Resenha: Sem filhos — Corinne Maier

Sobre o custo de gerar filhos

Em vários sentidos e contextos a gravidez constitui motivo de comemoração: os avós se felicitam pela própria continuidade, as mães exibem suas barrigas como troféus e os pais são parabenizados pelo sexo bem feito. Todos querem cumprimentar quem trouxe um facho de luz a este mundo sombrio e conferir com seus próprios olhos a novidade que nasce. Ter filhos é uma maneira de se integrar socialmente e se ligar a um valor, um rastro de otimismo e fé no futuro que tem seu ápice no nascimento da criança, por isso, poucas posturas são mais polêmicas que o questionar desse valor e há poucas pessoas mais ostracizadas que aquelas que decidiram não procriar.

Deus ordenou que Noé povoasse o mundo e sua voz ecoa até hoje. Convém questioná-la?

Vida que morre e que subsiste
Vária, absurda, sórdida, ávida,
Má!

Se me indagar um qualquer
Repórter:
“Que há de mais bonito
No ingrato mundo?”
Não hesito;
Responderei:
“De mais bonito
Não sei dizer. Mas de mais triste,
— De mais triste é uma mulher
Grávida. Qualquer mulher grávida.”

Manuel Bandeira, Entrevista

Sabrina-Mix-livro-sem-filhos-corinne-maierEste pequeno livro tem como objetivo desmotivar (no sentido de tirar a motivação) pais em potencial que ainda se perguntem se vale a pena ter filhos”

Assim se explica o panfleto divertido de Corrine Maier. Sem pretender defender o fim da maternidade e da paternidade meramente, a autora, em pouco mais de cento e cinquenta páginas, analisa e discute algumas das razões mais utilizadas na defesa da procriação. Há boas razões endossando a procriação ou apenas cedemos a imperativos sociais e biológicos?

A discussão de Sem filhos se encaminha por quarenta (curtos) tópicos em que vários lugares comuns são confrontados e algumas boas ideias debatidas. É bom que se diga que não se trata de nenhuma obra-prima, nem de um tratado de filosofia familiar, mas apenas de um livro divertido que coloca uma discussão válida.

Deste modo, a sistematicidade das linhas à seguir é mero fruto de minha obsessão por ordem e de meu oportunismo de usar resenhas para organizar reflexões. Bem dizendo, em vez de analisar criticamente o livro com a preocupação de separar o que ele diz daquilo que penso sobre ele, tentarei reconstruir suas discussões a partir de meu próprio ponto de vista a respeito delas.

Assumo desde já a culpa pelas falhas dessa empreitada e deixo os méritos para a autora. Preparem seus tomates.

Na Idade Média, a morte de uma criança era menos importante que a perda de um cavalo” — Luc Ferry, em entrevista à Superinteressante

Os medievais europeus acreditavam vigorar certa ordem no mundo – decretada pela própria divindade – dentro da qual cada coisa ou pessoa encontraria seu lugar (e, é claro, ficaria lá até morrer), de maneira que assim como existia uma organização na física ou no mundo selvagem também deveria existir uma ordem social e um lugar natural para cada um ocupar. Como a ordem era fixa, a identidade também era, bastava alocar cada coisa em seu respectivo lugar para a conhecer, sendo esse o tipo de pensamento que tornava aceitável que um camponês passasse toda a vida sem conhecer nada além do perímetro do feudo — um mundo de menos de dez quilômetros povoado por pessoas que vivenciavam as mesmas coisas e estavam submetidas aos mesmos poderes, e nenhum horizonte para além disso. Afinal, quem questionaria a existência do mesmo deus para todos, a soberania do senhor, a servidão do escravo, em suma, os elefantes de sempre sustentando os pilares do mundo?

Nesse pequeno universo, cada conceito relevante na organização da vida social — papa, rei, pai — portava um significado perene e irrecusável, expressando as poucas possibilidades de vida conhecidas e praticadas ali. No microcosmo familiar, por exemplo, pai, mãe e filhos cumpriam sem hesitação seus papéis na harmonia do lar, uma vez que era o próprio verbo divino que decretava o lugar de cada coisa e ninguém ousaria duvidar dele.

211Com o declínio do mundo medieval, contudo, os feudos viraram burgos que viraram cidades repletas de estranhos, de espaços em que pessoas diferentes e de origens diversas passaram a conviver umas com as outras. Forçadamente, é claro. Um novo mundo nasceu dos incontáveis choques de identidades, das novas configurações sociais e fez com que, no convívio constante da diferença, novos relacionamentos fossem construídos a partir do encontro com o outro e não mais a partir de uma grande ordem comum.

