Resenha: O babuíno de madame Blavatsky — Peter Washington

Sobre gurus, crentes e charlatães

Tão logo passou a produzir resultados que foram tidos como profícuos até mesmo pelo público leigo, a ciência que sucedeu Newton gradativamente se impôs como o melhor conhecimento disponível ao Ocidente e ofuscou até outras tradições com as quais já se relacionara longamente, como a Religião e a Filosofia,  sendo que as tradições as quais não desejavam ou que não eram capazes de se adequar aos critérios da ciência sem se descaracterizar completamente tiveram que se reinventar para sobreviver, fosse a confrontando ou mesmo a ressignificando.

Ao mesmo tempo em que esse novo saber se restringia cada vez mais a poucos pesquisadores altamente especializados, paradoxalmente, ele foi também impondo ao grande público certa racionalidade laica dependente antes de demonstrações que de crenças particulares a qual é fomentadora daquilo que chamamos hoje de “espaço público”. Diante disso, várias religiões se depararam com a escolha de se restringirem ao espaço privado como meras idiossincrasias, ou de buscarem formas alternativas de permanecerem como conhecimento público, afinal, se era possível curar doenças graves e inventar maquinários revolucionários apenas aplicando “luz natural” na investigação da natureza, que valor teriam as especulações que se voltavam para o místico além da simples satisfação pessoal?

Já no século dezenove surgiriam dúzias de religiões que tentavam reconciliar velhas ortodoxias com o novo espírito científico, às vezes, até mesmo nomeando a si mesmas como “científicas” para aproveitar o prestígio que a ciência começava a angariar. São exemplos disso os espiritualismos franceses, o mesmerismo, as ideias de Swedemborg e muitas outras tradições que se viram ameaçadas por um conhecimento intrincado e pouco intuitivo que ia surgindo em contraposição ao velho imaginário aristotélico que por tanto tempo perdurou no Ocidente. 

O babuíno de madame Blavastky traça uma espécie de linha do desenvolvimento dessas religiões a partir de um caso específico: a Teosofia. Rastreando as origens dessa religião e contando sua história até nossos tempos, o crítico literário Peter Washington busca expôr de que modo a Teosofia sintetizou padrões para grupos religiosos e, algumas vezes, até os engendrou e serviu como uma espécie de modelo de sucesso em que gurus, crentes e charlatães vieram a se inspirar dali por diante.

Um mundo de medíocres

Lembro de ter lido em algum lugar de Descartes uma biografia intelectual, de Stephen Gaukroguer, que depois de ter escrito grande parte daquilo que o fez entrar para a História da Matemática, René Descartes passou a acompanhar com relutância qualquer coisa que seus pares escrevessem sobre o assunto. Quando teve notícia dos trabalhos de Fermat, por exempĺo, hesitou em lê-los por temer perder tempo descobrindo o que já sabia, afinal, por que despender seu tempo em coisas já conhecidas em vez de investigar outras que ainda não tinham sido descobertas?

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Atualmente é evidente Descartes estava errado sobre Fermat, sobre o quanto conhecia matemática e sobre outras coisas mais, entretanto, ele não errou simplesmente por arrogância ou tolice; sua pretensão de conhecer inteiramente a matemática de seu tempo nada tinha de ridícula, na verdade, no século dezessete ainda era possível ao pensador europeu dominar a totalidade do conhecimento de seu tempo e, da Matemática à Metafísica, tudo era alcançável com uns bons anos de estudo. Os mais destacados, além de compreender muitos campos, até propunham inovações significativas em vários deles. Newton e Leibniz, por exemplo, disputaram longamente a respeito de quem teria descoberto primeiramente o cálculo infinitesimal (salvo engano, por meio de um discípulo de Leibniz), e essa foi meramente uma de suas contribuições para a história do pensamento.

Os leitores desses tempos antigos (sempre raros, é bom que fique dito) conheciam um grande número de áreas do conhecimento e dialogavam com elas sem muita dificuldade, podendo acompanhar até mesmo as disputas mais específicas e profundas de cada uma delas sem que perdessem o contato com as outras. A circulação de cartas nas quais filósofos e cientistas debatiam questões complexas em alto nível era bastante comum e levava a polêmica para diferentes pesquisadores (aliás, o próprio Descartes usou bastante desse procedimento).

Diante dessa história sobre o filósofo, todavia, é fácil pensarmos que o grande gênio matemático e filosófico do século XVII foi um tolo ao subestimar Fermat, o que constitui uma grande prova de que estamos cada dia mais longe dos velhos polímatas, já que diferentemente deles nosso apartamento daquilo que há de mais avançado em cada área do conhecimento é tal que sequer entendemos bem o que cada uma delas desenvolve hoje em dia. Até criamos uma palavra para aquele que pesquisa o “detalhe do detalhe” de uma área: o especialista. Cada especialista estuda um pequeno pedaço da realidade que está em constante disputa para ser cada vez mais repartido e dividido entre outros especialistas, além de usar uma linguagem própria quase como um dialeto que impede a aproximação do público não especializado, de modo que, exceto no que diz respeito ao punhado de realidade que ele estuda, tal especialista é tão ignorante quanto esse público.

Tamanha foi a expansão e a repartição do saber nos últimos séculos que é impossível hoje para qualquer um dominar o que há de melhor nas várias áreas do conhecimento, sendo exatamente aí que entra a instituição escolar: ela faz com que todos que a frequentam conheçam o básico a respeito de muitas coisas. Nela aprendemos a contar até cinco, o ponto de ebulição da água e em que palavra cabe o acento diferencial. Ou nem tanto.

*

Embora garanta algum conhecimento rudimentar de ciência, filosofia, ciências humanas e artes, mesmo uma instrução básica de ótima qualidade nunca chega a apresentar em profundidade nenhuma dessas áreas. “Todos os caminhos levam à ignorância” é o que diz Manoel de Barros e sua frase serve bem aqui, uma vez que, do especialista ao iletrado, todos hoje somos medíocres, quer dizer, somos aqueles que estão no meio, que não se sobressaem e conhecem por ouvir dizer os muitos campos do conhecimento, ainda que possam “dominar” medianamente um ou outro.

