Flusser versus Descartes

Este texto é uma pequena consideração a respeito de uma crítica de Vilém Flusser (1920-1991) à filosofia de René Descartes (1596-1650) feita no livro A dúvida.

Ao analisar de forma crítica as afirmações de Flusser pretendo fazer com que este texto também sirva como um esclarecimento a propósito a filosofia de Descartes nos pontos criticados.

O excerto em que Flusser critica Descartes é o seguinte:

As “certezas” originais postas em dúvida nunca mais serão certezas autênticas. A dúvida metodicamente aplicada produzirá, possivelmente, novas certezas, mais refinadas e sofisticadas, mas estas novas certezas nunca serão autênticas. Conservarão sempre a marca da dúvida que lhes serviu de parteira (…).

Surge (…) a pergunta: “porque duvido?”. Esta pergunta é mais fundamental que a outra: “de que duvido?” Trata-se, com efeito, do último passo do método cartesiano, a saber: trata-se de duvidar da dúvida. Trata-se, em outras palavras, de duvidar da autenticidade da dúvida em si. A pergunta “porque duvido” implica a outra: “duvido mesmo?”

Descartes, e com ele todo o pensamento moderno, parece não dar este último passo. Aceita a dúvida como indubitável (…). A certeza cartesiana é, portanto, autêntica, no sentido de ser ingênua e inocente. É uma fé autêntica na dúvida. Essa fé caracteriza toda a Idade Moderna (…). Essa fé é responsável pelo caráter científico e desesperadamente otimista da Idade Moderna, pelo seu ceticismo inacabado, ao qual faltou dar o último passo. A fé na dúvida cabe, durante a Idade Moderna, o papel desempenhado pela fé em Deus durante a Idade Média” (Flusser, A dúvida, p.23).

1. O primeiro problema levantado por Flusser — posto nesse primeiro parágrafo — já tinha sido colocado anteriormente por Hume em suas Investigações sobre o entendimento humano e consiste no seguinte: Descartes duvida repetidamente até chegar a uma certeza absoluta, entretanto, se ele construiu a certeza sobre a dúvida, tal certeza não seria então dubitável? A objeção é interessantíssima e renderia uma resposta bem maior que aquela que estou disposto a dar aqui, mas tentarei ser sintético.

9709490593_1e82403978_bAntes de tudo, caso queiramos começar a entender o significado que o termo dúvida carrega nessa filosofia separada de nós por mais de três séculos de distância, cumpre considerar que duvidar filosoficamente só faz sentido a partir de duas condições:

a) a primeira é que precisamos ter alguma evidência que preceda e sustente a colocação da dúvida, dizendo de outra forma, só faz sentido duvidar se tivermos uma razão para colocar algo em dúvida;

b) e a segunda é que queiramos conhecer algo, pois não faz sentido que duvidemos sem querer chegar a algum tipo de resposta ou a um maior conhecimento das coisas.

Consideradas tais coisas, basta juntá-las para concluir que duvidar significa colocar uma razão e investigar o novo conhecimento que ela suscita, sendo consequência disso que o resultado da colocação de uma dúvida não seja a produção de uma incerteza mas de um conhecimento certo. Por exemplo: quando Descartes usa o argumento dos sonhos, ficamos cientes tanto da possibilidade de estarmos dormindo e fabulando o que percebemos pelos sentidos quanto de que mesmo o sonho pressupõe uma realidade externa atual donde seus elementos provenham.

Por mais que perante o entulho de nossas antigas opiniões possamos pensar que ficamos com apenas algumas poucas verdades e um saldo final bastante negativo, convém notar que cada crença desfeita é na verdade um ganho por não se acumular na alma como uma “não crença”, mas se integrar harmonicamente à ela como um conhecimento das razões pelas quais algo não está em conformidade com o real.

