Orelhas

Aula de Filosofia Política.

Uma moça chega e mal sentando já ergue o braço para perguntar. É, aliás, uma pessoa “engajada”.

O professor faz um gesto consentindo a fala.

— Professor, blablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablabla,

blablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablabla,

blablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablabla,

então eu pergunto: blablablablablablablablablablablablablablablablablablablablaablablablablabla,

blablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablabla,

blablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablablabla.

Diante de tamanha eloquência o professor para. Pensa com detalhes antes de começar a responder os vários pontos da questão.

Logo que ele começa a falar, no entanto, a moça inicia uma conversa com um colega do lado – não está mais prestando atenção.

(Não era uma questão, professor, era um discurso. Bastam as orelhas).

PS: fiz uma versão em francês desse texto aqui.

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9 pensamentos sobre “Orelhas

  1. Pingback: Oreilles | Ao invés do inverso

  2. Já estou ficando velho, e passei por coisas assim faz quase um quarto de século.

    Eu fazia uma matéria de Antropologia que eu achava excelente, e que meus colegas, na maioria, detestavam. O professor discutia Malinowski, Polanyi, Webber, e apenas eu e alguns outros gostavam da aula. Observação: a graduação era em Economia. Isso explica o desinteresse (ou melhor, em parte; posteriormente os mesmo colegas desdenharam aulas de Micro e Macroeconomia, teoricamente, a parte nobre da formação em Economia; na verdade, o que a maioria queria era apenas o canudo, se possível sem forçar muito a massa cinzenta).

    Um colega – vou chamá-lo de Zé – amava as aulas e discutia bastante com o professor, e perguntava, e o professor respondia às suas perguntas, e às vezes a turma inteira saia de fininho e ficávamos uns cinco alunos e o professor, abordando principalmente as questões levantadas pelo Zé. Não preciso dizer, não entendia nada do que o Zé falava, e me achava até burro por isso.

    Até que um dia, no boteco da faculdade, fomos com o professor tomar umas e outras. Depois de algumas geladas, confessei ao professor minha ignorância sobre as perguntas do Zé. Ele riu e disse, com toda a franqueza: “Amigo, eu também não entendo nada, mas sei que ele se esforça e lê muito. Deve ser difícil pra ele ser tão confuso. Por isso tento responder algo aproximado, que tenha algo a ver com o assunto, mas sinceramente, confesso que não entendo patavina do que o nosso amigo fala!”. E caímos todos na gargalhada.

  3. A situação poderia ser pior. Eu explico, e você diz se não poderia. Quando eu cursava Filosofia, havia colegas que tomavam a palavra para perguntar ao professor. Juro que me esforçava para entender, escutava atentamente. Aquilo não fazia sentido algum. Por um tempo, achei que era insuficiência cognitiva minha, mas pude constatar, inclusive pela consulta a alguns colegas, que o problema não era comigo. Pois bem: a pergunta, muitas vezes longa, terminava sem pé nem cabeça. Qual não era meu maior espanto, ao ver que, silenciado o aluno de discurso incompreensível, a maioria dos professores olhava-o fixamente e respondia algo, que fazia sentido, exceto por não ter nada a ver com nada que tentou organizar em forma de pergunta. Lembro que tinha meu profundo respeito um professor português de História da Filosofia Antiga, porque, nessas ocasiões, ele dizia que “isto não se entende, refaça a pergunta”. Era o professor mais venerado entre os alunos, e eu ia à desforra por meio dele.

    • Ah, eu já vi casos assim também. Fico sempre surpreso que, ao responder uma resposta coerente mas que não tem muita relação com a pergunta, o professor satisfaça o aluno ainda assim. Será que o aluno não queria mesmo uma resposta? Será que ele não entendeu a si mesmo? Para ser sincero, eu não sei.

      Acho que, às vezes, o aluno está apenas buscando um espaço para se expressar. Ele entende que as questões pessoais dele tem alguma relação com os conteúdos colocados no discurso do professor e tenta fazer com que essas questõs sejam levadas em conta, contudo, ao fazer isso sem muita perícia, sai aquela salada.

      Eu gosto mais da postura do seu professor de Antiga e, se um dia eu der aulas no ensino superior, vou agir de algum modo mais parecido com ele.

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