A maneira pela qual consumimos cultura, ciência e arte dentro dessa nova condição é transformada na medida que não temos conhecimento a respeito do melhor de cada área e nosso julgamento acerca delas fica restrito a um tipo de bom senso sobre as coisas. Por exemplo: conquanto não saibamos bem como provar o heliocentrismo, não deixamos de considerar obtuso ou, no mínimo, excêntrico aquele que ainda hoje crê que a terra é o centro do universo. Nos afastamos naturalmente dessas pessoas ainda que elas queiram debater. O mesmo se dá com quase tudo o que consumimos em nossa cultura, o que faz com que fiquemos dependentes de mecanismos institucionais (universidade, especialistas, institutos de pesquisa e controle de qualidade, etc.) para separarmos o joio do trigo formarmos nossa própria opinião de uma forma curiosamente contraditória: por meio da opinião de outros em quem confiamos. Tendemos assim a ouvir aqueles que apresentam os distintivos institucionais e a ter alguma razoabilidade para não considerar seriamente coisas muito malucas, mesmo que não saibamos ponderar os argumentos que as sustentam.

images.livrariasaraiva.com.brQuando porém as instituições falham ou, especificamente no período abordado em O babuíno de madame Blavatsky, quando ainda não existe uma relação muito sólida entre essas instituições e a sociedade, o público tende a ficar à deriva do que tem sido produzido de melhor em seu tempo e mais vulnerável a crendices de toda sorte. Se hoje, paralelamente ao mercado de livros especializados, dispomos de um mercado forte voltado o público leigo, com diversas obras que tentam contornar as dificuldades de sua falta de conhecimentos específicos e lhe apresentar de forma convincente e as inovações de diversas áreas, esse quadro foi formado ao longo de um grande período de tempo e certamente não existia no tempo de Blavatsky. Como nos relata o autor, os livros da teosofista tiveram má aceitação dentro da academia (p.62) e foram imediatamente entendidos como misticismo e pseudociência, o que não impediu de modo algum a boa vendagem e uma boa recepção entre o público leigo.

Evidentemente, eu não estou ressaltando isso para sugerir que hoje esse acontecimento seria completamente diferente e que o público leigo do presente rejeitaria o livro por ter um maior acesso a informação, mas que a depender dos mecanismos institucionais que se formavam já naquele tempo, uma parte enorme da cultura iria para a lixeira de imediato, em outras palavras, não são pelos mecanismos institucionais mas por meio da multidão de medíocres que essa herança cultural se conserva. Teosofia, Espiritismo, Logosofia e companhia são tradições que florescem na mediocridade e pela mediocridade, aproveitando-se do tipo de formação cultural lacunar e repleta de incertezas gerada a partir dela.

Foi um mundo cada vez mais alfabetizado e tão ignorante quanto sempre foi que se abriu para as “religiões científicas” e é a partir dele que elas devem ser pensadas.

O novo paradigma

Conforme a credibilidade das explicações mitológicas do mundo perdeu força foi necessário reinventar a religião diante do secularismo sem porém desprezar os benefícios que ele trazia, verdadeiros “milagres” jamais produzidos por qualquer entidade já cultuada na Terra. Com isso, diversas religiões buscaram algum tipo de proximidade (real ou dissimulada) com a ciência, colocando-se também como ciências ou tentando realizar alguma interpretação desse conhecimento que dissolvesse qualquer oposição com ele.

Ainda que quisessem parecer “científicas”, tais religiões nasceram em grande parte da pena de indivíduos que estavam interessados em ciência no entanto não eram necessariamente grandes cientistas ou filósofos. Por mais que revindicassem grande rigor para suas criações, seus criadores nunca conseguiram disfarçar o quanto elas eram apenas a reelaboração de crenças e doutrinas anteriores, constituindo antes tentativas de reconciliação da cultura vigente com as novidades da época que resultados substanciais de teorias científicas em elaboração. Kardek, Blavatsky, Pecotche e uma infinidade de outros fundadores de religiões dessa safra não eram herdeiros de pensadores religiosos sofisticados como Tomás, Avicena ou Maimônides, e nem mesmo de adversários seus como Ockham, Descartes, Espinosa, mas apenas pensadores medianos que aproveitaram aquilo que sobrou — como senso comum — das grandes obras do pensamento em seu próprio tempo. Até podemos encontrar em O livro dos espíritos provas da existência de deus que lembram vagamente aquelas dos filósofos medievais, por exemplo, porém sem a profundidade admirável que tinham em seu contexto original, pois se trata apenas de um resto de uma Metafísica sofisticada sobrevivendo na mediocridade popular.

O livro de Peter Washington traz boas informações a esse respeito ao tomar a Teosofia como uma espécie de paradigma que sintetiza (sem inventar) várias tendências que influenciariam as religiões seguintes tanto do ponto de vista da “política institucional” quanto da “teologia” dessa religião.

Por certo, a política institucional é a mais longamente abordada em todo o livro, sendo desenvolvida a partir da apresentação das biografias dos líderes da teosofia, o que abrange desde Blavastsky até pensadores que, embora não fossem teosofistas, se associaram a eles em algum momento, como um de meus escritores favoritos, Aldous Huxley. Pessoalmente, algo que eu quis saber acerca desse assunto e que infelizmente não estava no livro era em quais camadas sociais a Teosofia conquistava adeptos, em outras palavras, a Teosofia é uma religião de pobres? De ricos? De pessoas ligadas a culturas específicas? Para o meu pesar, O babuíno de madame Blavatsky não dá tais respostas e como a Teosofia não tem grande distribuição no mapa do Brasil, tenho poucos meios para descobrir isso.

Já a questão “teológica” é abordada de forma bem menos detalhada e mais esparsa, sendo preciso teorizar um pouco para entender o que o autor pensa dela, pois ele nem mesmo explica minimamente os conceitos da Teosofia antes de começar a analisá-la. Suspeito que talvez tais conceitos façam parte da cultura geral do país do autor ou que ele não os considere importantes para o entendimento da obra (o que não seria verdade, pois é preciso ao menos alguma noção do assunto para não perder o sentido dos acontecimentos). Sei lá. Até as disputas entre as diferentes concepções que os líderes da teosofia só são abordadas em seu aspecto teórico na medida em que explicam a biografia deles, o que me faz pensar que Washington não liga muito para a Teosofia como religião; só como sistema de crenças que motiva e explica as ações de determinadas pessoas.

