Certa ingenuidade filosófica

Por vezes, o aluno de filosofia entra no curso com uma ingenuidade curiosa: ele assiste aulas de Filosofia da Ciência, Teoria do Conhecimento, Lógica, e fica profundamente enfadado com a dimensão da teoria e com aquele palavreado complicado que ela requer. Daí, ele se dirige às aulas de Filosofia Política ou Estética procurando o “real” ali, aguardando ansiosamente o momento em que estudará a “sociedade”, o “seu tempo” e coisas assim.

Afinal, quem não sabe que a Filosofia Política fala da “realidade”, não é mesmo? O que pode ser mais objetivo e menos teórico que a “luta de classes”?

quinofilosofia

Lembro que certa vez, num curso sobre o Tratado da emenda do intelecto, havia um rapaz que chegava atrasado na maioria das aulas só parar dormir profundamente até o termino delas. Ocorreu que numa aula em particular o professor disse qualquer coisa assim: “no mais das vezes, quando o Espinosa usa o conceito de “vulgo”, ele está tratando das classes dominantes”. E foi aí (e só aí) que o rapaz despertou: desajeitadamente, movendo as cadeiras em volta para apoiar o corpo e se erguer. Um mosquito espinosista incomodara seu sono dogmático.

Até aquele exato momento no qual um termo de seu afeto tinha sido proferido, ele não tinha feito quaisquer relações entre o livro — ou melhor, entre a “teoria do conhecimento” de Espinosa — e a política. Nenhuma. Assistira aulas e aulas a propósito de nada: substancia, ética, emendar o intelecto… Apenas teoria vazia e palavrório. Real mesmo era “classe dominante”.

Particularmente, acho isso uma pena, de verdade.

Quem vai assim tão longe nesse tipo de ingenuidade fica incapaz até mesmo de entender os próprios conceitos que idolatra, pois torna-se incapaz de notar quanta teoria existe em termos como “luta de classes” ou “classe dominante” que, inclusive, fundamenta toda a complexidade e relevância que eles têm. Se há uma coisa que tais conceitos não constituem é um fato, eles não estão pregados na realidade como placas que podem ser lidas por qualquer idiota que passe por elas, sendo justamente essa riqueza que escondem o que os torna relevantes e significativos enquanto houver quem possa compreendê-la e se servir deles.

Mas há quem se ofenda com tal descoberta e prefira ver uma placa de “classe dominante” pregada em cada banco ou apartamento de luxo do mundo. Nesse sentido, Marx não foi um filósofo, porém apenas o primeiro idiota que decidiu ler o óbvio em voz alta.

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2 pensamentos sobre “Certa ingenuidade filosófica

  1. Eu sei que não foi isso que você quis dizer, mas o começo do texto ficou parecendo que essas coisas de “classe dominante” são dadas no curso de Filosofia da Ciência.

    Convenhamos Bruno, quem fica com essa de “classe dominante” está cagando para qualquer tipo de profundidade que exija horas de estudo. ¬¬

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