O cobrador que lia Heidegger — Samir Thomaz

Nem só de Zíbia Gasparetto e Paulo Coelho vivem os leitores dos coletivos urbanos de São Paulo. Com todo o respeito aos leitores da escriba espírita e do glorioso “mago”, talvez a dupla brasileira mais lida hoje no país, mas não é todo dia que, ao transpor a catraca do ônibus, deparamos com o cobrador lendo uma obra de Heidegger.

Sim, Heidegger, o filósofo alemão que estudou com Husserl na Universidade de Freiburg (e depois o sucederia na cátedra de Filosofia) e que a certa altura flertou com o nazismo, sendo por isso afastado daquela universidade. E não era um Heidegger qualquer, mas um alentado volume da coleção Os Pensadores, uma prova concreta de uma das teses mais controversas de Walter Benjamin, feita letra morta depois pelos pós-frankfurtianos, segundo a qual a indústria cultural, se por um lado aliena e oprime, por outro democratiza a informação. Mas deixemos de lado a Teoria Crítica e retornemos à manhã em que deparei com o cobrador mergulhado nas águas profundas do pensador alemão.

Assim que venci a catraca, procurei um banco vazio e me sentei. Queria observar de um ângulo estratégico o que meus olhos tinham visto de relance. Ali estava ele: um trabalhador negro, de condições humildes, lendo um filósofo de grosso calibre. O que atraiu meu olhar foi o fenômeno sociológico que se materializava à minha frente. Seria preconceito da minha parte? Com o faro de jornalista aguçado, fui conversar com ele (então já o tinha escolhido como objeto desta crônica). Ele fechou o livro e aceitou de bom grado a conversa, durante a qual revelou um pouco de sua vida. Reinaldo, como prefere ser chamado, tem 30 anos, é casado, tem um filho pequeno e mora em Pirituba. Trabalha há dez anos como cobrador e cursa o terceiro ano de Psicologia na Unip, mediante o benefício do Pro-Uni. A leitura em que o flagrara não faz parte do currículo de seu curso. “É um conhecimento que estou buscando por conta própria”, ele esclareceu. Perguntei de onde vinha esse interesse. “Sempre me encantei com as questões humanas, com a multiplicidade das personalidades, com as diferenças econômicas”, respondeu. “Me preocupo com o homem num sentido mais profundo e busco amenizar seu sofrimento”. A conversa fluiu nesse clima intimista, e logo meu ponto se aproximava.

Premido pelo tempo que me restava, quis saber o que as leituras vinham agregando ao seu dia-a-dia. “Tendo contato com Heidegger e com outros filósofos, a gente passa a entender um pouco mais o ser humano”, ele disse. “Eu vejo as pessoas passarem aqui com seus problemas, e às vezes sinto uma certa mágoa, porque elas xingam a gente, e tudo o mais. Mas aí eu vejo que por trás daquela aparência existe um ser humano que sofre, tem angústias. Então passo a ser mais tolerante”. Meu ponto havia chegado. Cumprimentei-o com admiração e agradeci pela conversa. Ele retribuiu, brindando-me com uma última revelação, à guisa de quebrar o tom solene da conversa: a de que era corintiano. E roxo.

Nota: li essa crônica pela primeira vez num exemplar da revista Filosofia Conhecimento Prático, cujas páginas, guardadas numa pasta, reencontrei faz alguns dias. Embora meus olhos tenham envelhecido de lá para cá, a leitura dessa crônica continuou ótima, inclusive, soube que esse textinho simpático acabou originando um livro. Espero poder adquiri-lo logo mais.

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