Pequena teoria sobre ecos sociais

1. Em alguma medida todo intelectual expressa sua origem social: ao ser branco ou negro, age e pensa como branco ou negro, ao receber tantos salários mínimos de pagamento, age e pensa como alguém que vive com essa quantia em dinheiro e assim por diante. Como bem sabemos, nossa origem social nos delimita de vários modos ao colocar palavras em nossas bocas, gestos em nossos corpos e pensamentos em nossas cabeças.

Apesar disso, sabemos também que quanto mais capaz for tal intelectual, mais ele poderá compreender diversas origens sociais e delimitar o que deseja manter da sua, pois somos aptos ao aprofundamento, a nos tornarmos maiores que nossos imperativos sociais e a até mesmo a estranhá-los e a superá-los conforme o caso.

Orientar-se na direção desse crescimento intelectual, contudo, é difícil e extenuante, requerendo esforço e atenção duradoura, sendo que muitos preferem seguir ecoando suas origens sem qualquer pudor para evitar esse fardo. Caso somemos a isso o fato de que existem numerosas instituições que privilegiam certos setores e grupos sociais — cedendo-lhes espaço, poder e expressão — em detrimento de outros, entenderemos facilmente por que mesmo um intelectual que seja mero eco de um deles pode, ainda assim, encontrar bastante reconhecimento público.

1459967_663895600316827_1923842466_n2. Existem ecos mais progressistas, ecos mais reacionários, ecos mais coerentes e menos coerentes, à esquerda, à direita… E eles estão em toda parte: jornais, universidades, televisão, bares…

De acordo com nossas inclinações e preferências nós os valoramos, apoiamos ou rejeitamos,  por vezes, até esquecendo que eles são exatamente iguais em sua limitação de jamais transgredir suas respectivas origens. Independentemente de quem sejam ou representem, eles não demonstram voz própria e não pensam nada que outro intelectual proveniente da mesma origem social ou com conhecimento a respeito dessa origem não pensaria.

As razões disso não dizem respeito unicamente às capacidades desse intelectual, mas também ao nosso meio social: um intelectual que seja publicamente reconhecido como um eco de certa origem encontra aí o limite de seu reconhecimento público, pois caso aja de uma maneira estranha à suas raízes ou caso comece a estranhá-las por ter se tornado mais complexo e não poder mais ser reduzido a elas, ele perderá seu reconhecimento porque aqueles que antes o reconheciam como seu porta-voz não mais o reconhecerão como tal. Dizendo de outro modo, tão logo o intelectual comece a ter ideias exclusivas, a ter voz própria, ele passará a “representar a si mesmo” em vez de representar outros e, por esse motivo, os outros deixarão de ter nele alguém que leva adiante as ideias e vozes que eles têm.

3. Diante disso, intelectuais assim dispõe de duas maneiras de manter seu reconhecimento público: eles podem nunca vir a ser mais complexos que seu público e manter mais ou menos um mesmo discurso sempre, ou nunca deixar que seu público perceba que eles são mais complexos que aquilo que suas palavras expressam. Por sinal, as duas maneiras envolvem alguma desonestidade, uma vez que mesmo aquele que não amadurece cedo ou tarde nota seus limites e toma a decisão de permanecer na estreiteza deles.

Obviamente, também é possível ao intelectual se orientar em direção a uma maior autonomia quanto aquela origem que o suscitou e, com alguma sorte, ele poderá até se libertar dela.

Aqueles que seguem nessa direção poderão também obter um reconhecimento público mais heterogêneo, mais ligado à coerência de suas ações e pensamentos que ao quanto ecoam ou não suas origens, entretanto, um reconhecimento mais heterogêneo é também menos devotado, menos unívoco e, em certo sentido, mais fraco, posto que o público que dá esse tipo de reconhecimento precisa ser também mais complexo e submeter à crítica aquilo que o intelectual professa em vez de apenas endossar suas palavras.

Aliás, talvez os grandes intelectuais estejam acima do reconhecimento público (ou, ao menos, do reconhecimento público de uma época), na medida em que ultrapassam tão vastamente aquilo que os origina que nem mesmo o tempo poderá delimitá-los.

Fico imaginando a solidão de se estar no topo…

Nós que não estamos entre eles, porém, temos ainda assim um longo caminho à nossa frente caso não queiramos viver vagando entre uma turba e outra. Como diz o ditado: “para vivermos uma vida de idiotas é melhor que sejamos muitos”, desse modo, tão logo nossas pernas estejam prontas, é melhor que comecemos a nos mover.

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