Fere nossa dignidade moderna imaginar que possamos ter nascido para morrer no mesmo emprego ou no mesmo estamento, como se a vida transcorresse numa pequena maquete, por isso, preferimos crer que temos algum poder de escolha e fazemos surgir em cada uma de nossas ações a certeza de que escolhemos livremente. Ao construirmos relações — seja com as pessoas ou com coisas — por meio de ações motivadas apenas pelo arbítrio num mundo em que a ordem, se existe, é constantemente questionada, pessoalizamos essas relações e passamos a valorizar tremendamente a individualidade que as suscita.

Cresce assim o espaço do “eu” em cada ação: as obras de arte passam a receber assinaturas, inventa-se o direito autoral e a figura do gênio, surge o ideal social do self made man e os lugares-comuns que reforçam que “o importante é o que você faz e não quem você é” e que nenhuma ordem constitui impedimento para que sejamos qualquer coisa que escolhamos ser. Em se tratando disso, até inventamos de casar com quem gostamos e de experimentar demoradamente o outro (aliás, outros) antes de fazermos isso, afinal, o que pode ser mais cafona que um casamento arranjado?

A Idade Moderna trouxe novos imaginários, alguns deles bem emancipadores, todavia, o fim de uma noção de ordem também nos legou angústias.

Na impossibilidade de uma participação comum numa perenidade superior — de um mesmo céu pairando sobre todos — fomos impedidos de aspirar qualquer ideal de perpetuação. A ordem do mundo ruiu, o firmamento desabou, e não foi apenas deus quem morreu, mas nós também, esmagados pela finitude. Sem ordem, nossas relações passaram a transcorrer ao sabor do mero arbítrio, parecendo se resumir a um capricho no vazio da existência que não tem sentido ou duração. Como se perpetuar se sobre a fluidez das coisas temos apenas um parco poder de escolha? De que maneira construir relações fortes e duradouras, estender-se para além dos anos de idade e conquistar qualquer coisa maior que o emprego medíocre e o diploma desprezível? Parece impossível. Sem uma ordem para dar significado ou perenidade às nossas ações não podemos desejar nada que já não esteja no mundo e que não participe da finitude dele, sendo cada vez mais fácil naufragar no medo da vida animalesca ou sem sentido.

Conquanto nos falte um deus que guarde nossas almas e sua ausência seja irreversível, ainda nos resta algo no interior desse mundo oco, que é continuar significando a vida por meio da prole. Por mais que não acreditemos numa ordem para o mundo e que não compartilhemos a mesmas noções e valores que aqueles ao nosso redor, mesmo assim podemos perpetuar nossa existência (talvez nossas próprias essências) através de nossas crianças. Para o mundo moderno, o filho deixa de ser uma consequência natural da vida e se torna uma forma de salvação, um modo de fazer o “eu” perdurar malgrado nossa finitude. E poucas coisas podem ter mais valor que ele.

Lembro, inclusive, que em novembro do ano passado um menino de dois anos foi picado por um escorpião no interior de São Paulo e, mesmo sendo socorrido, não resistiu. Não bastasse isso, alguns dias depois os pais se suicidaram tomando veneno. Foram enterrados juntos. São mortes emblemáticas e não há quem não as compreenda: é fortíssimo em nós o sentimento de que é preferível morrer que viver uma realidade em que o filho esteja morto.

Não há pai nem mãe a quem os seus filhos pareçam feios” – Cervantes, Dom Quixote, capítulo XVIII

À medida em que a criança adquire valor o espaço da infância cresce e o espaço da maturidade recrudesce. A consequência disso é que enquanto há alguns séculos a figura do adulto diferia significativamente da figura da criança, fosse nos gostos, nas roupas ou qualquer outro costume, atualmente há tanta semelhança entre ambos que nem um nem outro conhecem bem seus limites — as mães se vestem como as filhas por invejarem sua juventude, os pais querem ser jovens para cortejar adolescentes e, contraditoriamente, controlam os direitos sexuais de suas filhas, ao passo que os filhos mandam na casa enquanto enlouquecem por não terem quem os coloque limites, e assim por diante. Até a pedofilia está em alta como nunca, aliás. Para o bem 254338_212165812156477_128531_ne para o mal, todos querem ter suas próprias crianças.

