Duas inquietações sobre House of Cards

1. Frank Underwood, um político inescrupuloso em ascensão, é uma pessoa surpreendentemente sem preconceitos. Nas várias frentes em que ataca a política americana, ele se permite conversar com as várias alas do congresso (negra, cristã, liberal, o que for) sem jamais hostilizá-las por representarem quem representam.

Frank simplesmente não liga para quem é o outro e essa falta de preconceito é parte de sua força, pois ter preconceitos significaria não poder conversar com esses grupos, não poder tramar com eles, ou ainda, não poder usá-los em benefício próprio. Com isso, é justamente a falta de escrúpulos do personagem que o torna não preconceituoso, sendo que sua virtude não é propriamente moral mas amoral.

Minha inquietação a respeito disso é a seguinte: considerando apenas relações de poder, aquele que tem moral é o fraco? Em outras palavras, moral é coisa de quem não sabe consegue pegar o que quer? No fim das contas, o preconceito é um tipo de escrúpulo, de moral? (Agora baixinho para ninguém ouvir: a moral é um tipo de preconceito?).

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2. Num determinado momento da série, alguns políticos provocam uma paralisação de professores para atingir um grupo político rival. A mobilização acontece com sucesso: ocorrem debates sobre educação, os professores levantam cartazes, a mídia noticia, as pessoas discutem, etc. 

Só que nada disso importa, quer dizer, toda a mobilização não mantinha qualquer relação com a educação ou com os professores, mas apenas com disputas internas no congresso das quais os professores eram ignorantes.

Inclusive, outra série, Boardwalk empire, apresenta algo muito semelhante com relação aos negros suburbanos da América novecentista. Na história, um determinado grupo ligado ao setor comercial e ao crime usou pessoas infiltradas entre os operários negros para incitá-los a paralisarem suas atividades e assim atingir um grupo rival dependente da continuidade dessas atividades. Os negros foram então à luta, aliás, com mil razões: relatando os assédios, o salário ruim, o racismo e muito mais. Sua pauta era absolutamente justa, só não era negra.

Pois bem, tanto os professores quanto os negros tinham bons motivos para se paralisarem, contudo, eles estavam se expondo como grupo e como indivíduos pelo benefício de pessoas as quais eles ignoravam, e lutando a luta de outros sem que nem mesmo soubessem. Na verdade, a própria luta desses dois grupos somente acontecia ao ser “permitida” pela função que exercia no interior de uma outra luta, completamente invisível para eles.

O que me inquieta a respeito desses dois casos é pensar o quanto eles servem de analogia para as lutas sociais brasileiras da atualidade, ou seja, o quanto as mobilizações sociais (não só manifestações, obviamente, mas todo o arranjo em torno) são só bucha de canhão para a realização de objetivos que nem sabemos quais são e a quem pertencem? Chegará o tempo em que teremos que nos opor às feministas, aos negros, aos professores, aos lixeiros e a outros grupos socialmente desprezados com o argumento inacreditável de que eles não entendem sua própria condição?

Uma perspectiva dessas me parece muito sombria e sugere dolorosamente que somos todos uns idiotas discutindo amenidades.

Somos?

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