Aos últimos caipiras

Caso você esteja lendo este blogue sentado num monte de feno, caro leitor de chapéu de palha, considere meu aviso: a vida na cidade é insuportável; mantenha-se longe daqui.

Por estas bandas, necessidades urgentes e absolutamente supérfluas ocupam nossas vidas e roubam nosso tempo. Falta-nos até a oportunidade de pregar um prego ou acender um fósforo, mas como precisamos de objetos seguros em seus lugares e de fogo para cozinharmos nossos alimentos, então compramos martelos, furadeiras, acendedores e ferramentas que quando tivermos tempo para usar nem lembraremos para que as adquirimos. E assim vamos gastando inutilmente o dinheiro que ganhamos com pesar, enquanto reclamamos da naturalidade com a qual abrimos mão dele.

18889412_5FsZESomos esbanjadores, de fato, mas também criteriosos: só gastamos com o que há de mais dispensável. É com imensa facilidade que pagamos outros para realizarem serviços que há vinte ou trinta anos faziam parte do senso comum e que vocês, gente simples do interior, conhecem tão bem. Sabemos cada vez menos a respeito daquilo que é indispensável para a vida como, por exemplo, o jeito certo de trocar um chuveiro queimado ou qual é a cor de uma petúnia. Eu nem tenho um jardim.

Ao consumirem tempo e esforço, essas atividades corriqueiras se tornam cada vez mais insuportáveis, e por isso não temos nenhum pudor em fazê-las com displicência ou mesmo em contratar alguém para realizá-las por nós. Pagamos caro para que nos poupem tempo e esforço, mas somos poupados também das pequenas satisfações da vida, como colocar um quadro na parede ou acertar o tempo do macarrão. Aprendemos uma receita com a TV antes de aprendermos uma receita de família, mas rapidamente ficamos enfadados com a TV e com as panelas — melhor pedir uma pizza.

Gostamos de pensar que as facilidades do progresso nos libertam, porém o que fazem é nos esvaziar de tudo aquilo que costumava dar sentido aos nossos dias. O tempo que ganhamos pressionando o botão do vidro elétrico ou esquentando a comida congelada é oco na medida em que está desvinculado das coisas que o preenchiam. Os condomínios são mais modernos, mas não conhecemos nossos vizinhos, não suportamos nossos parentes e nem mesmo conseguimos manter alguma atenção constante em qualquer coisa, sendo preciso todo tipo de estímulo — cinema intenso e vertiginosos, livros frenéticos, relacionamentos ligeiros — a fim de produzir algum interesse no presente.

Mas nada acontece no presente de nossas vidas e, por conta disso, nada apetece mais nossas vísceras que a esperança de ver surgir algum sentido naquilo que fazemos. Quem sabe um dia a vida enfim chegue?

Sendo assim, amigos caipiras, esqueçam a cidade e fiquem onde estão. Mesmo que o seu tempo esteja findando. Mesmo que o asfalto esteja recobrindo o campo e seduzindo seus últimos filhos. Esqueçam. 

Talvez vocês acreditem existir aqui prazeres apetitosos os quais são ausentes no interior, no entanto, não há fruto na cidade que não possa ser colhido com mais naturalidade no campo. É verdade que temos nos fartado com muitas coisas, algumas bastante próprias desta região, mas já estamos fartos da maioria delas. Hoje nossas panças contém apenas pelanca e vácuo. Somos vazios até daquilo que nos preenche.

Nota: mais caricaturas (de todos os tipos) aqui.

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6 pensamentos sobre “Aos últimos caipiras

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