Resenha: Invasão vertical dos bárbaros — Mario Ferreira dos Santos

Não é difícil entender Mario Ferreira dos Santos…

Ainda que fale em “cristianismo” de forma genérica e polida, é nítida sua preferência pelo catolicismo como religião, instituição e filosofia verdadeira, sendo que diante dessa confissão de fé todas as demais parecem ser incompletas ou simplesmente errôneas, padecendo de uma vontade desviada e de um desconhecimento da verdade que faz com que seus seguidores vivam vidas infelizes das quais são incapazes de se livrar por si mesmos. Por mais que possam ser perdoados, eles merecem antes a palmatória que a clemência.

Mais ainda, mesmo que afirme perseguir a verdade e usar critérios universais, Mario jamais deixa de se alinhar com forças históricas bastante específicas e defender preconceitos datados e bem conhecidos. Perpassando seu manifesto, quase começamos a sentir pena dos povos que não tiveram a sapiência de “reconhecer a superioridade europeia” e jamais se renderam à São Tomás, às doenças estrangeiras e à sede de sangue dos invasores. Sequer é preciso imaginar quem seriam, pois o filósofo não permite dúvidas a esse respeito: são os índios que não tinham “o sentido do trabalho” (seria do trabalho escravo?), os “bárbaros africanos” e, é claro, os negros.

invasao_vertical_dos_barbaros_1350858520bAliás, é quando fala dos negros que o pensamento de Mario fica ainda mais nítido e sua filosofia supostamente “universal”, supostamente “rigorosa”, deixa cair ao véu que a disfarça para se revelar como é: uma apologia medonha do fanatismo religioso.

A forma como o filósofo entende o tema da “raça negra” e da África leva o leitor aos calafrios conforme Mario repete todos os chavões da historiografia mais ultrapassada, dos momentos mais abjetos da religião e do senso comum para defender um suposto barbarismo inato ao negro e à África que — pasmem — só poderia ser vencido conforme tal raça e tal continente se ligassem ao cristianismo. Entre Mario e o neopentecostal mais estúpido há uma diferença de grau, mas certamente não de natureza; ambos discursam com amor acerca dos pecados mais brutais. Seguem alguns exemplos: “(…) é preciso remover himalaias para conseguir despertar num africano o sentido do amor e da disciplina, o respeito ao semelhante e ao superior, e nessa esquemática não se acresça a ameaça da violência e do castigo” (pág.76), ou ainda: “A verdade é que na África, tudo quanto se pretenda fazer com algumas palavras brandas, com expressões de afetividade, em que não se esconda ou se dê de leve a impressão que o transviado receberá a chicotada, nada se consegue de positivo” (pág.75). Para piorar isso, o autor ainda escreve tais coisas com o tom moralista de quem está dando uma lição que custa ao leitor admitir, como se no fundo todos soubéssemos que negros só entendem o chicote mas, por algum tipo de polidez, evitássemos dizer isso em voz alta. Mario seria assim o homem corajoso que nos ensinaria verdades duras sobre a condição inferior dos negros.

Posições abjetas como essa e explicações morais baratas para fenômenos políticos tremendamente complexos estão espalhadas por todo o livro, tornando a experiência de leitura frequentemente constrangedora para qualquer um que não seja tão fanático quanto o autor. Por sinal, nos piores trechos o editor até tenta atenuar a visão medonha de Mario por meio de notas “explicativas” que tentam fazer com que aquilo que ela diz não pareça assim tão medonho. Mas é medonho. Absolutamente medonho.

Para além disso, Invasão vertical dos bárbaros é um manifesto dedicado não só a criticar um estado da cultura e da civilização como também as ideias de outros filósofos, contudo, tais críticas são inespecíficas e superficiais mesmo para um manifesto, assentando-se em nexos que se revelam risíveis para qualquer um que conheça o mínimo sobre os autores criticados. Até quando critica algum filósofo ou escola que pouco conhecemos ficamos em dúvida se um filósofo pode ser ainda menos capaz que Mario e sucumbir as objeções fracas que ele levanta, mesmo porque tais filosofias são criticadas exatamente naqueles pontos mais superficiais e óbvios em que alguém de posição contrária criticaria apenas por pensar diferentemente. Trata-se de um pensar que não reserva qualquer momento para surpresa ou originalidade: ao ser cristão, Mario defende tudo o que esperamos que um cristão defenda, ao ser um espiritualista, defende tudo o que um espiritualista defenderia  e assim por diante, com os argumentos de sempre, com as consequências de sempre, e com uma linearidade que indica menos uma coerência teórica e mais o fato de que o autor leu alguns autores representativos quanto a essas posições e, sem se permitir duvidar deles ou mesmo se aprofundar em suas sinuosidades, adotou seus discursos da forma mais simplória possível.

Mario é fácil de entender quando se compreende com quais forças históricas ele está alinhado e como sua filosofia, antes de se fundar no amor ao saber, se funda no amor a discursos e poderes bem conhecidos e constituídos: certo cristianismo, colonialismo, eurocentrismo, etc. Logo que compreendemos isso, fica simples deduzir o que ele dirá sobre cada assunto antes mesmo de ler suas palavras e notar que suas orgulhosas demonstrações, sua almejada apoditicidade não assustam ninguém, pois só funcionam dentro que esquemas bastante específicos que já foram debatidos à náusea por autores muito mais competentes que ele.

O resultado disso é um desperdício ecológico de cento e cinquenta páginas de sermões do padre que casou tua avó, mas que poderia muito bem ser resumido numa frase: o problema desse mundo, meu filho, é falta de deus.

PS: esse texto foi escrito originalmente em 2015. Faz tempo…

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