócrita) com as imagens da violência.

Caso essas interpretações decorressem de um mero equívoco a propósito do que ocorria, eu jamais teria me sentido assim; todavia, aquilo estava em questão não era produção de uma interpretação honesta dos acontecimentos, mas a imposição de uma interpretação vitoriosa dos acontecimentos. Para tanto, cumpria sujá-los com mentiras até que adquirissem a feição certa, o que fez com que a apologia travestida de análise e a ideologia vendida como trabalho intelectual fossem produzidas aos montes, concorrendo para a formação de um volume tal de informações que qualquer tentativa honesta de entender o que ocorria ficasse prejudicada.

Como refletir e discernir o verdadeiro ficou cada vez mais difícil, as pessoas passaram a escolher entre as narrativas já prontas, preparadas por grupos afins, fazendo com que muita gente ficasse cada vez mais envolvida com redes de apoio cuja função consistia em reforçar interpretações, forjar uma autoimagem valorosa diante dos “malvados” que tomavam a política e, principalmente, lidar com a mania da realidade de desmentir seus dogmas. Como consequência disso, acabei me acostumando a prever o que meus colegas concluiriam sobre cada novidade política e social antes mesmo que formulassem suas opiniões, já que, por mais diferentes que eles fossem, sempre convinham com as mesmas mídias, os mesmos pensadores, os mesmos partidos, jamais pensando contra as interpretações ditadas a partir daí. Além disso, também me acostumei a ser alguém que reflete sem esperar pela aprovação de ninguém e a simplesmente defender de forma honesta o que penso, o que não significa que eu não espere encontrar companhia e reconhecimento ao ponderar, obviamente, mas que refletir contra interpretações já estabelecidas tem sido algo cada vez mais comum em minha vida. Nesse sentido, aprecio quando Machado diz: “(…) gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu”. Nesses últimos tempos, tem sido esse espírito desalmado e sem reverência que tenho encarnado para enfrentar minha circunstância. E não há um dia sequer em que eu o amaldiçoe.

(Leia  a segunda parte aqui)

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