Resenha: Parque Industrial — Patrícia Galvão

Literatura e militância

Há uma maneira popular de se falar da obra de Patrícia Galvão que consiste em se evitar falar da obra de Patrícia Galvão e apenas ressaltar o folclore em torno da autora, ficando subentendido que aquilo que ela escreveu foi tão rico quanto aquilo que viveu.

Particularmente, considero que isso rebaixa a obra por colocar seu valor fora de si, deixando intocado qualquer mérito próprio que ela possa ter, e foi pensando nisso que planejei esta resenha: pretendo me contrapôr a essa análise que parte das circunstâncias da obra para julgar seu valor e analisar Parque industrial a partir dos méritos próprios à literatura que ela apresenta.

Como método de exposição dessa análise decidi brincar um pouco com o marxismo da autora e escrevi este texto na forma de um confrontamento dialético de ideias. Apresentarei sucessivamente as virtudes do livro (Por Pagu) e seus problemas (Contra Pagu), por fim, terminarei com uma síntese de tudo (Sintetizando Pagu).

pagu1Por Pagu. Parque industrial é literatura militante, sendo assim, é fácil banalizar o livro: basta endossar ou rejeitar previamente a proposta política defendida pela autora. Podemos endossar o ponto de vista apresentado na obra e ignorarmos seus problemas por gostarmos daquilo que ela diz, ou podemos ressaltar nossas discordâncias políticas com esse ponto de vista até inviabilizar nossa experiência estética com a obra. Há leituras banais pró e contra Pagu, contudo, caso queiramos ser justos com ela, em vez de julgarmos seu livro pelas opiniões prévias que temos quanto à sua militância ou mesmo quanto ao que seja literatura, devemos considerar com cuidado (porém sem qualquer condescendência) os critérios estéticos que ela nos oferece para avaliá-lo. Pensando assim, que poderemos dizer dessa obra política que é Parque industrial?

Contra Pagu. Uma das coisas mais importantes talvez seja que sua mistura entre literatura e política não é harmônica. A narradora (ou narrador, escolham o gênero que preferirem) não conduz o leitor através de personagens e circunstâncias para fazê-lo ponderar sobre algumas das causas da pobreza, da alienação e da exploração no “capitalismo paulista” enquanto tece uma história que tenha valor por si mesma, na verdade, ela deseja que o leitor conclua determinadas coisas a respeito dessa conjuntura política e usa personagens e circunstâncias como recurso de convencimento. Em função disso, os acontecimentos do livro são apenas receptáculos de uma mensagem política, inexistindo qualquer espaço para dúvida ou sutileza — quiçá nem literatura — entre o leitor e essa mensagem. As imagens são simplesmente arremessadas contra ele como se fossem tijolos, sem nenhuma inteligência, esperando demovê-lo de suas posições políticas.

Por Pagu. A despeito desse desequilíbrio, o livro contém alguns méritos interessantes no tocante à narrativa, a começar pela utilização de personagens que não são propriamente indivíduos. Cada novo nome a que somos apresentados é uma espécie de tipo social (a empregada assediada, o sindicalista vendido, etc.) que tem importância na medida em que representa o contexto e os acontecimentos do parque industrial. Os personagens não expressam identidade pessoais, mas uma circunstância político-social da qual fazem parte, sendo essa circunstância — de exploração, sindicalismo, partidarismo — e não esses personagens a verdadeira protagonista do livro. Em se tratando da condição da mulher pobre no parque industrial paulista, por exemplo, isso funciona muito bem.

