Religare

1. Capitu não tem descrição física em Dom Casmurro. Bento até se aproxima de apresentar uma no misterioso capítulo trinta e dois, porém percebe que seus sentimentos o fazem fracassar, sendo consequência desse fracasso a moça emergente da descrição ser enevoada, esmaecida, e não passar de uma interpretação de uma personagem literária que, por sua vez, é também a estetização das memórias do narrador derivadas de suas experiências com sua amada.

Machado de assisVárias “mediações” nos separam da moça e turvam pouco a pouco sua imagem. Cada uma delas constitui uma tentativa de retomar a experiência original de contemplá-la — seja pela memória, pelas letras, o que for — a qual, paradoxalmente, também aumenta nossa distância dela na medida em que cria mais uma interposição entre Capitu e nós. Lembrar já não é contemplar, escrever já não é lembrar e assim por diante, sendo que embora possa existir certa semelhança entre a Capitu original e a interpretação que fazemos dela, quanto mais longe Bento nos leva na tentativa de religá-las mais somos afastados por essas mediações interpostas entre uma e outra. Sua tentativa de gerar proximidade gera na verdade distanciamento.

Aí está o problema da descrição: ela é um protesto contra a perda de uma experiência original, consequentemente, é ação artificial, artifício, arte, uma tentativa de religar o narrador a essa experiência que nesse mesmo processo a dilui e o afasta dela.

Capitu seria mesmo quem Bento pensava? Jamais saberemos, tampouco ele mesmo.

2. Se a pessoa de Capitu é diferente da memória de Bento que é diferente da personagem literária de olhos oblíquos, então por mais que se possa supor alguma igualdade entre as várias mediações que nos separam da moça, essa suposição constitui apenas o ato de assemelhar analogicamente coisas que são intrinsecamente diferentes.

Por mais que o retrato e a pessoa original se pareçam em alguma medida, o retrato não tem o tamanho ou as dimensões do original, nem suas cores, cheiro, constituição e, sobretudo, não tem seu movimento. O retrato captura uma única circunstância, um único tempo e perspectiva em que o original esteve, recriando suas características com outros elementos. Usar a memória para reaver Capitu, por exemplo, apenas produz outra Capitu que só existe na memória — não há retomada, somente recriação.

Ademais, se considerarmos também que esse processo tem origem na experiência original de Bento e continua até a interpretação que fazemos de seu livro, com a memória sendo recriada pela literatura e assim por diante, será consequência disso que não só o melhor leitor de Dom Casmurro jamais chegou perto de saber quem foi Capitu, como também aquilo que ele interpreta como sendo a própria Capitu é nada mais que uma nova interposição entre ele e ela. 

3. Será impossível então “ligar as duas pontas da vida”? O narrador tece tramas, imagens sofisticadas (deliciosas) com essa meta, porém, conforme nos aproximamos do término de sua obra, sua tentativa de resolver seu passado vai revelando a própria impossibilidade. As lembranças transformadas em literatura podem até gerar novas perspectivas a respeito do que foi vivido, mas elas não podem revivê-lo por serem “novas experiências originais”.

Não é por acaso que o livro termina mudando de assunto: “Vamos falar dos subúrbios”.

Dom Casmurro é artifício, uma tentativa de Bento de  encontrar a si mesmo que — como todo religare — inevitavelmente fracassa, aliás, quando foi mesmo que ele se perdeu? No ciúmes de infância? No envenenamento do filho? Na briga derradeira? É difícil precisar uma cisão interior.

Aquele que usa de artifícios para retomar uma experiência original incorre no risco de tornar suas novas experiências meras mediações para retomar as antigas e assim se fechar à experimentação do novo — seria esse o caso de Bento? Enquanto a maneira pela qual ele viveu seu passado é ricamente detalhada, a maneira pela qual ele vive seu presente tem pouco espaço no livro. Somos encantados pelo religare, mas pouco nos atentamos para aquele que o inicia. Talvez, dentre os mistérios de Dom Casmurro, o maior de todos seja justamente saber quem é aquele que o escreve.

PS: o Machado é um velho conhecido deste blogue e há mais textos dele e a respeito dele publicados aqui.

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Um pensamento sobre “Religare

  1. Pingback: Da impossibilidade de descrever os olhos de Capitu | Ao invés do inverso

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