Por conta disso, a ausência desses tópicos atinentes ao lado mais teórico desse credo não é bem um defeito mas mais uma consequência do foco do livro, que não se dedica a explicar nem a doutrina teosófica, nem os seus adeptos, porém apenas a trama que envolve gurus e figuras carismáticas e espirituais importantes na ordem ou para a ordem. Conquanto até exista uma breve explicação do caso das irmãs Fox, do mesmerismo e outras doutrinas em aqueles que fundaram ou vieram à teosofia estavam metidos, elas se dão sem grandes aprofundamentos (o que não as torna menos interessantes) e dada a raiz orientalista dessa religião, as crenças de outras raízes são pouco abordadas em sua relação com a Teosofia e quase nada é dito sobre o judaísmo, o cristianismo, etc. Uma pena.

Instituição e intimidade

Semm títuloAs instituições religiosas não só atraem fracos de corpo e espírito como também, com muita frequência, fazem a manutenção dessa fraqueza em proveito próprio. A queda, o pecado original, a proximidade da matéria, a imperfeição humana, a distância do criador… Existem desculpas teológicas aos montes que justificam a fraqueza humana ao mesmo tempo em que oferecem um caminho religioso (e institucional) que supostamente a enfrentaria, sendo que por mais que os religiosos possam encontrar conforto para sua mazelas quando frequentam tais ambientes, eles também voltam para chorá-las de novo e de novo sem jamais romper esse ciclo de dor. Afinal de contas, a religião institucionalizada nos liberta da dor ou somente cria pequenos espaços em que somos consolados (circunstancialmente) dela? Se essas instituições tornassem as pessoas mais fortes ou as libertassem daquilo que as aflige, então essas pessoas não deveriam também se libertar da necessidade de recorrer à religião como um consolo? A melhor igreja não seria justamente aquela a fazer com que os fiéis fossem capazes de abandoná-la? Quando colocamos essa reflexão diante daquilo que sabemos de história, nós rapidamente a tornamos absurda, pois as instituições religiosas não tendem a ter essa postura emancipadora e comumente se ajustam ao status quo político e social, por pior que ele seja.

Para além desse seu aspecto negativo, todavia, a religião também abre um espaço “íntimo-existencial” a qualquer um que é sem igual no restante da sociedade e constitui bem mais que uma antessala de manipulações. Qualquer um pode entrar num templo e desesperar, rogando às suas entidades por uma solução definitiva para problemas insolúveis e nenhum outro lugar, talvez nem a cabeceira da cama, será tão apropriado para isso. Além disso, a religião permite que se vivam sentimentos magníficos os quais podem dar significado a toda uma vida, e também que se pense e deseje o impossível, que se discutam as questões sem resposta, os anseios irrealizados, os grandes propósitos e, é claro, que se peçam forças para enfrentar a vida. Aquele resto de realidade, sentido e mistério que a razão não toca e a ciência não sistematiza é calorosamente acolhido dentro da religião, e é tolice ignorar isso.

Sendo assim, ainda que na bagunça da história o aspecto institucional e o aspecto existencial se confundam, cumpre não interpretar a religião como algo meramente vilanesco ao nos depararmos com suas faltas, como também não interpretá-la como se fosse o mero resultado interioridade humana ao contemplarmos suas manifestações genuínas. Felizmente, o livro de Peter Washington é bastante eficiente nesse sentido ao apresentar a história da Teosofia sem a necessidade de julgá-la de forma parcial. Ao mesmo tempo em que mostra as infintas falcatruas de Blavatsky e dos demais líderes da Teosofia, ele retrata também as vidas daqueles teosofistas que acreditam verdadeiramente em suas ações.

Não é por acaso que essa religião acabou atraindo tanto oportunistas como Leadbeater, que souberam aproveitar o interesse do público leitor por espiritualismo (ele escreveu, por exemplo, uma série de biografias de suas vidas passadas que venderam bastante e renderam uma boa polêmica pública para a religião), quanto sujeitos acima de qualquer suspeita como Huxley, que simpatizou com a Teosofia e com Krishnamurti durante certo tempo embora fosse um “cético”. Washington mostra que há algo de real e ao mesmo tempo dúbio nessa crença sem porém julgá-la em si mesma, posto que as poucas reflexões que ele faz ao longo do texto visam somente criar interpretações plausíveis para os acontecimentos, no entanto, o leitor tem mãos um material farto e dificilmente resistirá a essa tentação.

Doutrinas secretas, personalidades públicas

*Ainda que de uma maneira bem pouco sistemática, Washington sintetiza alguns mecanismos da Teosofia que a ajudaram a prosperar como instituição, analisando tanto o comportamento de seus líderes quanto dos seguidores dessa crença. Nesse sentido, a figura do guru, repleto de sabedoria e guia das massas, captador de novos adeptos e rosto público da religião é importantíssima dentro do livro, sendo que grande parte da obra orbita em torno de nomes como Annie Besant, Ouspensky e outros que contribuíram para a divulgação e a produção de polêmicas que mantiveram sua religião sempre em evidência. Para o autor, eles não são importantes simplesmente pelos indivíduos que são, porém porque inauguram certa forma de agir que seria retomada diversas vezes dali por diante por outros líderes religiosos, o que o leva a ir bem além da raiz teosófica iniciada em Blavatsky para abordar também espiritualistas que entraram em contato com a religião ou que, existindo no mesmo período que ela, compartilhavam crenças ou seguiam caminhos parecidos. Tais indivíduos compõem o miolo do livro e a maioria deles é realmente interessante, pois — como todo guru — suas personalidades são uma mistura de falta de critérios para conhecer, desvios morais, fanatismo, ingenuidade, loucura e força de caráter, de modo que nem sempre é claro o quanto eles creem ou não naquilo que pregam.

Pela descrição de Washington, aqueles gurus que em algum momento de suas trajetórias perceberam as ciladas habituais da instituição e as denunciaram ou simplesmente a deixaram, acabaram sendo mal compreendidos (p.276) ou reinterpretados de forma a atenuar suas críticas, mesmo que ao custo da traição de suas palavras. Era bastante comum que, diante de um guru questionável, os teósofos simplesmente o trocassem por outro sem deixar de endossar suas teses, ou que, diante das falhas da doutrina, apenas a trocassem por outra quase igual. Particularmente, tenho muitas inquietações a respeito desses comportamentos: será que as pessoas estão sendo honestas — e tolas — quando fazem isso ou há alguma desonestidade envolvida? Estão querendo salvar uma instituição ou suas próprias crenças? E qual é a necessidade de manter as próprias crenças se elas estão em constante abalo diante de evidências contrárias?

