Despetalar

Sonhamos em nossas infâncias as coisas mais ilógicas e magníficas, parecendo existir uma curta distância entre o querer e o realizar a qual tornava a mera idealização de um sonho quase tão poderosa quanto sua realização.

Assim, é melancólico que os brinquedos que já quisemos, a ida aos lugares antes almejados entre outras coisas dessa sorte não tenham qualquer sentido agora, e que nem mesmo lembremos bem daquilo que desejamos por muito tempo e com muita intensidade, pois é justamente hoje que temos meios para alcançar o que já quisemos.

Mas se os velhos sonhos já não fazem mais sentido, quais seriam então os novos? O que queremos realizar de mais extraordinário atualmente ou mesmo num futuro próximo?

Parece inadequado colocar tal questão e mesmo a palavra sonho, quando aplicada a um adulto, soa como se não tivesse muito cabimento, como se sonhar fosse conservar um resquício de imaturidade de tempos idos.

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Apesar disso, sonhamos, e até deixamos que nos perguntem com o quê.

Em resposta enunciamos aspirações ridículas com coisas impalpáveis, sem cheiros e sem qualquer graça. Pergunte a um adulto que cor tem seu sonho, como é o jardim de sua casa futura e se sua rua terá cheiro de chuva e você o fará pensar naquilo que jamais pensou. Se quando criança ele percebia de forma vívida e encarnada aquilo que desejava, agora ao ser adulto ele tem apenas anseios esmaecidos, insossos, ocos.

Para explicar o motivo disso, ele lhe dirá que com o amadurecimento percebeu os limites de si e das coisas, passando a notar que a distância entre um desejo simples (como “virar presidente da China”) e sua realização aumentou de forma imensurável (ele assegurará que agora China é do outro lado do mundo!), sendo que ao observar esse longo caminho, ele teme não ser capaz de percorrê-lo e prefere caminhar por uma distância mais curta e segura a procura de um sonho que esteja ao seu alcance. Algo que se encontre em sua própria cidade ou até mesmo no mercado.

Pela impossibilidade de deixar de sonhar, o adulto retira de seu sonho aquela especificidade que o torna difícil de realizar, fazendo sua aspiração estrambótica se tornar comum e ordinária, e retira também a urgência desse sonho para deixar ao acaso sua realização, podendo até deixar para outra vida realizar as coisas que desejou nessa.

O que ele não nota é que aquilo que torna o que seu desejo absurdo e premente é também é aquilo que faz dele propriamente um sonho, sendo que retirar sua especificidade e sua urgência é retirar dele sua doçura e transformá-lo num desejo banal, como quem despetala uma flor até torná-la uma escória ordinária: “Mal me quer, mal me quer…”. Mas aquele que arranca as pétalas daquilo que ama terá o quê em suas mãos para amar?

PS: já fiz algumas reflexões no sentido desse texto aqui.

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Um pensamento sobre “Despetalar

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