Diferir e comparar

Atualmente, é bastante comum que as pessoas orientem seus julgamentos dando preferência para diferenciação no lugar da comparação, quer dizer, em vez de pensarem em termos de “melhor” e “pior”, elas preferem pensar em termos de “esse” diferente de “aquele”.

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Apesar disso, basta refletir por um momento para notar que a comparação é frequentemente inevitável e, mais ainda, que é comum que uma bela diferenciação oculte uma grotesca comparação. A bem dizer, o comparar surge rotineiramente quando é preciso descartar um, ou melhor, quando é preciso optar por um em detrimento de outro, o que requer pesar coisas diversas com uma mesma balança.

Diante disso, quem insiste na diferenciação pode dizer: “não há medida comum entre diferentes”, algo que tem lá sua verdade, contudo, não só existem situações em que é preciso descartar um, como também os próprios argumentos que relativizam a balança são comumente menos persuasivos que o próprio resultado da comparação que ela produz. Darei dois exemplos.

O primeiro: podemos argumentar que, em última instância, nenhuma pessoa é mais bela que a outra porque toda beleza é singular e não cabe compará-la com mais nenhuma; entretanto, será que podemos dizer ou sequer pensar numa coisa dessas diante de alguém cuja beleza aparente ser maior que as outras? O julgamento da beleza como sendo maior que as demais parece se impor antes mesmo de qualquer relativização do critério que coloca várias belezas numa mesma balança e sobressai uma delas.

O segundo: tive uma professora que separava os trabalhos que recebia de acordo com uma “tipologia dos alunos” em que aqueles trabalhos feitos pelos melhores estudantes ficavam numa pilha separada, e seriam lidos com calma, ao passo que aqueles que vinham de alunos razoáveis ou fracos iam para uma pilha geral, e receberiam uma leitura mais superficial. Daí, coloco as seguintes questões: essa professora agia com preconceito? Ela estava moralmente injustificada por estar distinguindo (em suma, comparando) os estudantes e na verdade todos deveriam ser tratados igualmente? Confesso que tenho dúvidas quanto a esse tipo de pensamento hoje em dia, em primeiro lugar, porque ele parece com aquelas coisas que as pessoas dizem para parecerem boas pessoas, mas também pelo que afirmei anteriormente: às vezes, o resultado da comparação (“alguns alunos são mais, outros são menos”) é mais persuasivo que qualquer diferenciação e parece artificial relativizá-lo.

Se formos extremistas diante desse quadro o risco será duplo: de um lado, podemos endossar irrestritamente a comparação e virarmos preconceituosos (pensando que só algumas balanças valem), de outro, podemos endossar irrestritamente a diferenciação e, em vez de virarmos relativistas que nada julgam, viraremos hipócritas que comparam e fingem não comparar (“são todos iguais mas uns mais iguais”).

Se não formos extremistas, no entanto, acho tudo fica mais complicado e não tenho uma resposta muito certa nesse sentido. Minha hipótese é que talvez a solução esteja na reflexão a respeito das circunstâncias em que os critérios são aplicados e não nos próprios critérios, quer dizer, devemos pensar quais circunstâncias exigem necessariamente o “descartar um” — a sala de aula exige? O romance exige? A teoria exige? — para que, antes mesmo de aplicarmos nossos critérios de comparação e diferenciação, pensemos na pertinência deles em cada situação.

Nota: imagino que vocês já saibam mas, só para constar, o quadro acima — Os operários — foi pintado em 1933 pela Tarsila do Amaral.

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Um pensamento sobre “Diferir e comparar

  1. Pensamento posterior: em última instância ninguém é mais bonito que ninguém, mas dizer “em última instância” significa tomar as coisas do ponto de vista da natureza, ontologia ou da “coisa em si”. Ou seja, dentro de cada ponto de vista particular as coisas obedecem aos parâmetros próprios de cada cultura e indivíduo, por isso, por mais que possamos fazer o esforço de chegar a uma abstração completa e perceber a coisa de um ponto de vista estritamente racional, quando olhamos de nosso ponto de vista carnal e culturalmente determinado, a abstração não tem qualquer força persuasiva.

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