Uma resposta curta parece insuficiente e redutora, uma vez que mesmo um sujeito como Krishnamurti, que cria sinceramente naquilo que pregava e estava muito distante de ser um aproveitador obsceno como Gurdjieff, passou a vida vivendo em boas casas, desfrutando da companhia de belas mulheres, conhecendo inúmeros países, tendo luxos que só ricos possuem (p.350) e prescrevendo aos seus fieis um modo de vida que ele mesmo só podia praticar por viver uma vida de privilégios.

Aliás, fraudes, ardis e má fés dessa religião estão por todo livro, chegando a ficar desinteressantes depois de certo tempo, dado o volume de ocorrências: Blavatsky aplicava golpes rotineiramente e humilhava seus discípulos (certa vez, fez Leadbeater circular por um navio, entre os passageiros, carregando um urinol cheio, por exemplo); Annie Besant chegou a controlar os direitos literários das obras de Blavastky e a adulterá-las para que conviessem mais com seu ponto de vista; Gurdjieff era um sociopata tão repulsivo que parecia mais uma figura literária que um ser humano, etc. A contradição é constante na vida desses gurus e, ao lado de alguns casos muito interessantes e bonitos como o de Olcott e sua relação com o budismo e as questões nacionais do Ceilão, temos outros pavorosos envolvendo pedofilia, chantagem, abusos, embustes de todo os tipos e sujeira para fazer transbordar qualquer esgoto.

Clichês sem véu

1625649_704571389582581_480508516_nApesar de alguns mecanismos pelos quais a Teosofia é salva de seus “desvios” serem discutidos na obra, no fim das contas, é bem mais lógico concluir que a enganação simplesmente faz parte do espetáculo religioso. De maneira pouquíssimo sistemática Washington faz uma espécie de síntese de clichês que essa religião de alguma forma agrupa e fiz questão de anotar e organizar por nunca ter visto algo semelhante em outro lugar.

O primeiro deles diz que, em algum momento longínquo do passado, existiu uma era de ouro na qual a humanidade estava mais próxima da divindade e os problemas pelos quais passamos inexistiam, porém, geralmente por erros humanos, essa era acaba e por isso vivemos num mundo decaído. Segue-se daí outro clichê: a crença de que apesar do fim da era de ouro podemos buscar um retorno à divindade cuja forma variará, é claro, de religião para religião, mas a mais comum envolve a busca de sabedoria, iluminação ou mesmo a redescoberta de uma doutrina remota cuja pureza estaria empoeirada pelas religiões atuais (aliás, a antiguidade ser sinônimo de importância esotérica é outro clichê). Desses clichês seguem-se outros mais, como a ideia de que existe uma irmandade de mestres intervindo no curso da humanidade para garantir a salvação e que existem estágios evolucionários pelas quais passaremos até chegar lá, o que pode muito bem se somar a velhos conhecidos como a reencarnação, a existência de outras realidades, comunicação com mortos ou entidades, a imortalidade da alma, a nobreza do espiritual versus a profanidade do material, entre tantos outros que conhecemos bem. Isoladamente, cada um desses clichês é antiguíssimo, mas eles ganham certa originalidade quando se articulam de forma engenhosa em novas religiões.

Se já nos ocorrem naturalmente vários exemplos de credos que usam e abusam desses clichês, o autor ainda dedica os últimos capítulos de sua obra para apontar os filhos diretos da Teosofia, cujos princípios de um modo ou de outro retomavam a síntese que o autor vê nela e somam a isso as solicitações históricas de suas circunstâncias: as causas ambientais, a procura de espaço na mídia (graças à massificação do televisor), a promessa de satisfação das demandas da sociedade de consumo (sucesso, sexo, beleza), ou até mesmo a adoção de superstições de épocas específicas, como a crença em OVNIS.

Para nós que podemos encontrar os rituais mais secretos de cada religião numa simples busca na internet, que já vimos o misticismo e a autoajuda se tornarem verdadeiros fenômenos editoriais, nenhum desses clichês constitui novidade e nenhuma religião atualmente nos é muito estranha, a despeito das crenças que possamos ter; mas isso não significa que superamos a superstição. Temos exemplos dela em toda parte: das energias quânticas bregas até os fanatismos políticos que há por aí. Ao que parece, a superstição é tão volátil quanto as religiões em que se aninha, uma serpente que troca de pele sem jamais morrer.

Depois do auge

Particularmente, considero que O babuíno de madame Blavatsky funciona melhor como trabalho histórico e biográfico que como um livro sociológico ou literário, algo curioso porque o autor é um crítico literário. Sua obra é bastante documental, pouco tocando a seara das teorias, teologias e afins. Nenhuma página é perdida tentando mostrar que Blavatsky não falava com seres espirituais ou que Leadbeter não tinha qualquer acesso à irmandade oculta, embora histórias dessa sorte rodeassem tais personagens; contudo, há sempre certa preocupação por parte do autor de explicar a que serve cada um desses trololós místicos no jogo de interesses da instituição teosófica e o volume documental que o sustenta é de impressionar. Fico feliz que existam pessoas que mergulhem tão fundo num tema. 

Washington data a queda da Teosofia como ocorrendo já na primeira metade do século passado. Diversas decisões administrativas mal tomadas diminuíram o poder da organização e na medida em que seus líderes carismáticos foram morrendo sem ser substituídos, a instituição perdeu a face pública (bem como a necessidade de espetáculos) e abandonou gradativamente aquelas práticas escandalosas que compuseram sua rotina. Com o tempo, seu crescimento esmoreceu e, embora ainda tenha sua influência, hoje a Teosofia é uma religião pouco significativa na geografia mundial. 

A nós brasileiros esse é um credo bastante estranho o qual não tem muita relação com nosso cristianismo de berço, por isso, acho interessante pensar que ainda assim ele possa estar presente em nossa cultura de algum modo, que é o que o livro aponta. Por detrás de sua pompa, de sua aura besta de mistério que é só falsa profundidade, a Teosofia não deixa de ser uma resposta a algo bem humano que é nosso velho anseio a respeito de quem somos e o que devemos fazer nesse percurso do útero à tumba. Gostando ou não de suas respostas, há que se respeitar aquilo que a suscita e, se possível, aprender com ela.