2. Pelo raciocínio de Flusser até aqui se segue que, se a dúvida é incerta, é preciso colocá-la em dúvida também; entretanto, como a colocação de uma dúvida requer a existência de uma razão que a sustente, devemos exigir do filósofo um motivo racional que fundamente sua “dúvida da dúvida”. O curioso a esse respeito é que o texto Flusser não apresenta qualquer razão para duvidar da dúvida, seja no excerto que citei, seja antes ou mesmo depois dele, o que parece indicar que esse filósofo não sabe muito bem o que quer dizer quando usa o conceito de dúvida ou que não sabe o que Descartes queria dizer, aliás, observando a maneira pela qual ele utiliza o conceito, duvidar de alguma coisa parece significar apenas pôr uma interrogação no fim de uma afirmação a respeito dela, sendo por isso que meramente levantar a possibilidade de se duvidar da dúvida sem porém apresentar uma razão para sustentar esse duvidar parece lhe bastar.

Ainda assim, tentemos dar algum sentido ao argumento do filósofo e suponhamos que Flusser tivesse uma boa razão para duvidar da dúvida. Caso existisse tal razão, então ou ela provaria a dubitabilidade da dúvida e geraria assim uma legítima “dúvida da dúvida”, ou ela não provaria essa dubitabilidade e não possibilitaria o duvidar da dúvida. Se ela provasse essa dubitabilidade, então não teríamos motivos para duvidar dessa “dúvida que prova a dubitabilidade da dúvida”, logo, existiria ao menos uma dúvida da qual não é possível duvidar (a que duvida da dúvida), porém caso ela não provasse essa dubitabilidade, então não existiria qualquer razão para duvidar da dúvida. Em todo caso, esse joguinho horroroso de palavras prova que é possível duvidar sem estilhaçar no processo a própria dúvida, uma vez que algum conhecimento sempre justifica o duvidar e algum outro sempre resta ao final de seu questionamento, mesmo que seja, como diz Hume, o de explorar vastas regiões de ignorância. Há lógica e não fé sustentando a dúvida, por isso, se Flusser está errado na forma como caracteriza Descartes quanto a esse tema, está ainda mais errado no que diz respeito ao modo como o tema da dúvida perpassa o restante da filosofia moderna.

author15203. Como nos ensinam os bons intérpretes de Descartes, a dúvida metódica não é natural; é um artifício racional usado para cumprir um fim, consequentemente, ela carrega toda uma sofisticação própria que cumpre ser estudada e não pode ser colocada no mesmo nível de uma dúvida comum ou de uma dúvida meramente psicológica.

Aqueles que porém não realizam esse estudo minucioso incidem rapidamente em interpretações que rebaixam o conceito filosófico ao senso comum, seja no calor do momento e sem muitos recursos interpretativos, como foi o caso Hume no século XVIII,  seja por simples falta de rigor filosófico, como é o caso de Flusser, Olavo de Carvalho (será que ele copiou o Flusser?) e até do interessantíssimo Gustavo Bernardo, que ao fazer a introdução da obra endossa o erro do filósofo tcheco.

No mais, A dúvida depende absolutamente dessas duas teses que combati acima: que duvidar gera incerteza em vez de evidência; e que Descartes e os modernos tinham fé na dúvida, sendo a partir delas e das consequências que suscitam que Flusser realiza seu percurso filosófico e busca dar o passo que faltou aos modernos. A obra é engenhosa e inteligente, a despeito das críticas que lhe dirigi, cometendo a gentileza de evitar aquele dialeto medonho o qual os heideggerianos insistem em usar, e suscitando diversas consequências interessantes para uma leitura do mundo contemporâneo.

Mas está refutada. Indubitavelmente.

Anúncios

4 pensamentos sobre “Flusser versus Descartes

  1. Ae Bruno, qual o seu problema com pessoas que faltam com o rigor filosófico?! oO HAhahahahaha!

    Mano, você é um filósofo muito melhor do que eu! – Ainda bem! Hahahaha!

Ouse dizer o que pensa

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s