Emancipar o Outro

Foi durante a graduação o período que mais convivi com grupos que pretendiam, de variadas formas, emancipar o Outro. Apesar de muitos deles me serem inteiramente novos, notei que repetiam mais ou menos um mesmo discurso: alegavam conhecer os problemas das pessoas, ofereciam-se para carregar seus fardos e lhes emancipar dos males do mundo, além disso, exigiam para tanto o cumprimento de uma mesma condição, a saber, que o Outro deixasse sua condição de Outro e se juntasse a eles.

Na eventualidade de que tal cooptação não ocorresse, no entanto, instaurar-se-ia dali por diante uma distinção valorativa entre aqueles internos ao grupo dos emancipadores (que seriam positivamente valorados) e aqueles externos a ele (que seriam negativamente valorados), decorrendo daí uma curiosa “hierarquia da emancipação” e, a depender de cada caso, “grupo dentro de grupos” e “hierarquias dentro de hierarquias”.

Confesso que tive meus momentos com essa gente: conheci pessoas, apoiei e desapoiei ideologias, identidades e tendências, decepcionei-me cedo com alguns e tarde com outros por meio de variados graus de sabedoria e burrice de minha parte, contudo, quase todos me decepcionaram e não consigo esconder minha careta sempre que encontro alguém com muitos ideais assim.

Para ser franco, encoleriza-me que eles pensem no Outro como sendo esse animal selvagem que precisa ser espancado até virar doméstico — só estando cativo é que pode ser livre, só sendo submisso é que merece compaixão. A jaula da emancipação, asseguram-me, têm cores amáveis, ideologias bonitas e, sobretudo, companhia, muita companhia.

Por conta disso, suspeito que seja qual for o belo nome que tais pessoas inventem para si a fim se unirem e seja qual for a pureza moral das intenções que aleguem possuir, elas jamais deixarão de afiar suas garras antes de saírem de casa, pois podem precisar ferir quem não quiser ser emancipado. Aparentemente, emancipar o Outro é um processo violento em que, dilacerando-lhe a cara, esculpimos seu rosto para parecer mais com o nosso. Ao fim, nós contemplaremos no espelho mais ou menos a mesma face: a de um monstro.

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2 pensamentos sobre “Emancipar o Outro

  1. O pior é que é exatamente isso, seja entre veganos, feminazis, esquedopatas, até comigo… Hahahaha!

    Bruno, e quando a “emancipação” é realmente emancipação? – Não por uma posição, mas por uma capacidade avaliativa melhor.

    • Acho que a minha principal inspiração foram os apologetas católicos e aqueles marxistas não muito versados no Marx. Foram os grupos que mais enfrentei, mas serve sim para todos e principalmente para a gente.

      Quanto a essa coisa da emancipação, eu fico pensando que nós podemos tornar o outro autônomo ao darmos a ele meios (poderes e coisas assim) e nos assegurando que ele saiba como usar tais coisas para o que quiser, mas isso não o torna livre, só autônomo. Particularmente, acho que não podemos tornar o outro livre, que não podemos libertar ninguém, pois enquanto a autonomia é autonomia em relação a alguma coisa, a liberdade é autodeterminação e isso só pode ser feito por cada um. Não se liberta ninguém de nada, nem pela educação, pois se conseguíssemos libertar o outro, ele não estaria sendo livre, mas servil a nossa interferência.

      Mas tudo isso é novo para mim e não está muito certo ainda na minha cabeça. E também estou roubando essa definição de liberdade do Espinosa, que ainda não entendo bem.

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