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11 pensamentos sobre “Resenha: O babuíno de madame Blavatsky — Peter Washington

  1. Você se esqueceu de comentar apenas uma coisa na resenha que em nenhum momento do livro o autor que claramente se põe como um Anglicano diz ter sido essa a única pessoa naquela época que anteveu a queda da Bomba de Hiroshima e Nagasaki. Essa alma que vocês dizem serem uma ‘charlatã’ e ‘guru’, termo o qual ela nunca aplicou a si mesmo, usando a palavra adepto que muito difere foi capaz de proteger milhões de criaturas vivas no tempo em que viveu de um decorrente cristianismo (a única raça que não aceita que haja na Natureza uma lei de equilibrio e harmônia, uma raça que oferta o sangue de Christo – o primogênito de sua própria espécie – em nome de seus atos presentes). Se você quer conhecer a verdade não veja pelas aparências e biografias, viaje e veja a miséria que existe no mundo, pergunte aos sobreviventes de grandes desastres humanos qual foi a dor que eles sentiram ao terem as suas vidas destruídas, vocês agem e julgam pelo intelecto mas essa tão maltratada e injuriada alma tem protegido esse planeta de sofrimentos muito piores. Um conhecimento inacessível a um ser humano normal até que ele aceite uma única e imutável verdade: cada criatura é uma entidade espiritual indestrutivel e imortal. Da raça cristã não espere nem se quer remição, leia o que ilustra os seus livros, as suas Igrejas, a sua ideologia. Karma não é uma crença é a ultima lei natural nos três planos desse planeta e de qualquer mundo e é a verdade que sempre prevalece. Faça um favor para si mesmo antes de injustiçar alguém me diga o que você tem feito além do mundo físico para diminuir a miséria do mundo? Que ser humano deve julgar ter o outro ou não merecimento de algo se não os deuses? Você pede provas a doutrina de Vishya Vidya, a relatos em todos as culturas de todos os povos em distantas partes do mundo [ isso para o profano], para o iniciado essa vida é a única verdade. Esse livro é só mais um escrito em milhões de anos como as muitas vidas tiradas em nome da oferenda da raça Cristã. Nós não temos crença, ou ideologia, a ciência que afirmamos existir é real porque se existe vida ela possuí memória e essa não se perde – tu ressucista aqueles que padeceram no passado? [Se assim pudesse então a vida seria apenas essa e nada mais]. Ao invés de questionar a conduta das pessoas porque o autor não dispensou tempo denunciado o mau que existe dentro do seio de seu próprio povo? Mas serve aquele que cuida da própria casa ao invés de buscar as dádivas em reinos vizinhos.

    • Olá, Aurora,

      Boa parte das resenhas que escrevo as quais tocam temas queridos as pessoas, como religião, acabam atraindo um mesmo tipo de objetor: aquele que lê afirmações que lhe desagradam, comenta um monte de coisas sem muita inteligência e depois se ausenta do debate como se tivesse me dado uma lição de moral.

      Assim, torço sinceramente para que você não seja mais que tais pessoas e vou tentar separar suas objeções uma a uma para te responder com precisão.

      1. Você afirma que o autor se coloca como um anglicano, contudo, a maneira como ele interpreta a história da Teosofia é rigorosamente histórica e laica. O que talvez tenha lhe dado essa impressão de anglicanismo seja o fato de que você não leu o livro mas somente minha resenha (que tem uma forma filosófica de raciocinar), acabando por interpretar alguma coisa dela como sendo anglicanismo, o que também não creio ser o caso; não sou anglicano.

      2. Que eu me lembre, o autor não diz nada a respeito das bombas americanas. Você pode apontar o trecho que está mencionando?

      3. Quando afirmei que Blavatsky era uma “guru” foi no sentido de explicar que ela sintetiza um comportamento que será repetido por outros religiosos depois de si que serão nomeados como gurus. Já “charlatã” foi em decorrência dela enganar os outros mesmo.

      4. Acho esquisito que você fale mal dos cristãos — inclusive de forma preconceituosa como uma raça — e use como exemplo disso o que se escreve a respeito deles, mas ao mesmo tempo me diga que não devo julgar Blavastky pelo que se escreveu dela. Você usa contra seus críticos critérios que não aplica a si mesma, o que é contraditório.

      5. Creio que você não entende bem a tarefa do crítico: ele não está a injuriar ninguém (nem eu), apenas torna evidente o que tais pessoas já fazem e são, buscando expor suas fraquezas e virtudes, na verdade, acho que fui bem enfático ao mostrar que o autor se abstém de julgamentos mesmo tendo em suas mãos muitos dados sobre as falcatruas de Blavatsky.
      Por exemplo, quando você diz: “Faça um favor para si mesmo antes de injustiçar alguém me diga o que você tem feito além do mundo físico para diminuir a miséria do mundo?”, o que você está fazendo é pedindo uma espécie de distinção moral minha para que eu possa fazer crítica, o que é desnecessário uma vez que a crítica independe de minha vida privada, ela só depende do objeto criticado.

      6. Por fim, há muita pregação no que você diz que apenas avolumam o texto, como a crença em Karma, a crença na cientificidade da Teosofia ou mesmo na imortalidade e espiritualidade de cada criatura.
      Confesso que acho bonito que você tenha tais crenças e que elas te façam, mas todas são para mim apenas crenças a menos que se prove o contrário. Você está convidada a apresentar seus argumentos.

      • Vamos lá:

        1 – A crença anglicana é na remissão de todos os atos, bons ou maus, em uma vida presente em nome do sangue de um vítima ofertada por eles. Busque o significado de metempsicose.

        2 – Não disse ele, disse que ela [Blavatsky] anteveu com total exatidão o que desqualifica-a como charlatã.

        3 – Você diz ‘guru’ um termo usado para ilustrar aqueles que estão sobre a consciência de Brahma, ou seja não Ahrats, aqueles que estão no caminho do Nirvana. Sendo que ela fundou a ST para preparar o renascimento dos Deuses. Em outros termo, ela já renasceu no Paranirvana e abdicou de um estado de maior plenitude espiritual em prol da servidão a humanidade. Você diz que ela era uma “charlatã” porque considera um Deus unigenito e unipotente enquanto ela aceitava [como muitos povos no mundo] a ideia de que o Kosmos é criado pelos 7 centros dos Dhyan Chohans.