Contra Pagu. Ainda a propósito da narrativa, duas vozes a constituem: aquela da narradora que nomeia os personagens e, com alguma liberdade, diz quem eles são e como vão; e aquela dos próprios personagens que, seja em monólogos ou mesmo em conversas uns com os outros, estão constantemente se referindo a si mesmos e dizendo quem são e como vão. Uma vez que inexistem grandes conflitos entre uma voz e outra, aquilo que a narradora diz dos personagens é, no mais das vezes, aquilo que eles mesmos pensam sobre si, com efeito, os personagens são, quase sempre, meros representantes do ponto de vista da narradora, dando ao romance uma única perspectiva. Além disso, esse nivelamento das vozes impede que as descrições da narradora sejam complexas, posto que os próprios personagens também não são complexos. A exemplo disso, os adjetivos que aparecem correntemente no livro para caraterizar os exploradores dos operários — “vendidos”, “burgueses”, “madames”— não são conceitos emergentes da rica tradição marxista a qual Pagu é filiada, mas simplórios vitupérios oriundos das trincheiras da extrema-esquerda. Tanto a narradora quanto os personagens se expressam nesses termos toscos e isso faz com que, por parte deles, tenhamos que ler explicações políticas pobres vinda de personagens pobres, e, por parte dela, com que vejamos cenas ridículas criadas por sua penúria conceitual. O leitor de Parque industrial se deparará constantemente com imagens que pretendem estabelecer contrastes político-sociais e, todavia, levam antes ao riso que à compreensão da sociedade brasileira: o patrão explorador e cruel, o empregado honesto e sofredor, a madame fútil, a moça que terá que abortar sua criança por falta de dinheiro, e outras que permeiam o livro todo. Na ausência de uma boa caracterização do quadro sociológico paulista, resta à narradora apelar para imagens caricatas a fim de converter o leitor ao seu ideal político, sendo que mesmo os detalhes mais singelos acabam virando outdoors dessa militância um pobre não pode apenas vestir um macacão, por exemplo, ele precisa vestir um macacão roto que foi remendado várias vezes por sua pobre mãe, uma triste costureira que trabalhou por toda a vida sem conquistar nada e que hoje está quase cega; de igual modo, um rico não bebe champagne meramente, ele bebe champagne feito “das lágrimas” daqueles que foram exauridos no processo de produção da garrafa. Pode parecer exagerado colocar as coisas assim, mas tais imagens estão mesmo no livro e nem são as piores dele. A obra está repleta de artificialidades como essas, todas bastante cômicas, e, é claro, bastante problemáticas para um livro que pretende abordar os problemas sociais de uma época.

Sintetizando Pagu. Pessoalmente, considero muitíssimo interessantes os livros que colocam circunstâncias como protagonistas (O cortiço, de Aluízio Azevedo, ou a trilogia Fundação, de Isaac Asimov, por exemplo), uma vez que eles sempre requerem adequações originais na narrativa para melhor expressar essa circunstância, todavia, confio que qualquer leitor o qual não tenha um veredito prévio sobre Parque industrial concluirá facilmente o mesmo que eu a respeito desse livro: que se trata de uma obra pobre feita por uma autora limitada. Por mais que exista uma tentativa de adaptar a narrativa ao discurso político, a pobreza desse discurso acaba sendo transmitida à narrativa e impede que ela seja rica ou complexa, com isso, Parque industrial se torna apenas uma tentativa de divulgação e embelezamento de uma perspectiva política limitada, sendo criticável como política e irrelevante como literatura. Com a maior das concessões alguém poderia dizer que Parque industrial possui certo valor histórico, no entanto, qualquer registro do passado poderá ter valor como fonte histórica dependendo da perspectiva do historiador, porém só alguns permanecem como registros de boa literatura — não é esse o caso.

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3 pensamentos sobre “Resenha: Parque Industrial — Patrícia Galvão

  1. Pingback: Ao invés do inverso, quatro anos | Ao invés do inverso

  2. Creio que foi um comentário bastante completo sobre a obra, meu caro. (Embora, admita não ter lido). De uns tempos pra cá, tenho pensado muito sobre esse dilema da militância (seja ela qual for) em relação às cânones literárias. Acredito que essa reivindicação de trazer mulheres, negros e gays para cânone não está de todo errada. Mas, creio que precisa melhorar o debate.

    O excesso da reivindicação dessas figuras acaba exaltando muito o papel do autor, como o principal elemento da produção literária, e excluindo a visão do crítico e do leitor, e mesmo do texto em si. E, em certa medida, é algo que enfraquece o campo de produção teórica sobre literatura, não estamos produzindo biografias dos autores, nem analisando os seus estilos de vida.

    Muito bom o comentário! Ainda tenho interesse de escrever e comentar como você. Um beijão!

    • É… A tendência desse tipo de recorte engajado, quando mal feito, é reduzir a obra à alguma ideologia do presente, delimitando o valor da obra por algum valor político atual (valorização de minorias, etc).

      Obrigado pela leitura, Bruna.

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