A infância tem sido para nós uma espécie de ideal de felicidade e pureza que recordamos com carinho, um tempo em que as pessoas amavam umas as outras e todos eram felizes. Tamanho tem sido nosso apreço por ela que fazemos da criança um contraponto ao mundo adulto, associando-a à valores de pureza e decência moral que supostamente inexistiriam nos amadurecidos, como se ao não terem a experiência dos mais velhos fossem também melhores que eles.

Obviamente, trata-se apenas de nossa velha tendência de idealizar o passado e achar que, coincidentemente, no tempo em que tínhamos menos consciência do mundo ele era também melhor. Sabemos bem que qualquer criança que não seja contida acaba virando — ainda na infância — um pesadelo ambulante e que todas as vilanias do adulto estão similarmente na criança até onde ela pode cometê-las. Tanto quanto nós, elas necessitam ser contidas e educadas.

Apesar disso, a valoração da criança tem grande repercussão e diversos grupos tentam obter algum benefício disso. O número de exemplos vai ao infinito: há aqueles que supostamente representariam a “ciência” e pretendem nos aconselhar sobre o melhor modo de educar filhos (aparentemente, respondendo ao nosso desejo de dar o melhor para as crianças e de fazê-las viver cem ou duzentos anos, mesmo que às expensas do planeta); mas há também aqueles que, dependendo do que é legal em cada país, pretendem simplesmente lucrar com a utilização desse valor, como as clínicas de fertilização (e por que não? as de aborto), as produtoras de brinquedos, de filmes e desenhos infantis, os bancos de esperma, etc.

Nem mesmo a política ficou de fora desse processo, bastando considerar, como exemplo disso, que ainda é preferível um presidente cujo mandato o obrigue a ficar quatro ou seis anos longe de suas crianças a um presidente solteiro, na verdade, a distância até torna o sacrifício mais bonito. Decerto, existem diversos outros exemplos, como a responsabilização dos jovens europeus pela criação de futuras gerações de trabalhadores (incumbidas de ocupar os postos mais baixos do mercado antes que os imigrantes ocupem), ou mesmo, em nosso próprio país, a recente luta pelo reconhecimento legal de sua união que, curiosamente, mostra que os casais LGBT compartilham os valores dos heterossexuais, como é o caso da criação de filhos.

Enfim, seja qual for o caso a se considerar, por ser se prestar a manipulações religiosas, políticas e comerciais de todo o tipo, a criança permanece relevante no debate público atual, existindo diversas razões para discutir o que devemos fazer com elas.

Os pais fazem dos filhos, involuntariamente, algo semelhante a eles, a isso denominam ‘educação’, nenhuma mãe duvida, no fundo do coração, que ao ter seu filho, pariu uma propriedade; nenhum pai discute o direito de submeter o filho aos seus conceitos e valorações.” — Nietzsche, em Além do bem e do mal.

A prole representa um custo financeiro terrível para qualquer casal. Além de requerer gastos mensais com alimentação, saúde e vestuário, ela tem diversas necessidades específicas que contabilizam altas somas as quais poucos de nós tem coragem de pôr no papel; todavia, mesmo custando tão caro, ter filhos é um direito e em nenhuma democracia do mundo a pobreza constitui motivo para que ele seja revogado. Podemos custear nossos filhos? É uma questão que facilmente deixamos de lado em função dessa garantia legal, em geral, segue-se a vida com o que a vida oferece e o assunto finda aí.

Com isso, embora nossas crianças precisem de uma boa educação pela qual não possamos pagar, podemos colocá-las no sistema público de ensino e torcer que aprendam aquilo que precisarão em seus futuros subempregos, e embora elas necessitem igualmente de boa alimentação e não possamos comprar nada além do mais barato e nem mesmo tenhamos instrução suficiente para mantermos, nós mesmos, uma boa alimentação, podemos entupi-las com industrializados e iguarias altamente calóricas que, de um jeito ou de outro, as manterão vivas, por fim, embora nossos filhos também necessitem de entretenimento de boa qualidade e isso requeira critérios que desconhecemos e valores de que não dispomos, podemos colocá-los em frente a TV ou simplesmente deixar que encontrem diversão de graça nas ruas.