        4 – É raça no sentido cosmogênico, já que estamos no Kali Yuga, julgo e condeno em nome da justiça de pessoas inocentes a raça cristã que não aceita que haja na natureza uma justiça divina – ou como vocês julgam tão mal o termo: Karma.

        5 – A tarefa do crítico parte do intelecto, mas ao menos que esse intelecto seja sublime e devoto a Natureza se converte no que é o mundo hoje: ambição da alma, inveja, corrupção do espírito, degradação dos seres censientes e a desumanidade de uma espécie para consigo mesmo. [ O autor demonstra isso nas primeiras palavras do livro, o que faz dele um anglicano.]
        A critica depende sim de sua vida privada porque toda ação é individual mas também coletiva. Uma gota que cai no lago se torna parte dele. Isso é karma distributivo e a busca pela pureza por meio da ética.

        6 – Karma é a última lei da Natureza responsável por manter a harmônia em tudo que existe, então não é uma crença, é a Verdade. O que você chama de crença eu chamo de Manasaputra – a mente voltada paras as coisas do mundo, razão ou perda, glória ou lástima. Aquilo que cria a ilusão e o sofrimento individual ou coletivo. Toda a ciência desenvolvida no século seguinte da contrução da ST corroborou suas ‘pregações’ mas você tem que buscar isso por si mesmo.

        7 – Se o espírito não é imortal e indestrutível quem são as grandes almas e espíritos que tem libertado a humanidade do julgo de sua própria ignorância por séculos e séculos, pondo-se em uma carne podre chamada corpo físico e suportando o sofrimento da má utilização da energia psíquica humana pela redenção de bilhões de criaturas vivas?

        Vocês humanos falam em crenças, teorias, dogmas, doutrinas enquanto bilhões padecem e vocês aceitam na sua sociedade as pessoas responsável por esse mal. Eu não prego nada, cada pessoa carrega a sua ignorância e é isso que a prende nesse mundo, almejo Moksha – liberação de qualquer ligação com o mundo porque este é a fonte de sofrimento, e se sofro estou a levar mais sofrimento a qualquer criatura, neste ou em outro Universo.

        • Oi, Aurora,

          1. A partir de sua definição espero que tenha ficado ainda mais claro para você não há anglicanismo nem no autor, nem no meu texto.

          2. Quando a chamo de charlatã é com base nos inúmeros episódios narrados no livro em que ela cometia pequenos golpes para conseguir dinheiro ou afeição alheia. Inclusive, são tantos feitos assim que em determinado momento o autor só dá as referências históricas e documentais e nem se preocupa mais em expor e narrar cada um deles em detalhes.

          3. Não é nesse sentido religioso que usei o termo guru no texto, mas num sentido laico de pessoa que é uma espécie de guia. Dê uma olhada novamente no item “Doutrinas secretas, personalidades públicas” que lá está bem explicado.

          4 e 6. Como disse, entendo suas crenças e acho até bonita a confiança que tem nelas, mas repeti-las para mim não as torna verdadeiras, só me informa daquilo que você acredita, algo que não tem qualquer valor para mim. A Teosofia não me é nenhuma novidade.

          O que estamos discutindo depende de provas, logo, se você apenas repete suas crenças para mim, como por exemplo quando diz que “o intelecto deve ser devoto da natureza”, “há um sentido cosmogênico em que posso nomear o cristianismo como uma raça”, “karma é uma lei da natureza” não há nada que eu possa te responder, afinal, são apenas suas crenças, que tenho eu que ver com elas?

          A única coisa que posso discutir contigo é aquilo que você for capaz de provar, sendo por isso que estou tentando extrair de você algum argumento; é só a isso que posso responder.

          5. “A critica depende sim de sua vida privada porque toda ação é individual mas também coletiva”, o que quer dizer com isso e como isso é um argumento?

          7. Ora, são só pessoas.

          8. Aurora, você prega o tempo todo, sempre afirmando um monte de coisas sem dar nenhum argumento e colocando a si mesma na posição de ensinar aos outros, que surgem como pobres ignorantes em seu discurso. Ao mesmo tempo, você nunca apresenta os argumentos que provariam que você tem razão, apenas pede que o outro busque a verdade. Mas se você que tem essa verdade não é capaz de apresentá-la, justificá-la, como pode se colocar nessa posição de pregadora?

          Eu posso até te ajudar a construir seus argumentos, se quiser, mas você tem que apresentá-los.

          • 1. Sim, o autor era anglicano porque a intenção dele era expor a inexistência da lei do karma.

            2. Provas que foram forjadas, como o Relatório Hogdson e o Caso Coloumbo. Enquanto as Cartas dos Mahatmas foram cientificamente comprovadas por uma comissão, seres que são vistos e aceito a milêsnio na Índia, Butão, Sri Lanka, Nepa, Indo-china.

            3. No caso ela era uma guia sim, por que ela era a reecarnação da Mãe do Mundo.

            4 e 6. Não é novidade porque sendo cristão você não aceita que os seus atos presentes serão pagos em um futuro, acredita na remissão deles em nome de Cristo. [Você está a me dizer isso, não eu.]

            Há inúmeras provas na cultura ocidental da materialização de espíritos entre os espíritas norte-americanos, o povo tibetano reconhece a reencarnação de seus lamas com meses de idade, faquir muçulmanos se ressuscitam em público nos países arábes e todas as ordem ocultistas aceitam a existência de um Logos criador porque possuem clarividência, clariaudiência, clarivoriência e existe inúmeros artigos alquimistas e científicos que corraboram isso. Sem falar no manequeísmo e no zoroatrismo, que aceitam a existência de realidade imateriais muito antes da raça aria.

            5. Que você gera o sofrimento de outro, que as Igrejas são construídas com sangue inocente, que o alimento e o ar que você desfruta é imerecido.

            7. Não são só pessoas, são os deuses que influênciam no seu destino e no destino de qualquer criatura viva. Se você diz ter razão e discernimento, ter a palavra e viver em uma sociedade ética. Me diga, por que a vida para você não tem valor algum? Por que como você diz “são apenas pessoas”.

