Aforismos de fundo de gaveta (II)

Justiça metafísica. Segundo certa corrente metafísica, todo bem carrega certo pesar ao nascer: ele passa a existir em algum instante temporal específico, inexistindo até o momento de seu surgimento. Disso é possível concluir que todo bem envolve uma ausência de bem ou, em algumas filosofias, um mal — já ao nascer.

Caso venham a considerar isso algum dia, aqueles que tentam restabelecer a justiça finalmente entenderão que sempre partem da pior situação possível, uma vez que no fundamento de todo bem que a justiça pode trazer ou significar há sua ausência. E conquanto ela possa ser compensada, jamais poderá ser desfeita. Por mais bem-vinda que seja, nenhuma justiça futura poderá desfazer sua própria ausência até seu surgimento, consequentemente, o restabelecimento da justiça só poderá ser justo caso se faça não somente para seu presente ou para seu passado, mas, sobretudo, para seu futuro.

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3 pensamentos sobre “Aforismos de fundo de gaveta (II)

    • hahahaha, é meio que uma brincadeira estética com a metafísica.

      Pensei mais ou menos assim:

      1. Todos os bens temporais (deus seria um bem atemporal, por exemplo) passam a existir num momento determinado.

      2. Logo, antes de um bem existir, estava posta sua ausência. E em algumas filosofias, a ausência do bem é um mal.

      3. Sendo assim, um bem é um mal até o exato momento em que surge e encerra esse mal.

      Daí, eu tentei usar isso para pensar a justiça, pois a justiça é um reequilíbrio, ou seja, ela tenta restabelecer um bem. Mas é impossível para a justiça desfazer o que já foi feito e que suscitou a necessidade de justiça, ela só pode criar um novo arranjo das coisas. Por exemplo: se alguém foi morto, ela só pode punir, não pode desfazer o assassinato.

      A justiça parte, então, do fato de que ela é impotente para corrigir o que quer que a suscite. O que pode ser justo, então? Tem que ser uma espécie de arranjo que gere um bem para o presente e para o futuro, pois quanto ao passado não há o que fazer.

      (não sei se ficou mais claro… hahaha)

      • Os pontos 1 e 2, beleza, mas esse ponto 3 ainda está esquisito. Porque pensando que “um bem é um mal até (…)” nós estamos pensando que o bem e o mal possuem, no final, a mesma natureza, a mesma substância. E penso nessa questão de forma bem Tolkiniana, o bem e o mal possuem naturezas completamente distintas, assim como os poderes do lado negro da força. HAhahaha!

        Além do mais, o bem e o mal metafísico é bem distinto da justiça praticada entre nós. A justiça nada mais é do que a intervenção do estado na vingança (estou falando da justiça tão somente e não do policiamento e qualquer outra coisa que faz parte do nosso sistema de justiça).

        Mas de qualquer forma, o seu raciocínio está correto, a justiça, dificilmente, pode reparar os danos ocorridos. Mesmo as indenizações, servem antes para punir os praticantes do que para restaurar os danados.

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