Um cético na Cabala — Luiz Felipe Pondé

Que tal ir aos Jardins, em São Paulo, tomar um café gostoso, falar da última viagem ao Vietnã e assistir a uma aula de cabala no Kabbalah Centre da Madonna? Definitivamente um luxo: ver e ser visto, posar de espiritualizado e “aprender” a fazer Deus trabalhar para você. Tudo de bom, não?

Você não precisa disso? Duvido. Você não tem medo da vida? Não minta. Pouco importa se compramos uma saída para o medo no Amex, se andamos de metrô ou de BMW, se frequentamos igrejas evangélicas ou aprendemos palavras mágicas em hebraico ou sânscrito, se trazemos as marcas da idade num rosto envelhecido ou as escondemos atrás da pele esticada. Pouco importa – todos nós temos medo da vida.

vince-low-scribbles-4E como se enfrenta isso? De várias formas. Da dermatologista à professora de yoga, da nutricionista ao “mestre da cabala”, das religiões antigas à energia quântica mais brega, tudo é receita para quem morre de medo da morte, do envelhecimento, da pobreza, da solidão. Esse medo é atroz. À noite, no escuro do nosso quarto vazio, estremecemos.

O fato é que a Cabala é pop, mesmo agora que o instituto, sediado em Nova York sob o nome Kabbalah Centre, e seus dirigentes estejam em meio a uma grande polêmica por conta da investigação de seu patrimônio e de suas contas milionárias. (Recentemente, surgiram boatos de que, decepcionada com seus líderes espirituais, Madonna estaria agora flertando com a ultraconservadora ramificação da Igreja Católica, Opus Dei.)

A frequência do Kabbalah Centre de São Paulo é classe A. Bairro chique, Mastercard Black, mulheres bonitas. A recepção é profissional e delicada. O professor tem uma didática de fazer inveja. As “monitoras” são super atentas. E vale lembrar que não é fácil lidar com a mimada e autoritária elite brasileira, muitas vezes mal educada nas suas demandas por atenção infinita.

“Nova era”

Tudo isso faz a cabala parecer acessível para nós, míseros mortais. Mas a verdade é que não é assim. Os cursos do Kabbalah Centre são típicos da espiritualidade “nova era” – auto-ajuda a serviço da tentativa (sempre fracassada) de fuga. A cabala do Kabbalah Centre é mais um fenômeno de consumo do que um fenômeno espiritual de fato. Está mais perto do free shop do que do templo. Mas, diante de nossa eterna agonia, umas horas por lá podem servir como um minuto de consolo.

É provável que o consumidor do Kabbalah Centre some “sua” cabala à astrologia (aliás, o próprio professor fez essa fusão), a massagens ayurvédicas, a peregrinações ao Butão, ao I Ching. A “nova era” é isso – uma salada mista de práticas não ortodoxas das tradições religiosas, como budismo (meditação), hinduísmo (yoga), judaísmo (cabala), islamismo (mística sufi), temperada com “energias”.

Cabala é a mística judaica medieval – e mística é uma “parte” das religiões que fala de contatos diretos com Deus e de seus “ganhos”. Mas tais “ganhos” pressupõem esforços e estilos de vida muito distantes da velocidade na busca de resultados que marca nossa sensibilidade de consumidores ansiosos. Ser um “cabalista” significa ter um estilo de vida muito diferente da fúria do desejo contemporâneo por soluções para casamento, grana, sucesso profissional ou nossa miserável auto-estima.

No caso específico da cabala, estes “ganhos” exigiriam um conhecimento profundo do hebraico bíblico, das raízes comuns que formam as “famílias” das palavras em hebraico (e o significado que emerge desse “parentesco” entre determinadas palavras), das relações numéricas que cada letra implica.

Tal conhecimento misterioso (ou “ganho”) seria, resumidamente, a capacidade adquirida para ver o “invisível” no mundo – e ver esse “invisível” significa encontrar as chaves para as respostas essenciais que buscamos. Por que existe sofrimento e morte? Por que não conseguimos tudo o que queremos? Por que existe o mal no mundo? Existe alguém a nosso favor ou contra nós nesta saga?

Na versão light da cabala, a chegada a este “invisível”, mediada por exercícios de auto-observação, levaria o “praticante” a perceber suas inibições e frustrações, a ser mais proativo e menos reativo. Assim, você veria que o mal existe para te desafiar (o “oponente” é o nome do satanás light na cabala de Madonna) e que você não consegue tudo que quer apenas porque ainda não descobriu que “Deus é você”.

Ser Deus é ser criativo e reinventar sua rotina a partir do direito absoluto a ser feliz.

Luiz-Felipe-Pondé-acsmceVê-se, porém, que a cabala de verdade é mais complexa. Não basta decorar os “nomes de Deus” e repeti-los aos moldes de uma programação neuro-linguística, em meio ao trânsito ou ao pilates, como parecem crer os alunos do Kabbalah Centre. Mas pouco importa: somos uns desesperados por afeto, auto-estima, atenção, por alguém que diga que o mundo está ao nosso favor e que basta olhá-lo da forma “correta”. Aqui reside a mágica da cabala light proferida pelo Kabbalah Centre: eles nos ensinam a colocar o “infinito” ao nosso serviço, porque, se soubermos como “usar Deus”, teremos mais grana, amor, sexo e saúde. Não acredito nisso. Se existisse Deus, Ele não responderia às práticas interesseiras da espiritualidade de auto-ajuda que o escraviza às nossas demandas de sucesso.

O grosso do público no Kabbalah Centre, claro, é de mulheres. Mulheres procuram soluções para a vida mais rapidamente do que os homens, que são mentirosos sobre suas angústias e pouco afeitos à busca por socorro. A cabala auto-ajuda não foge à regra. Os poucos homens presentes (alguns lutando contra o sono, uma pena, porque a aula discute dificuldades de todo o mundo e por isso é até bastante instigante) parecem estar lá para acompanhar as esposas, num claro investimento na relação que agoniza sob a bota do envelhecimento ou da monotonia do cotidiano materialista que respiramos. Quem sabe um vinho depois da aula quebre a rotina da TV e da cama sem ação que assola nossa vida?

Muitas pessoas ali, no entanto, parecem sozinhas, afoitas por “aprenderem a lição”, respondendo com boa vontade e prontidão quase adolescente às perguntas do professor, revelando a solidão escondida por detrás da alegria um pouco forçada. Num cenário de violenta cobrança por competência afetiva e profissional como o que vivemos, momentos como esses podem revelar um esforço conjunto para superar o sentimento inevitável de fracasso da vida passado o tempo das baladas. O sofrimento é o que nos humaniza – e por isso toda tentativa de sobreviver a ele tem alguma gota de dignidade.

Shalom.

Nota: esse texto foi publicado na Folha faz vários anos mas é até hoje o texto que mais gosto do Pondé. Apesar dessa moda da cabala já ter passado, ainda o acho atual e divertido. Espero que não seja uma impressão só minha.

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