            8. Eu não preciso de argumento, você é meu argumento, a sua crença e o fato de você negar a Natureza é o meu argumento. Assim como a Verdade sempre prevalece, como prevaleceu a um século e prevalecerá por eras e eras.

            A história é a prova para o descrente e o futuro é a salvação para os redimidos. Existe uma única e imutável verdade: a Lei do Karma.

            • 1. Ele não tem nenhuma preocupação com questões teológicas, Aurora. Karma é algo que não o interessa nem um pouco.

              Você não só não leu o livro como também não conseguiu entender a resenha, não é?

              2. Forjadas por quem? Que comissão? Onde estão esses dados e como eles desmontam cada um dos vários documentos apresentados pelo autor? Não apenas afirme algo, pois não posso simplesmente aceitar o que você diz só porque você diz, justifique-se racionalmente ou não diga nada.

              3. Sim, ela era uma guru no sentido que especifiquei. Mas volte lá para entender qual é.

              4 e 6. Em primeiro lugar, eu não sou cristão, de onde tirou isso? Em segundo, há crenças de todo o tipo no ocidente e no oriente, mas algumas sobrevivem e outras não sobrevivem aos critérios científicos, sendo que quando uso o conceito de “prova” estou pensando na ciência, é claro, e não naquilo que é aceito nas religiões. Por tudo o que se sabe de ciência hoje, crenças como reencarnação, karma, e coisas semelhantes carecem de provas.

              5. Ora, qualquer um interfere na vida de outros ao existir, mas isso nada tem que ver com o fato de que a crítica é autônoma em relação à vida particular, tanto que ela lhe sobrevive em livros e na cultura, a despeito das pessoas conhecerem ou não a vida de um crítico.

              7. Nunca disse que a vida não tinha valor algum, só respondi que as pessoas a quem você atribui alta ética são apenas pessoas. Isso não lhes diminui em nada, a meu ver.

              8. Eu sei que você não precisa de argumento, Aurora, é nítido que você não se preocupa em fundamentar o que acredita e apenas repete um monte de coisas sem muito raciocínio. Mas para fazer uma discussão com pessoas que se preocupam em fundamentar o que acreditam, como eu, ou mesmo para criticar as posições alheias, como as minhas, você precisa de argumentos. Ou vai apenas se passar por uma crente incomodada por ser criticada, mas que no fundo não tem resposta nenhuma a dar, só a indignação e o exato fanatismo de que é acusada.

              • 1. Karma não seria algo teológico mas científico e ético. Você já leu a Gita ou mesmo a obra da autora que ele tanto tripudia.Por isso ele ignora isso, por ser um anglicano.

                2. A minha palavra tem de estar a cima da razão se não estou a te persuadir. Francis Bacon fundamentou sua filosofia nessa premissa.

                3. Na sede mundial da Sociedade Teosófica em Pasadena-EUA na Loja Blavatsky em UK.

                4. O que quero que você entenda é que ela nunca foi uma guru no sentido do termo, ela se tornou o que sempre foi a Virgem do Mundo. De que mundo você vem? Quem aceita karma, aceita destino e determinismo. Não acha que ela preferia ter vivido uma vida na alta realeza russa ao invés de ter se tornado um mártir na Índia tendo que ir para Europa sem um tostão no bolso e humilhada pela cristandade da época, ela não tinha escolha, não ganhou nada, apenas viveu por uma causa sem princípio e nem fim ou o que a ciência chama Singularidade.

                4 e 6. Você quer dizer na ciência do plano físico no ocidente. Que vamos combinar, achar que vocês homens vieram de um macaco é uma piada.

                7. O problema não é a crítica e ela vir de alguém que não aceita os conceitos corroborados. Ele não está a criticar, está a persuadir. Em termos mais humanos, somente cada um pode contar a sua própria história.

                8.Eu não entendo o que você quer dizer por argumento, eu vivo em estado de Turya. Argumento para mim é a memória akáshica e cientificamente a prova dos tempos geológicos e descritos nas escrituras do hinduísmo e de ciência mais arcaicas do que a infantil ciência moderna. Não sou fanática, sou oposta a isso, cética a qualquer idéia que não possa ser comprovada pela experiências de outros adeptos e sábios. Esse ė o sentido original de Theosophia e não o que o autor corrompe.

                Em termos mais gerais os Deuses renascem e por meio desses consecutivos renascimentos libertam-se da condição de aprisionamento na matéria, são capazes de transladar os seus Egos para outros universos por meio do Tetagramaton e enquanto vivem nesse mundo auxiliam a humanidade no plano espiritual, já que karma é a causa de toda dor ou prazer. E como diz um belíssimo aforismo: do menor átomo inconcebível até o supremo Brahmān karma atua.

                • 1. Aurora, Karma não é um tema no livro, nem em minha resenha, aliás, nem a Teosofia como doutrina é propriamente um tema de qualquer um dos dois. O método do autor é puramente histórico e o meu é sobretudo filosófico.

                  2. Sua palavra tem que expressar suas razões, pois ela vier antes da razão então sua palavra se converte em autoridade.

                  Quero que isso fique bem claro: Bacon defende exatamente a crítica à autoridade, o exato contrário do que você está dizendo que ele defende.

                  3. Creio que aqui encerramos.

                  4 e 6. Aurora, o sentido em que usei o termo guru não é um sentido religioso, mas o sentido de guia religiosa de massas, como expliquei no texto, alguém que se tornou um referencial para as pessoas, a quem elas visitavam, pediam conselhos, acompanhavam seus debates, etc. Nesse sentido, Blavastky é mesmo uma guru e seu comportamento foi precursor de outros gurus que vieram depois.

                  Sobre o termo ciência, ao usá-lo eu quis mesmo dizer ciência (positiva), contudo, acho que quando você usa essa palavra está colocando dentro dela Teosofia, crenças religiosas e tudo aquilo que não é aceito como conhecimento científico senão no interior desses mesmos credos.

                  7. Ora, o autor “aceita” os conceitos necessários à crítica. Ele não precisa acreditar na Teosofia para fazer um trabalho histórico sobre tal religião.

