Pedras e vidraças

1. Lembro que existia um aluno na minha primeira graduação que fazia discursos inflamados a cada oportunidade que encontrava. Pouco importava que o professor estivesse apenas explicando um autor ou uma teoria, ou que o questionamento do rapaz não fizesse sentido naquele contexto, pois ele levantaria a mão do mesmo jeito para se opor ao autor, ao professor, ao capitalismo, sei lá. O fato é que suas falas eram inteiramente vazias e sem qualquer resquício de inteligência, o que ajudava a perceber que eram na verdade um embuste, uma performance para atrair a atenção e fazer com que as pessoas quisessem ter com ele — “que parada de revolução é essa aí que você está falando?”.

Como soubemos depois, esse rapaz entrava e saía de de graduações de humanas “espalhando a palavra”. Diante disso, tentei imaginar quem o financiava e o que ele pretendia com aquilo, mas na época eu não tinha ideia dessas coisas. Foi a primeira vez que vi algo do tipo.

18198204_10154289283227136_7050110761893055074_n2. No fim da minha graduação em Filosofia comecei a reparar em questões educacionais que as pessoas ao meu redor não reparavam. A partir disso, estudei diversas coisas, iniciei vários projetos e até considerei largar o curso, mas quase tudo o que comecei a partir daí fracassou (miseravelmente, aliás). Ainda assim, consegui produzir um bom texto sobre a graduação da universidade no qual eu analisava o projeto pedagógico do curso e fazia algumas críticas, apontava alguns caminhos e coisas dessa sorte (leia aqui), sendo que o texto circulou e algumas pessoas se aproximaram de mim para conversar sobre as questões que ele levantava.

Mas dessas conversas sempre surgiam os mesmos impasses.

Antes de tudo, várias dessas pessoas vinham de movimentos políticos e sociais querendo que eu me integrasse a eles, algo que eu não tinha interesse algum em fazer. Além disso, diferentemente de mim, a maioria delas não estava interessada em usar as reflexões do texto para buscar formas de realizar melhorias na universidade, bem dizendo, elas queriam usar o texto para suscitar agitações coletivas, fazer protestos, greves e tal, de maneira que a simples possibilidade de ocupar os (poucos) espaços que a universidade cedia para discussão parecia um absurdo para elas se não fosse acompanhada de algum tipo de barulho. Com isso, tão logo notavam que eu não estava a venda e que também não ia lhes alugar minhas ideias, elas se afastavam decepcionadas e cheias de interrogações, contudo, eu já estava mais experiente e não tinha dúvida alguma de quem elas eram e o que pretendiam.

É verdade que meus projetos morreram comigo, porém pior que isso seria vê-los prostituídos por aí.

3. Desses anos todos para cá, esse trabalho que meu colega fazia de migrar de um curso para o outro ficou cada vez mais barato e concorrido graças ao número crescente de protótipos de Che Guevara disponíveis no mercado. Hoje ninguém mais precisa cobrar para fazer propaganda de partidos e coletivos, pois é de livre vontade que as pessoas trabalham dia a dia para fortalecer algum grupo do qual façam parte, espalhando notícias falsas sobre os adversários, invadindo páginas dos grupos rivais, fazendo passeatas, infiltrando-se em passeatas alheias para cometer atos de vilania e sabotar o outro, etc. O que elas ganham com isso agora que o dinheiro não está mais em questão, por falar nisso, é algo bem legal de discutir.

Nesse quadro todo o que considero mais perigoso é que essas pessoas ocupam espaços e instituições pelas quais não tem nenhuma consideração, usurpando tudo o que oferecem, inclusive a amizade de quem acha que está lutando por um mundo melhor e vai na onda dessa gente, apenas para satisfazerem finalidades escusas. Tais pessoas foram atraídas para o meu texto não por que fossem universitários críticos, pois não são, mas porque meu texto criticava a universidade: o texto era uma pedra, a universidade uma vidraça e, no ímpeto de destruir, qualquer engodo servia.

Por conta disso, mesmo que andem calmamente entre nós e que digam que se importam com o lugar em que estão e com quem o ocupa, nunca mais me enganei com essas pessoas por um motivo muito simples: independentemente de quem digam que são, em suas mãos só há pedras e seus olhos só se veem vidraças.

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