Para cada necessidade cara que uma criança tem há uma alternativa barata e limitadora que as famílias humildes podem pagar de modo a nunca ficarem sem filhos. Nenhuma pobreza, nenhuma dificuldade subtrai o direito das pessoas à reprodução, mesmo que seja à reprodução de si mesmo e de suas condições sociais. Marx, inclusive, notou muito bem isso quando afirmou que: “a idade média é a história animal da humanidade, sua zoologia”, quer dizer, é a história dos bois que geram bois, dos porcos que geram porcos, dos camponeses que geram camponeses e assim por diante…

23768_105684739471252_4833868_nÉ significativo que o filósofo pense assim porque, em se tratando da política, a prole produz obediência e acomodação. Por girarem em torno da proteção da criança, as famílias passam a sustentar aspirações uniformes que motivam comportamentos parecidos, quase sempre convenientes para a estabilidade do Estado. Qualquer pai pensará duas vezes antes de sair de seu emprego e nem lhe ocorrerá entrar em passeatas pedindo transformações políticas em seus dias de folga. De maneira semelhante, a mãe é “naturalmente” algemada ao lar por conta das exigências biológicas e sociais da maternidade, sendo que em pouco tempo se tornará serva em seu próprio lar e de seu próprio filho, a quem logo mais deverá obediência.

Apesar disso, nenhum pai rejeita esse suplício e a maioria deles está mais que disposta a ter uma vida difícil pelo bem das crianças. Resta saber que bem pode vir à custa de sacrifício.

Uma sociedade em que a vida se limita ao ganha-pão de cada dia e à reprodução é uma sociedade sem futuro, pois sem sonhos. Ter um filho é a melhor maneira de se evitar colocar a questão do sentido da vida, pois tudo gira ao seu redor: é um ótimo tapa-buraco da busca existencial. “Meu filho, minha batalha”, como cantava Daniel Balavoine; o que é muito bonito, mas se você não tiver outras batalhas além dessa, sua vida se reduz realmente a muito pouco. O filósofo Kojeve dizia que “o animal se define por esgotar suas possibilidades existenciais na procriação”. Muitos pais, hoje em dia, não estão longe da animalidade. — Corrine Maier, Sem filhos, página 106.

Por perceberem suas proles como seres de grande valor, é comum que os pais criem grandes expectativas a respeito delas e que façam sacrifícios para garantir que brilhem. Sem hesitar eles comerão menos e trabalharão excessivamente por toda a vida, se preciso, inclusive pelo prazer de verem a si mesmos como bons pais.

As crianças serão avisadas disso, certamente, não existindo filho no mundo que não ouça dos pais os sacrifícios que eles teriam feito por si.

Mas por que há necessidade de se sacrificar? Por que os pais ressaltam tanto o próprio sofrimento já que, supostamente, ele viria de bom grado? Eles não estavam prontos para a responsabilidade que assumiram e agora pagam o preço dessa irresponsabilidade? Ou será que o filho é um peso?

Pelo menos no que diz respeito ao Brasil é possível responder tal questão “sociologicamente”: como a maioria de nossos pais são proletários, ou seja, pessoas cujo único bem é a prole, eles tem pouco a nos oferecer além do sacrifício pessoal. Mas há, é claro, um custo para todo sacrifício e ele dificilmente é pago sozinho. Cedo ou tarde os sofrimentos que os pais infligem a si mesmos recaem sobre os filhos e, conquanto as crianças levem com orgulho o sacrifício de seus pais adiante, é simplesmente injusto que os pais vivam mal apenas porque escolheram se reproduzir. Alguns deles até usam filhos como desculpa para explicar sua falta de ímpeto ou fracasso vida, afirmando que não puderam fazer nenhum movimento contrário ao seus destinos porque tinham crianças para cuidar, todavia, se as possibilidades de vida dos pais se esgotam na reprodução, o que eles esperam prover aos seus descendentes exatamente? Os pais que sacrificam beleza, anos de trabalho, dinheiro, que se isolam dos amigos e se limitam a ser pai e mãe, deixando de viver as múltiplas experiências oferecidas pela vida, embora possam ter orgulho de seu feito, oferecem aos filhos referências paternas limitadíssimas. E ainda esperam criar um novo raio de sol…

Pouca gente sai ilesa da educação que recebe em casa. A família — ó pilar da civilização — dificilmente corresponde ao ideal que temos dela, pois concentra desafetos, invejas, violência doméstica e inimizades fulminantes. Aprendemos com ela nossas doenças e loucuras, bem como algumas virtudes, com isso, estamos fadados a uma vida pelo menos tão significativa quanto a de nossos pais, talvez mais, talvez menos, mas pelo menos igual.

Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria” — Machado, Memórias póstumas de Brás Cubas, capítulo CLX

23768_104995789540147_8115131_nPessoalmente, passei a pensar sobre paternidade e maternidade somente nos últimos anos à medida em que aprendi mais sobre Educação, percebendo a relação entre família e contexto social. A maioria dos pais que conheci sustentavam discursos que reduziam sua relação com os filhos à sentimentos nobres, como se fizessem cada uma de suas escolhas por amor aos pequeninos, contudo, com o tempo passei a notar que tais discursos estavam permeados de imperativos políticos e sociais que nem sempre eram do conhecimento desses pais, o que me motivou a conhecer melhor o assunto.

Quando vejo hoje a juventude tão depressiva e derrotista a tomar ritalina e fluoxetina como se fossem balas, o alto número de suicídios e transtornos mentais entre eles, e uma multidão de adultos frustrados lhes servindo de exemplo, me sinto inclinado a perguntar: afinal, queremos filhos para quê?

Ora, mesmo que seja possível dar respostas magníficas à essa questão, e acredito que várias pessoas as tenham na ponta da língua, creio que deveríamos colocar seriamente tal dúvida diante de nós antes que sejamos levados pelas circunstâncias como se elas não fossem históricas, sociais e políticas, mas apenas particulares.

Nesse sentido, o livro de Corinne Maier acerta ao tocar num tema tão polêmico e problematizar os motivos banais que saem de nossa boca para justificar escolhas que nem sabemos bem se escolhemos. É uma pena que ele não explore a relação entre procriação e miséria, tão familiar a nós brasileiros, e não há dúvidas de que esse é um livro francês para franceses que, por vezes, só consegue ser implicante e fraco, entretanto, na maior parte do tempo ele se sustenta e garante várias reflexões interessantes. As extrapolações para nosso contexto ficam por nossa conta.

Em tempo: minha opinião sobre a procriação, que suspeito não ser importante na ordem cósmica do universo, é a seguinte:

1. Acho que existe uma única boa razão para ter ou não ter filhos: se você quiser, tenha; se não quiser não tenha.

2. Apesar disso, caso você possua alguma consciência de si nessa vida, talvez possa considerar outras razões além do seu desejo pessoal ao criar outro humano.

3. Pessoalmente, eu considero duas delas. A primeira é do âmbito sentimental: penso que o amor é um requisito da procriação e que, dentro de alguns limites, não é mérito de ninguém amar o próprio filho. Se você não puder amar sua prole, simplesmente não tenha filhos, mas se puder, não pense que isso te enobrece, amor é só o começo da longa relação que você construirá com sua prole. A segunda é do âmbito prático: se, além de amor, tudo o que você puder oferecer ao seu descendente for arroz, feijão e escola pública de má qualidade, reconsidere se esse é mesmo um bom momento para colocar outra pessoa nesse mundo injusto.

E vá ser feliz.

Nota: as caricatura utilizadas aqui são do Carlos Ruas e do Ricardo Coimbra.

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4 pensamentos sobre “Resenha: Sem filhos — Corinne Maier

  1. Não sabia do seu interesse por esse tema.
    Mas fiquei com vontade de ler os dois livros, o que você trata e o que a Bruna citou.

    Acho que todos quando chegamos em uma certa idade começamos a refletir sobre isso. Rs

    Torço para que um dia só tenham filhos as mulheres que realmente queiram ter !

    Abraços!

    • Eu tenho interesse em sociologia da educação (Bordieu, basicamente), que é um assunto que acaba perpassando esse tema.

      Seria legal que as pessoas tivessem mais informações sobre a maternidade e, principalmente, que tivessem mais meios para cuidar dos filhos. Tenho a impressão de que não vamos sair muito dessa condição de bichos e que as pessoas vão continuar se reproduzindo sem pensar muito, mas se apesar disso elas tiverem meios para oferecer uma vida minimamente confortável para seus filhos, seria algo muito bom mesmo assim.

  2. Esqueci te dizer, Bruno, que adorei esse texto. Ele me fez pensar um pouco sobre essa escolha de ter filhos, eu mudei de uns tempos pra cá, estou namorando com mais cuidado sobre a possibilidade de ter filhos. Fiquei com vontade de ler o livro “Travessuras de mãe”, de Denise Fraga, que são crônicas que ela descreve todos equívocos na hora de educar seus filhos. Fiquei muito feliz de ler esse seu texto aqui. Um grande beijo!

    • Bruna linda, muito obrigado.

      Fico sempre feliz de notar que atingi alguém.

      Eu não conheço esse livro que citou, mas lembro que Rapha me contou de uma peça baseada só nesse tema e tenho pensado mais sobre ele nos últimos tempos.

      Um abraço

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