                  8. É exatamente por não entender que você não consegue diferir a pregação do argumento e faz desse debate algo sem muito futuro, afinal, se não entende o que é argumento, não há razões que eu possa te apresentar os quais você possa reconhecer, e você mesma não sabe apresentar argumentos para me dissuadir do meu ponto de vista, só pregar.

                  Sobre o ceticismo, você está usando o conceito de forma equivocada. Usar a experiência alheia como forma de comprovação é o exato oposto do que o cético faz. Caso tenha interesse, tem um texto aqui no blogue explicando essa corrente.

                  Acho que não tenho mais nada que acrescentar.

                  • 1. Que outro livro? A clara intenção do livro não é ser histórica, é denegrir a imagem da instituição, o próprio prefácio do livro demonstra isso. Como filósofo certamente deveria ter percebido isso – se assim se diz. O objetivo final de filosofia não é a ética? A Teosofia [como ação no mundo físico] naquele tempo foi o mais puro estado de ético possível naquela sociedade.

                    2. A autoridade de pessoas, não divina. Por isso as palavras a cima da razão. Não foi o que Jesus Cristo fez em seu tempo? Gandhiji ao libertar a Índia? Moisés ao dar liberdade ao povo hebreu? Thot ao erguer uma civilização em meio a ignorância do povo egípcio?

                    3. Um guru é um instrutor, ela foi apenas um adepto. Para ela ter sido um guru ela teria que ter trazido a sua própria imagem. Hitler, Stalin, Napoleão, César foram mais gurus do que ela nesse sentido. Em ter mais filosóficos, um guro é um instrutor por si mesmo [ensina o que aprendeu em vidas passadas conforme a doutrina buddhista, védica e hindu], enquanto um adepto cumpre a vontade divina [ele não está mas a ensinar apenas aprender], o que construiu a opinião das massas foram os escritos e não a presença dela, porque isso as pessoas não compreendiam.

                    4 e 6. Falo da ciência pura (que aceita os siddhis), não crença [essa palavra é errada, é fruto do manasaputra], digo o oposto, a ciência do mundo natural está muito mais próxima do que disse a Teosofia naquele tempo e isso em qualquer tempo. A busca da ciência não é explicar os fenômenos da natureza e corraborar com fatos? Mas para que algo seja um fato tem que ter sido uma memória passada, porque qualquer coisa que seja gerada no presente se torna uma memória para o futuro. Sendo mais clara ainda, a ciência natural e pura preocupam-se com o conhecimento perdido pela incapacidade humana de total compreenssão da natureza, enquanto a ciência materialista preocupa-se em saber do conhecimento futuro [filosoficamente falando chamamos isso de necromancia].

                    O grande problema é que a psicologia moderna nega que exista um estado de auto-consciência no ser humano. Considera ele apenas um padrão-comportamental. E o único objeto da Teosofia naquele tempo foi dizer que o que a ciência, religião e filosofia chama de Deus nunca existiu, que o único objeto de todas essas ciências seria a Lei da Retribuição.

                    Blavatsky era uma teurgista e negromonger, ela só aceitava a ideia de uma entidade espiritual imanifesta, o qual para a raça hebréia seria o Ain Soph. Não se importava muito com a ignorância predominante em seu tempo, porque já sabia que fazia parte da memória de raças passadas. [O que o autor nem se quer leva em conta, ele historifica a vida física e supostamente moral dela e não o objeto de seu estudo, porque possivelmente ele o negava {a ela, ou seja, ele era um profano}.]

                    7. Se você fala de crítica no termo científico então fala de um objeto, um experimento, uma teoria, uma suposição. Ele criticava a ela e outros, isso não é crítica, é profanação ou em termos vis intriga. E Teosofia não é religião, poderia ser considerado no máximo uma filosofia nos tempos de hoje.

                    8. É exatamente isso, não me importo com o futuro, porque para mim esse não existe [no seu conceito de criação e não tempo]. Argumento para mim é o mesmo que memória, e só pode vir por meio de troca de experiência de uma mesma raça ou espécie.

                    “Não sou fanática, sou oposta a isso, cética a qualquer idéia que não possa ser comprovada pela experiências de outros adeptos e sábios.” Sim, sou muito cética, só aceito a experiência comprovada por outros porque aceito renascimentos consecutivos, logo se um mulçumano me disser que será salvo enquanto vive eu vou rir porque ao menos que ele possa reencarnar e comprovar ter sido salvo enquanto vida ele não carregava a verdade. Simplificando, sou tão cética que só aceito o conhecimento que trago de outras vidas e ao menos que alguém possa provar o mesmo [em relação a si mesmo] eu não aceito isso como uma fato ou algo científico. Pode ser no máximo redundante, mas de modo algum é contrário ao conceito de ceticismo.

                    Bom, para você todas essas coisas são úteis ou não, no sentido que tem seu próprio livre-arbírtrio. Para mim isso é inútil já que vivo sobre Karma-Nemesis, do meu nascimento a minha morte já vivo sobre um estado de determinismo e nem sequer posso enganar a Natureza porque não aceito a ideia de uma deidade.

                    • (a) se existe uma deidade ou como Platão nomeou Logos, existe um tempo.
                      (b) ele é criado pelo renascimento dos deuses.
                      (c) se esses não estão mas não atmosfera terrestre então tempo em relação a eles mesmo não existem até que o outros deuses renasçam.
                      (d) a correlação não tem a ver com as vidas recentes mas a memória de renascimentos passados.
                      (e) isso é Karma-Nemesis.

                      Em si é o estudo de qualquer filosofia. Ser capaz de prever no tempo futuro o seus atos presentes e ver no tempo passado as suas condições atuais – um estado de total ética, ausência de interferência na Natureza.

                    • Não estou a te doutrinar, apenas isso é algo tão natural para mim que considero a maior parte das criaturas vivas, principalmente os seres humanos quando negam a existência de uma última lei na Natureza ou que o Sol seja um ser espiritual praticamente inferiores, porque isso seria renegar o Ain Soph e por conseguinte por a sua própria raça em uma condição de maior e maior miséria. Já que cientificamente falando a única coisa capaz de libertar o Homem de sua ignorância seria o Nirvana. Leia o primeiro livro que Blavatsky escreveu, ele contém todas as chaves do que seria a condição de um yogue pleno. Não à toa que foi a obra menos valorizada, as pessoas se acostumam a julgar pelas aparências e não pelo ceticismo.

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